Janeiro Branco e o reforço ao olhar de prevenção
O Janeiro Branco é uma campanha criada para chamar atenção para a saúde mental. Inspirado na ideia de um “ano em branco”, que pode ser escrito de forma mais consciente, o movimento convida à reflexão sobre emoções, relações e modos de viver. Ao longo do mês, o tema ganha visibilidade em campanhas e conversas que reforçam a importância do autocuidado e da atenção ao sofrimento psíquico.
Esse movimento é importante. Mas é legítimo perguntar se ele tem sido suficiente. Falar de saúde mental importa, mas não basta quando a conversa se limita a frases prontas ou a orientações individuais. Refletir sem olhar para as condições concretas da vida cotidiana tem alcance limitado. Talvez seja hora de pensar o Janeiro Branco menos como um símbolo e mais como um convite à prevenção real.
O sofrimento psíquico não surge do nada. O aumento de casos de ansiedade, depressão, violência e suicídio não pode ser explicado apenas como fragilidade individual ou dificuldade de lidar com a vida. Ele está profundamente ligado ao cotidiano. Insegurança financeira, medo constante de perder o trabalho, sobrecarga de tarefas, responsabilidade excessiva com o cuidado de outras pessoas, sensação permanente de não dar conta e solidão fazem parte da experiência de muitas pessoas. Muitas vezes, o que chamamos de “problema emocional” é o corpo e a mente reagindo a uma vida vivida no limite.
A dor sentida não é falha pessoal. O sofrimento não indica falta de esforço, força ou maturidade emocional. Em muitos casos, ele sinaliza que as exigências da vida estão ultrapassando o que é possível sustentar naquele momento. Carregar culpa por isso apenas aprofunda o adoecimento.
Esse peso também não se distribui de forma igual. Algumas pessoas convivem com mais responsabilidades, menos apoio e maior exposição ao estresse cotidiano. Mulheres, por exemplo, acumulam trabalho, cuidados e cobranças emocionais, muitas vezes sem espaço real para descanso. Outras pessoas enfrentam rotinas marcadas por insegurança, perdas frequentes e sensação constante de instabilidade. Ignorar essas diferenças empobrece o debate sobre saúde mental.
Além disso, vivemos em um contexto de excesso de informações difíceis, violência cotidiana e incerteza sobre o futuro. Mesmo quando não há um evento traumático específico, a experiência de viver em estado permanente de alerta cobra um preço emocional alto. O desgaste se acumula aos poucos, até se tornar insustentável.
Nesse cenário, prevenção não pode significar esperar o colapso para buscar ajuda. Cuidar da saúde mental antes que tudo desmorone não é fraqueza, é responsabilidade. A prevenção acontece em gestos simples e cotidianos: ter espaços de escuta, fortalecer vínculos, reconhecer limites, garantir algum tempo de descanso, permitir lazer possível e procurar ajuda profissional quando os sinais aparecem.
Falar em bem viver não é romantizar a vida nem negar dificuldades reais. É reconhecer que saúde mental depende de condições mínimas para existir. Relações que sustentam, rotinas menos exaustivas e ambientes mais humanos fazem parte desse cuidado. Não se trata apenas de esforço individual, mas de criar contextos que não adoeçam continuamente as pessoas.
O janeiro Branco pode ser mais do que um mês de frases prontas. Ele pode marcar um compromisso com a prevenção, com o cuidado contínuo e com escolhas mais conscientes sobre como estamos vivendo. Cuidar da saúde mental não é aprender a suportar o insuportável, mas reconhecer que viver não deveria doer o tempo todo, e que olhar para isso é urgente.
*Maiumi Souza faz parte do time da Baobá Saúde; é psicóloga, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil
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