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Melhor Segunda-Feira do Mundo estreia na Fonte Nova com pagodes do Brasil em total harmonia

Por Lula Bonfim

Foto: Lula Bonfim / Bahia Notícias

Voltou. A Melhor Segunda-Feira do Mundo teve, na última noite (9), a sua primeira edição do verão 2023. O evento realizado na Fonte Nova recebeu, de acordo com organizadores, mais de 30 mil pessoas. O anfitrião, Xanddy Harmonia, recebeu ícones do pagode do Rio de Janeiro e de São Paulo: Sorriso Maroto, Belo e Péricles, que festejaram o reencontro com o público de Salvador.

 

“Eu sou um felizardo. Tenho uma história muito grande com a Bahia. A Melhor Segunda-Feira do Mundo também, eu tenho uma história muito grande. O respeito que eu tenho pelo público baiano é desde a época do Soweto até os dias de hoje. Parabéns ao Xanddy, mais uma vez”, declarou o cantor paulista Belo ao Bahia Notícias, pouco antes de subir ao palco.

 

O grande público se divertiu a noite toda em uma Fonte Nova com poucos espaços vazios em todos os seus setores. Apenas uma reclamação foi constante: o som não chegou com a mesma qualidade em todos os lugares da festa. Nas proximidades de onde costuma ficar o famoso “gol do Dique do Tororó”, foi mais difícil ouvir as apresentações. Mas nem por isso alguém ficou sem curtir seus ídolos, com os clássicos gritados à plenos pulmões.

 


Belo antes de subir ao palco | Foto: André Carvalho / Bahia Notícias

O cantor Péricles, também da escola paulista do samba, foi um dos mais festejados. Em 2019, o artista chegou a gravar seu DVD “Mensageiro do Amor” na Fonte Nova e disse ao BN que não foi ele quem escolheu o local. Foi a Bahia quem o escolheu.

 

“A alegria de retornar é ótima. Eu sou sempre muito bem recebido aqui na Bahia. Na realidade, não fui eu quem escolhi estar na Fonte Nova. Foi a Bahia quem me escolheu e vem me escolhendo há muito tempo como um baiano que não é nascido aqui. Me sinto muito acolhido toda vez que venho para Salvador, para a Bahia. E não é diferente estar num momento como este e ver a vitória desse meu irmão, que merece muito. Estou aqui vibrando e emocionado de ver a Fonte Nova tão cheia e tão cheia de amor pelo Xanddy”, declarou Péricles em seu camarim, com exclusividade para o Bahia Notícias.

 

Quem abriu a Melhor Segunda-Feira foi a banda carioca Sorriso Maroto. O vocalista, Bruno Cardoso, celebrou o carinho com que o pagode do Rio de Janeiro é recebido em Salvador e revelou que a admiração pelos baianos também acontece no Sudeste do país.

 

“A recíproca é verdadeira. Este evento, a Melhor Segunda-Feira do Mundo, já esteve presente no Rio de Janeiro e isso demonstra o quanto o povo carioca ama o pagode da Bahia. A gente tem aqui uma via de mão dupla. As pessoas que estão aqui têm realmente um carinho especial com a nossa música. Temos aqui três representantes do pagode do sudeste do país e a gente está aqui sendo tão bem recebido, com mais de 30 mil pessoas. E o mesmo acontece quando o Harmonia tem a oportunidade de fazer seus eventos e levar seus shows para o Rio de Janeiro. A gente também faz essa mesma festa aqui”, disse Bruno ao BN.

 

A harmonia entre os pagodes da Bahia e do Sudeste brasileiro é uma marca da Melhor Segunda-Feira do Mundo. Os grandes artistas do samba do Rio e de São Paulo volta e meia são convidados por Xanddy e atraem grandes públicos para o mais famoso ensaio do verão de Salvador. As diferenças e semelhanças entre os dois estilos regionais foram comemoradas por Bruno Cardoso e por Péricles.

 

“A gente caminha pelo mesmo caminho e tem o mesmo objetivo, que é chegar no coração de quem ouve. É isso que o som do Sorriso Maroto, do Belo, do meu, do Ferrugem, do Xanddy, do Léo, do Tchan, de todos eles. Nós percorremos o mesmo caminho e chegamos no mesmo objetivo, que é o coração de quem nos ouve”, avaliou Péricles.

 

“É interessante essa troca e essa diferença que há na forma de musicar o pagode. O Harmonia tem essa coisa do suíngue, da quebradeira, de fazer as pessoas felizes através da música deles. A gente já leva as pessoas para o lado da reflexão, de viajar na letra, de colocar ali suas emoções, seus sentimentos, que é muito bonito também. São duas características que definem muito bem as regiões, a forma que a gente leva a nossa música. E a gente tem hoje aqui esse combo de dois polos musicais do pagode. O Sorriso é do pagode e o Harmonia também é do pagode. Temos as nossas diferenças e formas de fazer música, mas está todo mundo aqui para dançar e se apaixonar”, analisou Bruno.

 


Bruno Cardoso, do Sorriso Maroto | Foto: André Carvalho / Bahia Notícias

 

A VOLTA DO SAMBA DE RODA

Aqui na Bahia, o samba percorreu um caminho diferente do restante do país. Os baianos que levaram o ritmo para o Rio o transformaram num gênero urbano, diferente do estilo rural que predominava no Recôncavo.

 

Em território carioca, o samba recebeu mais influências da cultura banto, como a congada. No entorno da Baía de Todos-os-Santos, porém, a herança iorubá sobressaiu e o ritmo evoluiu para a chula em Santo Amaro e para o samba duro em Salvador, que deu origem ao Gera Samba (atual Tchan), Terra Samba e Harmonia do Samba.

 

Com o sucesso dessas bandas nascidas nos anos 1990, a linha evolutiva do samba baiano disparou, resultando no groove arrastado consagrado por Parangolé e Fantasmão e também no mais recente “pagofunk”.

 

Entretanto, em 2022, o samba duro voltou à pauta, com o lançamento do “Samba do Polly”, música d’O Polêmico, que foi incluída por Xanddy Harmonia em seu repertório. O artista, nascido e criado na Capelinha de São Caetano, quer ver o ritmo baiano voltar às suas raízes.

 

“A gente reservou um momento para fazer um samba de roda. O Samba do Polly já é um samba de roda e a gente botou uma roupinha mais nossa nele. A letra, eu segurei a onda. Eu gosto de todas essas revoluções. Me incomoda um pouco a coisa da conversa, algumas coisas podem ser um pouco mais cuidadas. Mas o nosso pagode, o nosso ritmo, é forte e vai agradar o mundo inteiro sempre. Ele bate lá no Japão e o japonês começa a se balançar, isso é inevitável”, afirmou o ex-vocalista do Harmonia do Samba.

 


Xanddy Harmonia, em coletiva de imprensa antes do show | Foto: André Carvalho / Bahia Notícias

 

Xanddy reconheceu que observa com atenção às mudanças ocorridas no pagode da Bahia e assumiu que absorve muito das novidades lançadas no mercado, mas confessou que sonha com o retorno do samba de roda e do samba duro para as caixas de som das periferias de Salvador.

 

“O meu desejo é que a gente encontre um meio termo entre tudo isso, mas que a gente resgatasse bastante o nosso samba de raiz. Queria muito que essa turma jovem – que está fazendo um som diferente, que tem essa derivação do groove arrastado – conhecesse. Mas eu sei que é uma geração nova. Eu vivo isso em casa. Meus filhos e sobrinhos conhecem do ano X para cá, mas eu gostaria muito que eles fossem beber lá na fonte e esse resgate fosse feito dentro dos guetos, do nosso samba duro, do nosso samba de roda, que é tão gostoso e agrada tanto até hoje”, disse Xanddy. 

 

Para ele, o sucesso d’O Polêmico em 2022 é a prova de que o samba raiz não saiu de moda e que sempre irá agradar públicos no mundo inteiro.

 

“Está aí o Samba do Polly, para confirmar o que eu estou falando. Ele já é um samba de roda, com uma conversa mais moderna, mais pesadinha, mas o ritmo não tem jeito: vai agradar sempre”, concluiu.

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