Em audiência, jurista baiano se opõe a PLS que executa pena antes de trânsito em julgado
O professor e promotor de Justiça da Bahia, Elmir Duclerc, durante a audiência pública promovida na tarde da última quarta-feira (10) pelo Senado para debater o PLS 402/15, afirmou que “existe uma parcela importante da doutrina de processo penal no Brasil muito preocupada com o rumo que a produção legislativa em ciências criminais em direito penal e processo penal tem tomado”. A proposta visa prender os condenados em uma ação penal antes do trânsito em julgado da sentença. O texto já é conhecido como “Projeto Moro”, por ser inspirado nas ideias do juiz responsável pela operação Lava Jato. Para Duclerc, que é professor de direito processual penal da Universidade Federal da Bahia (Ufba), uma forma de se medir o nível de democracia de um país é como seu Processo Penal é estruturado. Para ele, “há uma tendência geral autoritária perigosa, que lembra sim processos ou períodos autoritários da história da humanidade”. O jurista baiano, que se opõe ao PLS 402, diz que, em um Estado Democrático, é mais importante que “cem pessoas culpadas sejam inocentadas do que um único inocente sofrer a violência de uma prisão injusta”. Elmir Duclerc rebateu na audiência pública que existam 45% de pessoas encarceradas por prisão provisória. O professor diz que, na Bahia, se for levado em consideração as pessoas presas em delegacia, o número se eleva para 70%. “Fico triste quando dizem que o Brasil é o país da impunidade. Se pensarmos na década de 1990 para cá – um marco importante por ser posterior a Constituição Federal – a nossa população carcerária multiplicou-se por cinco e é 16 vezes mais do que o crescimento da população brasileira”, pontua. “Nós estamos prendendo 16 vezes mais do que estamos permitindo que as pessoas venham ao mundo”, avalia. O jurista diz ainda que “não há malabarismo hermenêutico que se possa fazer para não dizer que este projeto significa sim uma restrição séria e grave ao princípio do Estado de inocência tal como está construído na nossa Constituição”. Para Elimir, a proposta é uma “incorporação de uma mentalidade autoritária” no Código do Processo Penal Brasileiro, que nasceu em 1941, durante o fascismo. Sobre a reforma do Código do Processo Penal, que tramita há quase dez anos no Congresso, Elmir frisa que “precisamos pensar como se nós fossemos as pessoas acusadas de delito, condenadas injustamente, com uma condenação mantida em tribunal, precisando manejar um recurso extraordinário, e alguém nos dissesse: ‘em nome do interesse público, você vai perder cinco, seis anos da sua vida’, ou a ‘você vai perder tua própria vida dentro desse sistema prisional’ que todos nós conhecemos. Na audiência, o juiz federal Sérgio Moro defendeu a proposta por conta da morosidade do Judiciário brasileiro, que, apesar de determinar condenações, as penas não são cumpridas diante dos recursos possíveis de se apresentar.

O professor e promotor de Justiça da Bahia, Elmir Duclerc. Foto: Bahia Notícias.
