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Entrevista

Maurício Moradillo, delegado da Coordenação de Repressão a Roubo às Instituições Financeiras

Por Luís Filipe Veloso

Foto: Ascom | Polícia Civil
Desde o início de 2015, 147 ataques a unidades bancárias tem tirado o sossego de quem reside em Salvador e, principalmente, no interior da Bahia, segundo números do Sindicato dos Bancários no estado. O delegado Maurício Moradillo - Integrante da Coordenação de Repressão a Roubo às Instituições Financeiras, que faz parte do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil (Draco), conversou com o Bahia Notícias sobre o assunto e demonstrou otimismo, mesmo com o cenário atual desfavorável.
 
O que a Secretaria de Segurança Pública (SSP) e, especificamente o Draco, tem planejado para coibir o avanço destas ações criminosas?
O Draco e, consequentemente, a Coordenação de Repressão a Roubo às Instituições Financeiras foi criada em março deste ano. Ainda em março, antes da criação desta frente de trabalho, o estado teve um aumento da ordem de 85% no número de ocorrências criminosas contra bancos, quer na Capital, na Região Metropolitana de Salvador e, também, no interior do Estado. A partir do início das operações do departamento, as investigações passaram a ser intensificadas e já é possível perceber uma redução, mês a mês, destas ocorrências, em números absolutos comparados com o ano passado. Hoje, o departamento já contabiliza 41 prisões, quadrilhas foram desarticuladas, armamentos de grande potencial destrutivo, a exemplo de granadas, foram apreendidos. Nós ainda temos um acervo bastante considerável de prisões preventivas a serem cumpridas. Para isso, os nomes destes procurados serão publicados, oportunamente, no aplicativo da Secretaria de Segurança Pública para que a população, de um modo geral, tenha conhecimento de quem são estas pessoas e, consequentemente, possam auxiliar a Polícia Civil na captura destes indivíduos. 
 
Estes números que a segurança pública utiliza para comparar os atuais resultados podem ser divulgados, quais seriam?
Veja bem, em todo o ano de 2014, foram contabilizados 263 ataques. Em 2015, já estamos em agosto e anotamos o número de 143. Esperamos fechar o ano com um número menor, favorável à Polícia Civil e todas as instituições envolvidas no combate ao roubo de bancos no estado. Inclusive, desde a criação deste grupo, que conta com um suporte da Polícia Militar, sobretudo na execução dos mandados de prisão, por exemplo, tem demonstrado uma união bastante salutar para a diminuição destes índices que tanto nos preocupam.
 
Em julho, ocorreram reuniões organizadas pela União dos Municípios da Bahia (UPB) entre os prefeitos das cidades do interior e membros da SSP para debater as dificuldades enfrentadas com a questão da segurança no estado, principalmente com relação aos ataques a banco. Entre as principais fragilidades, de acordo com alguns destes gestores, estaria o número irrisório de policiais disponíveis nas companhias do interior e a falta de estrutura nos batalhões e delegacias. Alguns chegaram a afirmar que precisavam patrocinar o combustível das viaturas para poder manter as rondas e o policiamento regular...
...Olha, eu não tenho este dado. Apesar do nosso departamento ter sede aqui em Salvador, ele possui dois postos avançados em Vitória da Conquista e Itabuna, com delegados, investigadores, escrivãs e viaturas. Desconheço qualquer tipo de auxílio de prefeituras ao Draco nestes locais. Graças a Deus, dispomos de orçamento e recursos necessários para o trabalho da Polícia Civil.
 

Foto: Reprodução | Rádio Igaporã
 
Nosso questionamento toma por base o caráter investigativo do Draco que, por ventura, poderia ter confirmado estas informações ao mapear as ações das quadrilhas em cidades onde, justamente, faltam recursos à segurança pública e isso traria um caráter de maior vulnerabilidade, proporcionando mais facilidade para a ação criminosa...
O que nós vemos, na maioria dos casos, são ações destas quadrilhas em cidades onde o policiamento é diminuto, mas isso não deixa de ser uma verdade absoluta, não, porque nós vemos também estes tipos de ações em cidades de porte médio ou, até, de grande porte, o que foge um pouco desta linha em que estamos conversando. O que notamos são ações muito ousadas destes grupos, violentas, colocando pessoas em risco porque entram nas cidades atirando à ermo, contra delegacias, destacamentos da polícia militar acreditando que vão intimidar e favorecer o êxito das ações, mas colocando as pessoas em risco, o que é uma preocupação muito grande que nós temos e estamos trabalhando para prender o mais rápido possível estes envolvidos.
 
As investigações tem apresentado a participação de integrantes das instituições bancárias colaborando com informações para facilitar as ações das quadrilhas?
As investigações não tem confirmado a participação destes funcionários de bancos nestes grupos. Sobretudo porque trabalhamos com fatos e, por isso, precisamos ter cautela ao não atribuir a terceiros a responsabilidade por estes atos. Entretanto, nós sabemos que, eventualmente, informações privilegiadas partem de alguém ligado a estas instituições, sejam terceirizados ou participantes dos grupos de trabalho nestas empresas, mas, até o presente momento, nas nossas investigações, não estão comprovadas as participações de entes bancários... Mas a gente sabe que isso pode acontecer, como já ocorreu outras vezes.
 
E a participação de agentes de segurança como guardas municipais, policiais civis e militares?
Essa é uma realidade não só na Bahia, mas de outros estados. Existe a participação de pessoas ligadas aos quadros das polícias em nosso estado e o Draco tem intensificado, também, as investigações para identificar e prender, o quanto antes, estas pessoas.
 
Já houve algum fato, um registro, das prisões destes agentes após a criação do departamento?
Até o momento não. Mas, informações acerca de investigações futuras, infelizmente, nós não podemos comentar para não atrapalhar os resultados.
 
Considerando que as sedes do Draco, fora de Salvador, estão mais ao sul do estado, em Conquista e Itabuna, existe previsão para a expansão do departamento em outras regiões?
Já está em planejamento a implantação de uma unidade completa em Feira de Santana, mas a instalação ainda depende de ajustes administrativos, embora a expectativa seja inaugurar este grupamento até o fim do ano.
 
Após o evento cinematográfico ocorrido na cidade de Conde, Litoral Norte do Estado, em um assalto à agência do Banco do Brasil, o Governador Rui Costa declarou que colocaria a disposição do combate a estes crimes uma aeronave do Grupamento Aéreo da Polícia Militar (Graer). Como está a parceria entre estes outros entes de segurança?
Sempre que há necessidade a aeronave do Graer nos presta o auxílio. Recentemente, em uma ocorrência nossa, iniciada em Valéria, que culminou com a prisão de um criminoso e a morte de outro em Feira de Santana, eles acompanharam deste o princípio da ação até o fechamento da ocorrência na unidade policial. Estiveram presentes no ar e no solo, sempre dando o suporte necessário.
 

Foto: Leitor BN | WhatsApp
 
Uma outra preocupação que se instalou, sobretudo porque os ataques ocorrem sempre na madrugada, o que já foi alvo de destaque pelo secretário de Segurança Pública, Maurício Telles Barbosa – é a estrutura disponível nas cidades para informar à inteligência destes atos, contribuindo para que os criminosos sejam interceptados pela polícia. Como lidar com este déficit em relação às cidades mais despreparadas?
Os entes de segurança no estado tem se reunido mensalmente para mapear estes locais com maior grau de vulnerabilidade e, baseado nestas observações, a SSP e outros atores da segurança pública como a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Exército tem dado início a uma “Operação Varredura” que consiste em distribuir um grande efetivo policial em áreas pré-agendadas para coibir o roubo a banco no interior do estado. São 417 municípios e nós procuramos alocar estas equipes com base nos dados levantados nestas regiões. Posso assegurar de maneira categórica que muitas destas ações já deixaram de ocorrer por conta da presença do poder policial nestes lugares durante a madrugada. Mas, diante deste quadro extenso de 417 municípios nós não temos como levar todo o efetivo para cobrir a totalidade das cidades mas temos feito uma boa leitura desta “Operação Varredura” que tem tido uma grande adesão dos entes de segurança e eficácia nas ações. Nossa avaliação tem sido muito positiva em relação a isso. 
 
O departamento pretende divulgar números quanto à eficácia destas ações?
Não, não... são informações sigilosas e, se por um acaso um “deles” tem acesso pode perceber que estão sendo observados e colocar em cheque o resultado das investigações. 
 
Foto: Reprodução | Focado em você
 
O Exército é o ente da segurança responsável por controlar o trânsito de explosivos em território nacional. Já existe, junto as forças armadas, uma estratégia para tentar coibir a entrada destes explosivos ilegais que causam consequências devastadoras às agências mas também ao comércio e residências no momento das explosões de cofres e dos caixas eletrônicos?
Sim, estas reuniões mensais tem servido para alinhar com o Exército e também com a Coordenação de Produtos Controlados da Polícia Civil, medidas para atacar esta frente, com investigações e ações que permitam coibir o trânsito ilegal destes materiais. Inclusive, já ocorreram apreensões que foram frutos destas reuniões como foi um caso recente na cidade baixa de Salvador onde a Polícia Civil reteve grande parte de explosivos. 
 
As investigações do Draco confirmam a suspeita de que os mentores das quadrilhas especializadas são provenientes do Sudeste brasileiro e encontraram em estados nordestinos, como a Bahia, o espaço que precisavam para agir?
Não. Nós percebemos, ao longo das investigações, que existem participantes de outros estados mas não se trata da maioria. A maior parte dos envolvidos é formada por baianos. Obviamente, como o estado faz fronteira com outras sete unidades da federação, seria razoável compreender a interação de pessoas de fora mas não que isso represente um fluxo nacional. Com relação ao intercâmbio com outros estados, o Draco mantém comunicação regular com delegados que atuam no combate a este tipo de crime no Sul e no Sudeste. Inclusive, nos próximos dias 18, 19 e 20, vai acontecer, em Brasília, o Encontro Nacional de Delegados para tratar, especificamente, deste tema.
 
O senhor faz parte do grupo que defende uma unificação de dados em uma ação de âmbito federal na área da Segurança Pública?
Eu posso falar da realidade aqui da Bahia. Nós temos um intercâmbio de informações muito bom entre os estados de Sergipe, Alagoas e Pernambuco, os mais próximos. O ideal seria que houvesse essa troca de dados entre os entes federativos de uma maneira mais rápida e constante. Vamos torcer para que isso passe a ocorrer de forma mais ágil com todos os estados.
 
O crime contra as instituições financeiras está vinculado ao tráfico de drogas?
Sim, as investigações do Draco identificam quadrilhas do tráfico de drogas que migram para o roubo a banco mas existem, também, aquelas que se especializam somente nos ataques às instituições financeiras.

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