"Feito Pipa", filme escolhido para representar o Brasil no Oscar, estreia focado no afeto e na diversidade
Por Ana Beatriz Soares
O cinema brasileiro vive um momento de celebração e expansão internacional, e o longa-metragem "Feito Pipa" se estabelece como um dos grandes símbolos desse movimento. Dirigido por Allan Deberton, conhecido por “Pacarrete”, o filme alcançou um marco histórico ao se tornar o primeiro longa cearense escolhido para representar o Brasil na corrida por uma vaga no Oscar. A partir de 5 de novembro, as salas de cinema de todo o país recebem o longa que reúne em seu trio protagonista o garoto estreante Yuri Gomes, a veterana Teca Pereira e o renomado ator Lázaro Ramos, em uma sensível e profunda narrativa sobre as complexidades da infância, as marcas do Alzheimer na família e o direito à liberdade no sertão do Ceará, acompanhando o menino Gugu em sua jornada de autodescoberta e afirmação de sua personalidade expressiva e corajosa.

Foto: Divulgação / Jamille Queiroz
Escrito por André Araújo, colaborador frequente de Deberton e natural da mesma cidade do diretor, o roteiro nasceu de memórias de infância e sentimentos nostálgicos. A proposta central da produção é retratar o Nordeste longe de estereótipos ultrapassados, apresentando uma região colorida, conectada, afetiva e repleta de musicalidade. "É um feito realmente inédito, assim, eu fico muito feliz com a oportunidade de estar levando o nome do Ceará para uma premiação tão importante e, junto com essa oportunidade, está tendo a chance de fazer o filme ser assistido muito pela plateia brasileira, uma vitrine”, afirmou Allan Deberton.
A trama acompanha a rotina de Gugu, personagem de Yuri Gomes, um menino de 12 anos apaixonado por futebol, dança e expressões artísticas. Criado de forma livre, afetuosa e sem julgamentos por sua avó Dilma, interpretada por Teca Pereira, uma professora aposentada, o garoto cresce em um ambiente em que sua sensibilidade e suas preferências convivem com naturalidade. Porém, o cotidiano da família é transformado quando Dona Dilma passa a enfrentar os impactos da doença de Alzheimer.
A perda progressiva da memória da avó força a aproximação de Batista, vivido por Lázaro Ramos, pai de Gugu, uma figura marcada por ausências, silêncios e expectativas difíceis de conciliar com a essência do filho. Diante da possibilidade de ter que morar com o pai, Gugu assume responsabilidades precoces para proteger a avó e preservar a autonomia que encontrou ao lado dela. "É um filme que mostra coisas específicas da gente, essa paisagem, esses personagens, mas ele tem uma capacidade de conversar com o mundo todo, porque ele fala de temas que estão muito quentes hoje em dia. Fala sobre Alzheimer, sobre a criança queer, sobre essa família, sobre a rigidez desse pai”, disse o ator Lázaro Ramos.

Foto: Divulgação / Jamille Queiroz
Segundo o diretor, os conflitos da trama giram em torno do cuidado, da conquista do afeto e das dinâmicas familiares diárias, permitindo que o público se conecte imediatamente com a humanidade dos personagens na tela grande. "A proposta do projeto realmente era a gente mostrar o Nordeste como ele é, que é um Nordeste conectado, um Nordeste colorido, um Nordeste que é afetivo, que é convidativo, com muita musicalidade. A ideia do Feito Pipa é realmente mostrar esse lado mais fraterno”, afirmou o cineasta.
Filmado no município cearense de Quixadá, o longa utiliza a paisagem sertaneja e a barragem de Araújo Lima como elementos dramáticos e simbólicos. Inspirado nas ruínas de uma cidade inundada no Rio Grande do Norte, o filme apresenta uma seca que traz à superfície as estruturas de uma antiga cidade submersa. A direção de Allan Deberton estabelece um paralelo poético: à medida que Dona Dilma perde suas lembranças, a paisagem faz emergir a história reprimida do lugar, conectando esquecimento individual e memória territorial.

Foto: Divulgação / Jamille Queiroz
A produção reúne um encontro entre veteranos e novos talentos do audiovisual brasileiro. No centro da história está o jovem Yuri Gomes, de apenas 12 anos, que faz sua estreia como protagonista. Vindo do projeto social Projeto Axé/Fruto de Lá, em Salvador, Yuri já acumula prêmios de melhor ator em festivais internacionais por sua interpretação expressiva. "Dar vida ao Gugu foi uma libertação que eu tive na minha vida, que foi uma porta que se abriu para mim de sucesso, e eu amei muito dar vida para ele”, explicou o ator mirim.
O elenco conta ainda com Lázaro Ramos no papel de Batista, pai de Gugu, e com a veterana Teca Pereira, lembrada desde as primeiras versões do roteiro para interpretar uma avó bem-humorada. Na construção de Batista, um pai rígido que enfrenta dificuldades para aceitar o filho, Lázaro Ramos buscou fugir dos clichês da violência explícita. Em vez disso, o ator optou por trabalhar as contradições internas do personagem, mostrando a dor do conflito sem anular o amor paternal. "Ele é um homem que comete atos violentos, ele não aceita o filho do jeito que ele é, mas depois eu entendi que seria mais rico mostrar que ele tava em conflito, que tem um amor também por esse filho. [...] Uma busca coletiva de não contar esses personagens num lugar comum”, afirmou.

Foto: Divulgação / Jamille Queiroz
Antes de desembarcar nos cinemas brasileiros, “Feito Pipa” percorreu uma turnê internacional, acumulando grande aprovação em festivais em Berlim, México, Nova York, Atlanta e diversos países da Europa e da América Latina. Na capital alemã, mesmo exibido com tradução simultânea, o filme emocionou o público e foi aplaudido de pé por sete minutos consecutivos após a exibição. "A primeira exibição em Berlim era muito estranha [...]. De repente eu vi eles rindo, chorando. Quando acabou o filme, 7 minutos de aplauso. Eu falei: 'Ih, entenderam'”, afirmou o baiano que está no ar como o vilão Jendal na novela das seis da TV Globo, “A Nobreza do Amor”.
Para Lázaro Ramos, o apelo global da produção reside na capacidade de abordar temas universais a partir de paisagens e vivências puramente brasileiras. O ator ressalta que, mesmo após assistir ao filme seis vezes, continua se emocionando com os silêncios, olhares e "pequenas pérolas" que a obra revela a cada sessão. A chegada do filme às salas de cinema consolida também a estratégia de fortalecimento do audiovisual brasileiro no exterior. Como aponta Deberton, a indicação ao Oscar funciona como uma grande vitrine para mobilizar o público nacional a prestigiar a diversidade cultural do país nas salas de cinema.
