Dias de jogo não suspendem direitos
Grandes eventos esportivos costumam reunir emoções intensas, celebrações coletivas e momentos de lazer. No Brasil, quando esse cenário coincide com festas juninas, férias escolares e competições internacionais, aumentam também os encontros familiares, o tempo de convivência e as confraternizações. Mas existe um tema que precisa ocupar espaço nessa conversa: a violência doméstica contra mulheres.
Dados nacionais e internacionais indicam que determinados grandes eventos esportivos, especialmente jogos de futebol de grande mobilização, podem estar associados ao aumento dos registros de violência doméstica. No Brasil, estudo do Instituto Avon em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública reuniu evidências que ajudam a compreender esse fenômeno e reforçam um ponto central: o problema não está no esporte.
A pesquisa destaca que a violência contra a mulher é um fenômeno estrutural, relacionado a desigualdades de gênero e dinâmicas de controle já existentes nas relações. Grandes campeonatos podem funcionar como contextos de intensificação dessas violências quando coexistem fatores como consumo abusivo de álcool, alta carga emocional, frustração e permanência prolongada em ambientes domésticos.
Outro ponto importante é que os episódios de violência não se explicam por vitórias ou derrotas. O comportamento agressivo não nasce do resultado esportivo, mas de relações previamente marcadas por abuso, controle ou intimidação. Reduzir esse fenômeno à emoção do jogo simplifica um problema social complexo e pode contribuir para sua naturalização.
No contexto brasileiro, esse debate ganha relevância em períodos como Copa do Mundo e São João, que ampliam encontros e situações de convivência intensa. O desafio é reforçar que momentos de lazer e celebração não suspendem direitos nem justificam comportamentos abusivos.
Do ponto de vista jurídico, é importante lembrar que a proteção da mulher não começa apenas diante da agressão física. A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência doméstica e familiar: física, psicológica, moral, patrimonial e sexual.
Sinais como controle excessivo, ameaças, humilhações recorrentes, isolamento social, monitoramento constante e restrição da autonomia também merecem atenção. Familiares, amigos e vizinhos podem desempenhar papel importante ao observar mudanças bruscas de comportamento, medo constante do parceiro, discussões frequentes ou justificativas repetidas para lesões.
Também é importante reforçar que denunciar não depende da existência de lesão física grave. Sempre que houver ameaça, risco à integridade física ou emocional ou percepção de escalada da violência, buscar ajuda é uma medida de proteção.
A Copa do Mundo tem enorme capacidade de mobilização social e, justamente por isso, também pode ser uma oportunidade para ampliar informação, fortalecer redes de apoio e reafirmar que convivência e celebração só fazem sentido quando acontecem com respeito, segurança e dignidade.
*Carolina Heim é advogada, professora, e sócia do Ruy Andrade Advocacia
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