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Obesidade em mulheres negras: quando a desigualdade também adoece o corpo

Por Rafa Bastos

O Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, amplia o debate sobre uma condição crônica de saúde que cresce de forma expressiva no Brasil. No entanto, discutir obesidade exige ir além da dimensão individual e compreender os determinantes sociais que atravessam esse cenário — especialmente quando falamos de mulheres negras.

 

Dados recentes do Governo Federal mostram que “as mulheres negras com mais de um salário mínimo apresentaram maior prevalência de excesso de peso (59,2%), se comparadas às mulheres brancas com mesma renda.” O dado revela que a desigualdade não se explica apenas pela condição econômica. Mesmo com renda semelhante, o impacto não é o mesmo. A obesidade é reconhecida como uma condição crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, associada a maior risco de hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Entretanto, sua distribuição na população não é homogênea, pois está profundamente relacionada aos determinantes sociais da saúde.

 

Mulheres negras estão mais expostas à insegurança alimentar, vivem majoritariamente em territórios com menor acesso a alimentos in natura e equipamentos públicos de promoção da saúde e enfrentam jornadas de trabalho frequentemente duplas ou triplas. Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) mostram que cerca de 20% das famílias chefiadas por pessoas negras enfrentam situação de fome no Brasil, percentual quase duas vezes maior que o observado entre famílias chefiadas por pessoas brancas. Quando se observa o recorte de gênero, a vulnerabilidade se intensifica entre mulheres negras chefes de família. A insegurança alimentar não significa apenas ausência de comida, mas acesso restrito a alimentos de qualidade, o que impacta diretamente padrões alimentares e riscos metabólicos.

 

Soma-se a isso o estresse crônico relacionado ao racismo estrutural. Uma pesquisa publicada em 2024 na revista científica Public Health Nutrition, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com 400 adultos em Porto Alegre, encontrou associação direta entre experiências de discriminação racial e obesidade, inclusive obesidade abdominal, independentemente do padrão alimentar. Embora o estudo inclua homens e mulheres, seus achados ajudam a compreender como o racismo atua como fator de estresse crônico capaz de impactar mecanismos hormonais e metabólicos — realidade que atravessa de maneira intensa a vivência das mulheres negras brasileiras.

 

Diante desse cenário, o cuidado em saúde precisa ser interseccional. A intelectual feminista negra brasileira Carla Akotirene define interseccionalidade como a compreensão de que opressões como racismo, sexismo e desigualdade de classe atuam de forma articulada. No campo da saúde, isso significa reconhecer que mulheres negras não vivenciam apenas uma condição clínica, mas um conjunto de vulnerabilidades estruturais que impactam seu processo de adoecimento e cuidado.

 

Falar de obesidade em mulheres negras não é individualizar responsabilidades, mas reconhecer que o enfrentamento exige políticas públicas intersetoriais, garantia de segurança alimentar, acesso a alimentos de qualidade e combate ao racismo institucional na saúde.

 

Obesidade não é falha moral. É uma condição de saúde complexa. Mas também é reflexo das condições em que se vive. Neste Dia Mundial da Obesidade, mais do que discutir peso corporal, é urgente defender equidade no acesso ao cuidado e reconhecer que alguns corpos carregam, além de tecido adiposo, as marcas de desigualdades históricas.

 

Cuidar exige ciência. Mas também exige justiça social.

 

*Rafa Bastos é nutricionista clínico com ênfase em alimentação e cultura; o especialista faz parte do time da Baobá Saúde 

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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