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Blocos infantis são oportunidade para pequenos curtirem Carnaval com estímulos "controlados"

Por Laiane Apresentação

Foto: Fábio Menezes / Bahia Notícias

O Carnaval de Salvador muda toda a dinâmica da cidade. Aqueles que gostam da festa, ficam ansiosos para sua chegada. O grupo que não gosta, já prepara suas malas para fugir da agonia. Enquanto as ruas e paisagens da capital baiana se adaptam a camarotes, arquibancadas e novos portais. 

 

Entre essas alterações, as aulas nas escolas também são interrompidas para a chegada da folia. Tendo sua rotina também alterada, nada mais justo do que esse público também receber a devida atenção entre a programação da festa. 

 

Há anos, as manhãs do sábado e domingo de Carnaval em Salvador são dedicadas a um público especial e bem definido. O circuito Osmar, no Campo Grande, recebe trios elétricos e pipocas adocicadas pela doçura que apenas as crianças podem agregar a folia. 

 

Mas será que esses espaços são de fato legais e seguros para essa parcela da população? Para a pedagoga Aline Lisbôa, especializada em Psicopedagogia e Neurociência aplicada a educação e fundadora do núcleo de estudos em infância da Casa Coruja, a festa oferece grandes vantagens para as crianças. 

 

 

“O Carnaval pode ser importante na construção identitária da criança, porque de qualquer forma a gente está falando de uma manifestação cultural potente, principalmente quando a gente fala de Salvador”, explica a profissional ao Bahia Notícias. 

 

A festa pode ajudar nos desenvolvimentos emocional e psicológico, além da identidade e no autorreconhecimento da criança por sua importância e potência. No entanto, tomando os devidos cuidados. 

 

A manifestação cultural também é conhecida por sua boêmia, tendo consumo de bebidas alcoólicas e músicas como um espaço suscetível para sexualização excessiva e violência simbólicas, que talvez não sejam ideais para os ouvidos infantis. Para isso, os espaços de segurança para as crianças na folia são os blocos infantis. 

 

Caso contrário, a criança pode ter seu desenvolvimento atrapalhado pelo “excesso de estímulo sem mediação, sons muito altos, excesso de estímulo visual” e sobrecarga sensorial, emocional, física e biológica. 

 

“Se eu levo a minha criança para o carnaval e não é um ambiente de blocos infantis, um ambiente pensado para a criança aproveitar e curtir, eu posso, sim estar colocando ela em risco. Estar colocando ela em um meio que pode ter confusões, brigas, sobrecarga sensorial, sons muito alto, sexualizações, ambiente totalmente inadequado ali para criança”, esclarece a pedagoga. 

 

Um dos blocos infantis que desfilam tradicionalmente no circuito é o Bloco Ibéji, um bloco afro dedicado ao público infantil criado há 32 anos. A presidente atual do bloco, Marta Santana, filha da fundadora do bloco, explica que o Ibéji foi criado para as crianças carentes da comunidade que não possuíam poder aquisitivo para sair em blocos carnavalescos. 

 

“Quando ele foi fundado, era para atender as crianças menos favorecidas que não tinham condições de poder sair no bloco carnavalesco. Nesse objetivo que foi feito o Ibéji, uma reunião de amigos para juntos, colocarem a instituição com esse cunho social ativo no Carnaval”, explica a presidente. 

 

 

Atualmente, o bloco infantil ainda distribui uma quantidade de abadás para as crianças da região, mas funcionam com vendas de abadás. No entanto, permanece com a proposta de “pertencimento” e “manutenção” da cultura afro. 

 

“A criança é o prefácio de tudo. A criança é uma fonte de renascimento, é fonte de juventude. Ela é que renova e a gente tem que fazer com que as crianças, elas tenham essa vontade - os pais também - de ensiná-los a ter uma cultura e conhecer a cultura afro”, declara Marta. 

 

Em cada Carnaval, o bloco toma cuidados necessários para que as crianças se divirtam adequadamente. “A gente sai no domingo muito cedo, 11 horas da manhã, então o circuito tá todo livre, mas mesmo assim a gente sai com corda, com segurança, com equipe de apoio”, pontua. 

 

O cuidado com a música também é tomado. Para Marta, a musicalidade é de extrema importância no bloco. Com uma banda própria, as músicas são voltadas para levantar o clima e a autoestima. Neste ano, o bloco lançou a canção “Cabelo Black”, que exalta os cabelos afros naturais. 

 

O circuito também recebe há mais de 30 anos, outros blocos infantis como o Algodão Doce, que se despede nesse ano da avenida por decisão anunciada por Carla Perez, e o bloco Happy, comandado pelo Tio Paulinho, que também desfila há mais de 30 anos no Carnaval de Salvador. 

 

Ao Bahia Notícias, Tio Paulinho lamentou a saída do Algodão Doce do circuito, mas reforçou a importância de pipocas infantis, que atraem todo o núcleo familiar para a avenida. 

 

“O bloco Happy faz 32 anos. Quantas gerações carnavalescas a gente formou? Pais que foram minhas crianças, levando as suas crianças com a memória afetiva do nosso melhor Carnaval do planeta. Então, a gente tem que estar sempre engajado isso”, defende o animador. 

 

 

No Happy, o repertório é mais aberto a novas músicas. Neste Carnaval, o bloco infantil será novamente comandado pela banda Filhos de Jorge. Para a pedagoga Aline Lisbôa, esse não é um problema. 

 

“O que a gente precisa prevenir é que eles não lidem com violências simbólicas, que eles não lidem com sexualização, que eles não liguem com conteúdos inadequados. Conteúdos para adultos, conteúdos que sexualizam, conteúdos que instigam a violência”, recomenda a profissional. 

 

A presença de blocos infantis e afros, como o Ibéji, também ajudam as crianças. “Por mais que a gente esteja falando do cérebro e de ciência, a gente está falando de ambiente e desenvolvimento através de estímulos externos. Então, quando a gente oferece estímulos internos como o pertencimento, o fortalecimento emocional para essa criança”, aponta Aline. 

 

Além do circuito Osmar, a programação do Carnaval do Pelourinho também possui atrações voltadas para o público infantil. No bairro do Curuzu, o Bloco Erê, bloco infantil do Ilê Aiyê, também é uma referência para as crianças da região. 

 

O bloco, também conhecido como “Ilê Mirim”, desfila há mais de 30 anos pelas ruas do Curuzu e Liberdade, aos domingos de Carnaval. Vivaldo Benvindo, diretor-fundador do Bloco Ilê Aiyê, explicou ao BN que distribui 1.000 roupas para as crianças. 

 

O bloco mirim surgiu através de Mãe Hilda de Jitolú, após a criação da Escola Mãe Hilda. “Ela falou com o Vovô [do Ilê] porque não botava as crianças aqui na época, daqui da comunidade. E começou com algumas crianças, poucas crianças daqui da comunidade para aprender a tocar”, explica Vivaldo. 

 

Com o surgimento da Banda Erê, veio o bloco. O primeiro ano da saída do bloco foi composto por roupas improvisadas, mas grande participação da comunidade. “Nós fazíamos a roupa para as crianças com o próprio tecido do bloco. O bloco desfilava no sábado e as meninas faziam a roupa para as crianças”, conta. 

 

Para Vivaldo, o bloco ajuda a impactar e levantar a autoestime dessas crianças desde o nascimento dela. “A partir do nascimento dela, a gente vê muitos pais, responsáveis aqui, fazendo questão de vir [a Senzala do Barro Preto] pegar a roupa para vestir as crianças aqui”, compartilha o diretor. 

 

 

Além disso, a partir do bloco Erê e de sua banda que a Band’Aiye se mantém renovada. Vivaldo conta que muitos dos músicos atuais da banda principal participou do bloco mirim antes. “A banda do Ilê, a banda show do Ilê, é formada por 95% dos músicos e vocalistas que foram formados aqui”, explica. 

 

Para além de todos os pontos levantados, a pedagoga Aline explica que o “brincar simbólico” também fortalece o desenvolvimento da saúde emocional da criança. “Essa fantasia que é o Carnaval, que a gente chama, que é o brincar de ser alguma coisa, o brincar de criar alguma coisa, que é algo que precisa estar na vida da criança para desenvolver narrativas, para experimentar papéis”, finaliza.