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Entrevista

‘Infelizmente, prevenção não dá voto’, lamenta professor ao advertir sobre chegada do Super El Niño

Por Francis Juliano

Foto: Reprodução / TVE

Os efeitos do El Niño já podem ser compreendidos também como um fenômeno político. A posição é do professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Zangalli.

 

Na entrevista ao Bahia Notícias, ele relaciona os efeitos do fenômeno climático à histórica ocorrência de secas no semiárido brasileiro e discute a forma como desastres ambientais são tratados pelo poder público. Para Zangalli, medidas preventivas tendem a receber menos atenção política do que ações realizadas após a ocorrência de tragédias.

 

A conversa ainda aborda os efeitos da expansão do agronegócio sobre os recursos hídricos, o negacionismo climático e as providências que as cidades baianas precisam tomar antes da chegada do temido Super El Niño, versão mais intensa do El Niño, caracterizado por um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que traz seca para o Norte e Nordeste do Brasil. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

 

Foto: Reprodução / TVE

 

O senhor disse que já se pode considerar o El Niño como um fenômeno também político. Por que essa conotação?
Porque ele está associado diretamente às alterações climáticas. Então se a gente olhar para a forma como ele tem sido tratado é muito semelhante à forma como a seca no Brasil historicamente foi tratada, como as alterações climáticas têm sido tratadas. E agora o El Niño ganha uma estatura não de um fenômeno climático em si, mas do fenômeno climático mais importante. Então veja, se é um fenômeno que está ligado diretamente à produção para nós, de um fenômeno que é a seca no sertão brasileiro, que historicamente ele é social, político e economicamente produzido, dá para imaginar que a gente conhece os mecanismos dessa seca pelo menos desde o século 18 e ainda assim a gente sabe da ciclicidade pelo menos desde o início do século 20. A cada 7 e a cada 11 anos acontecia uma grande seca e mesmo assim a gente via os impactos se manifestando, a gente via a população sendo forçada a deixar suas casas porque não tinha condições de plantar.

 

Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

 

Parece que é como se fosse uma paisagem natural?
Exatamente. Então, o El Niño, nessa dinâmica, ganha uma estatura política de ser um fenômeno não natural. Porque ele é um fenômeno fundamental para a dinâmica do clima. Ele existe desde sempre. O problema é que agora a gente vê os efeitos dele agravados pelas alterações climáticas. Então é um fenômeno que está acontecendo, as águas já estão atingindo antes do previsto as condições de muito forte.

 

É curioso notar que, apesar das intensas inundações ocorridas no Sul e Extremo Sul da Bahia no final de 2021, nas cidades atingidas revelaram que as questões ambientais e de prevenção não figuraram entre as prioridades dos candidatos. Esse tema não dá voto?
Acho que tem uma análise que a gente precisa entender que é a seguinte. A prevenção não dá voto. Porque a prevenção mantém a vida na normalidade. O desastre, pelo contrário. Porque, veja, depois que o impacto acontece, o que nos resta? Nos resta engolir o choro, botar a viola debaixo do braço e agir no campo da solidariedade. Porque é assim que a população age. Quando ocorreram as chuvas todas, na Bahia, em 2021, agravada ali pela La Niña, que traz muita chuva para gente aqui no Nordeste. Ali as pessoas estão em um estado total de desamparo. E esse desamparo vai encontrar respaldo no vizinho que vai ajudar a tirar o móvel, que vai ajudar a limpar a casa, mas também naquele político que não fez nada. Eu acho que esse é o termo que precisa ser dito. Só que depois que o fenômeno acontece, ele também tem responsabilidade na recuperação.

 

Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

 

O cara aparece como um herói.
Aí ele vai lá na porta do rapaz que perdeu tudo para entregar uma cesta básica, ele bota o coletinho da Defesa Civil para gravar vídeo para o Instagram para dizer que estava fazendo alguma coisa. E aí na política do desastre, o voto ele é feito. Porque não há nesse momento, em total desamparo uma associação direta uma canalização da nossa indignação para aqueles agentes que têm ligação direta com o problema. No Brasil, o histórico de secas e, especificamente em Salvador, de inundações e deslizamentos de terra, é amplamente conhecido desde o século 17, conforme apontado por pesquisas históricas. Em Salvador, os nossos principais problemas estão ligados à chuva e a deslizamento e a inundação. A gente tem registros de inundação, de deslizamento de terra desde 1600. Bom, se a gente já conhece essa dinâmica e ainda assim a gente insiste na sua produção, eu acho que é uma produção deliberada mesmo. É um aspecto produzido ou negligenciado. E isso não gera voto, mas o que gera voto é depois botar o coletinho da Defesa Civil e fingir que está fazendo alguma coisa.

 

No Extremo Oeste baiano, pequenos produtores se queixam da exploração da água pelo agronegócio, setor esse setor que também usa agrotóxicos e muitas vezes assume um discurso negacionista. Como o senhor acompanha essa questão?

Eu vejo isso em um duplo. Se a gente olhar para o agronegócio enquanto aquele produtor latifundiário que vai fazer discurso negacionista, a gente pode até encontrar um respaldo, mas o agronegócio enquanto setor, ele sabe, ele conhece e ele investe muitos recursos para que o impacto desses fenômenos climáticos não sejam tão percebidos na sua safra. Ao mesmo tempo em que ele também investe muito dinheiro nos principais negacionistas. Tem reportagens já mostrando que aqueles que tiveram espaço na mídia para propagar negacionismo continuam sendo financiados por grandes empresas do agronegócio para continuar falando contra o impacto das ações humanas na da sociedade.

 

Então, eles agem em duas vertentes?
Porque não é necessariamente uma dinâmica homogênea. Eles agem investindo em tecnologia para evitar o efeito da sazonalidade climática ou da alteração dessa sazonalidade e investem muito em tecnologia de monitoramento climático e empresas de consultoria, e isso acontece bastante, mas ao mesmo tempo há esse negacionismo de tentar ainda imputar uma ideia de que o desmatamento não gera tantos problemas climáticos como estão falando. A Amazônia não é o regulador climático da América Latina, como querem dizer, e aí tem pseudocientistas dizendo isso, com financiamento de grandes empresas internacionais. Não há uma responsabilidade por parte do setor de forma homogênea. O resultado disso é mais desmatamento, mais degradação, grilagem de terra associado a uso exacerbado de água. É só ver o que acontece no aquífero do Urucuia, no Oeste da Bahia.

 

Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

 

Em cidades pequenas do interior há uma situação que tem sido percebido que é a instalação de asfalto nas ruas e pouca arborização das mesmas. Como isso pode afetar as temperaturas nesses locais?

O asfalto aumenta a temperatura porque ele retém a radiação. Como ele tem uma coloração mais escura é o albedo desse material ele é muito baixo, ou seja, capacidade desse material de refletir o calor ela é muito baixa então ele retém praticamente toda a radiação que chega e aí altera assim a dinâmica. Claro, ninguém está dizendo aqui que não tem que asfaltar as cidades do interior da Bahia. O que a gente está falando é que isso deveria ser organizado dentro de uma lógica de cidade que vem atrelado, por exemplo, a lógica de recuperação da caatinga, de plantio de árvores da mata nativa, que aí sim preservam um pouco das características ambientais e climáticas do entorno que vai tornar essa cidade menos quente.

 

Foto: Reprodução / TVE

 

No último debate entre os candidatos ao governo da Bahia, apenas um deles chamou a atenção para o problema da Serra da Chapadinha, na Chapada Diamantina, que está ameaçada por uma disputa com uma mineradora. O local é considerado importante para segurança hídrica do estado. Falta mais discussão sobre isso?

O que eu posso dizer nesse caso é que a bacia do Paraguaçu é fundamental para o abastecimento de boa parte do leste da Bahia. Tem crescido a quantidade de licença e de outorga para mineração, sobretudo terras raras, e a gente já sabe o efeito, né? Que é fundamentalmente de degradação ambiental, com impactos diretos nos rios, se não for feito com a devida responsabilidade, e geralmente não é feito. Então, eu tenho que dizer o seguinte: se a gente continuar olhando paro desenvolvimento e para o crescimento como única forma, não há planeta que suporte, não há [cidade] Salvador que resista.

 

Considerando que dois terços do território baiano estão inseridos no semiárido, qual seria sua orientação aos prefeitos e à população para minimizar os efeitos do El Niño?
O primeiro aspecto que eu diria é: conheçam a história do impacto das secas no seu município e se antecipe para que esse impacto seja minimizado, seja, por exemplo, na compra de alimentos de forma antecipada, seja com o subsídio para pequenos agricultores que vão ter o impacto direto, sobretudo no feijão. A gente já vê que agora era a época de colher feijão e a chuva não veio e o feijão tá com problema de ser colhido, e, sobretudo quem planta isso são pequenos produtores, né? Então auxilie esses pequenos produtores na forma de obtenção de crédito, tem uma série de estratégias organizadas e mobilizadas já pelo governo federal, anunciadas pelo governo federal que podem ser transpostas para o território nacional e que podem minimizar os impactos.

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