Ricardo Chaves analisa carnaval e critica a cultura de 'melhor música' da festa
Por Renata Pizane
Embora tenha uma carreira ligada aos blocos tradicionais do Carnaval de Salvador, Ricardo Chaves viu com entusiasmo a ampliação dos trios sem cordas na folia deste ano. Em conversa com o Bahia Notícias, durante o lançamento do CD ao vivo do grupo Alavontê (clique aqui e leia), o cantor afirmou que entende como um movimento natural da festa, tanto por aspectos econômicos, por conta da queda da venda dos abadás, quanto pela falta de sedução dos artistas com o público.
“É uma tendência bacana que abre espaço para figuras como Márcia Freire, que é um furacão e, talvez, tenha sido a melhor puxadora de bloco que já vi. Acho importante que se tenha espaço para que as pessoas se mostrem. Carnaval não é só um segmento. Na minha época sempre houve valorização dos artistas que estavam fora do centro das atenções”, avaliou ele, após dedicar dois dias para o folião pipoca, englobando o desfile à frente do Alavontê.
Mesmo favorável às mudanças, ele destaca que o comportamento dos cordeiros também é um dos pontos para o enfraquecimento dos trios particulares. “Não tenho nada contra as cordas, a violência não está nelas. Infelizmente, está nos cordeiros. A qualidade destes profissionais mudou muito de uns tempos para cá, as brigas, em sua maioria, são geradas por situações provocadas por eles”, argumentou o artista.
Com uma história de mais de 30 anos no Axé Music, ele também não perdoa os artistas que apelam para ter espaço durante a folia, inclusive àqueles que defendem a escolha da sua música de trabalho como hit da festa.
“De um tempo para cá as coisas estão engessadas. Eu acho triste alguns artistas que tem uma colaboração muito forte na música precisarem pedir para se apresentar, não é meu caso, graças a Deus, mas vi Ninha, ex-Timbalada, fazendo isso em uma entrevista. É a mesma coisa do artista pedir pra ter a música do Carnaval. Eu acho que não deve pedir nada. O artista precisa tocar. Só precisa ter palco e só. Se criou uma cultura de pedir pra ser a música do Carnaval. O artista não tem que ter esse objetivo. Ele precisa cantar. O prêmio é uma consequência”, pontuou ele, que ainda mencionou o vocalista da banda Psirico, Márcio Victor, por fazer isso.
Chaves acredita que essa disputa pelo protagonismo de hit musical acaba influenciando a longevidade dos artistas baianos. “Criou-se esse factoide e a arte vai ficando em segundo plano. No próximo ano já não lembramos mais da música do ano anterior. Essa busca pelo destaque momentâneo no Carnaval, em minha opinião, não acrescenta muito na vida do artista. Eles são melhores que esses prêmios. Muitas vezes não temos oportunidade de conhecer o artista, seu produto musical, por conta dessa cobrança”, disse ao citar o exemplo de um de seus maiores sucessos, “É o Bicho”, que não recebeu nenhum título quando estourou na folia de 1993.
Continuando sua análise sobre o Carnaval, Chaves também ataca os colegas que se preocupam em dedicar o tempo de desfile para cumprimentar e agradar os profissionais de imprensa.
“De uns 10 anos para cá, o foco da folia mudou. Os artistas param o trio para uma conversa com a imprensa, pra atender pedidos e repetir músicas. Incomoda-me muito essa questão midiática suplantando o foco da festa. Foi desestimulante para mim quando vim tocar na Barra. E o folião? Ele não está ali para ver o cantor parando para cumprimentar todo mundo. Não comprou abadá pra ficar me vendo conversar com uma pessoa. Isso no circuito Dodô acontece constantemente. Esses atrasos em decorrência de paradas para cumprimentos me incomodam muito. Meu mote em cima de um trio sempre foi muito som e pouco papo. Eu já vi artistas tocando para camarote. Isso é um dos motivos de o público estar abandonando os blocos”, afirmou.
A decisão de não desfilar com o bloco Bicho e viajar para o Ceará e Rio Grande do Norte este ano também é reflexo desse descontentamento. “Preferi tocar em outros lugares porque lá fora as coisas funcionam melhor. Aqui só me apresento um dia individualmente na avenida porque é onde gosto de tocar. O desfile ficou chato para quem canta e quem está vendo”, conclui. (atualizada às 10h20)
“É uma tendência bacana que abre espaço para figuras como Márcia Freire, que é um furacão e, talvez, tenha sido a melhor puxadora de bloco que já vi. Acho importante que se tenha espaço para que as pessoas se mostrem. Carnaval não é só um segmento. Na minha época sempre houve valorização dos artistas que estavam fora do centro das atenções”, avaliou ele, após dedicar dois dias para o folião pipoca, englobando o desfile à frente do Alavontê.
Mesmo favorável às mudanças, ele destaca que o comportamento dos cordeiros também é um dos pontos para o enfraquecimento dos trios particulares. “Não tenho nada contra as cordas, a violência não está nelas. Infelizmente, está nos cordeiros. A qualidade destes profissionais mudou muito de uns tempos para cá, as brigas, em sua maioria, são geradas por situações provocadas por eles”, argumentou o artista.
Com uma história de mais de 30 anos no Axé Music, ele também não perdoa os artistas que apelam para ter espaço durante a folia, inclusive àqueles que defendem a escolha da sua música de trabalho como hit da festa.
“De um tempo para cá as coisas estão engessadas. Eu acho triste alguns artistas que tem uma colaboração muito forte na música precisarem pedir para se apresentar, não é meu caso, graças a Deus, mas vi Ninha, ex-Timbalada, fazendo isso em uma entrevista. É a mesma coisa do artista pedir pra ter a música do Carnaval. Eu acho que não deve pedir nada. O artista precisa tocar. Só precisa ter palco e só. Se criou uma cultura de pedir pra ser a música do Carnaval. O artista não tem que ter esse objetivo. Ele precisa cantar. O prêmio é uma consequência”, pontuou ele, que ainda mencionou o vocalista da banda Psirico, Márcio Victor, por fazer isso.
Chaves acredita que essa disputa pelo protagonismo de hit musical acaba influenciando a longevidade dos artistas baianos. “Criou-se esse factoide e a arte vai ficando em segundo plano. No próximo ano já não lembramos mais da música do ano anterior. Essa busca pelo destaque momentâneo no Carnaval, em minha opinião, não acrescenta muito na vida do artista. Eles são melhores que esses prêmios. Muitas vezes não temos oportunidade de conhecer o artista, seu produto musical, por conta dessa cobrança”, disse ao citar o exemplo de um de seus maiores sucessos, “É o Bicho”, que não recebeu nenhum título quando estourou na folia de 1993.
Continuando sua análise sobre o Carnaval, Chaves também ataca os colegas que se preocupam em dedicar o tempo de desfile para cumprimentar e agradar os profissionais de imprensa.
“De uns 10 anos para cá, o foco da folia mudou. Os artistas param o trio para uma conversa com a imprensa, pra atender pedidos e repetir músicas. Incomoda-me muito essa questão midiática suplantando o foco da festa. Foi desestimulante para mim quando vim tocar na Barra. E o folião? Ele não está ali para ver o cantor parando para cumprimentar todo mundo. Não comprou abadá pra ficar me vendo conversar com uma pessoa. Isso no circuito Dodô acontece constantemente. Esses atrasos em decorrência de paradas para cumprimentos me incomodam muito. Meu mote em cima de um trio sempre foi muito som e pouco papo. Eu já vi artistas tocando para camarote. Isso é um dos motivos de o público estar abandonando os blocos”, afirmou.
A decisão de não desfilar com o bloco Bicho e viajar para o Ceará e Rio Grande do Norte este ano também é reflexo desse descontentamento. “Preferi tocar em outros lugares porque lá fora as coisas funcionam melhor. Aqui só me apresento um dia individualmente na avenida porque é onde gosto de tocar. O desfile ficou chato para quem canta e quem está vendo”, conclui. (atualizada às 10h20)
