Música Falada: Gilberto Gil reconta casos e encanta com canções!
Por Rafael Albuquerque
Foto: James Martins / Bahia Notícias
Aconteceu na noite desta terça-feira (01) o segundo show projeto Música Falada de 2009; o primeiro foi com Margareth Menezes. Nas edições anteriores, o projeto inovador que une música e bate-papo com as atrações convidadas, contou com grandes apresentações como as de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Saulo (Banda Eva), Bell Marques (Chiclete com Banana), Durval Lelys (Asa de Águia) e Carlinhos Brown.
Num palco bem disposto, com convidados selecionados, estavam os três apresentadores do programa Roda Baiana, da Rádio Metrópole, e também idealizadores do projeto Jonga Cunha, Fernando Guerreiro e Andrezão. A decoração e iluminação estavam impecáveis. Sem excessos e com um tom mais aconchegante e intimista, justamente o ponto alto do Música Falada.
O Música Falada com Gilberto Gil, em especial, poderia se chamar História Falada. Aliás, História Falada e Cantada, já que além do bate-papo agradável e descontraído, por vezes cômico por conta dos neologismos criados por Gil, aconteceu no TCA uma verdadeira aula de história do Brasil e da Bahia, onde a 2ª Guerra Mundial, a ditadura e o surgimento do Tropicalismo, por exemplo, foram citados e comentados pelo ex-ministro da Cultura.
Gil subiu o palco acompanhado de quatro músicos, um no violão, um na guitarra, um no baixo e outro na bateria. Alguns se revezavam para tocar triangulo, agogô ou outro instrumento que porventura fosse utilizado no espetáculo. O show foi aberto com a música “Andar com Fé”, e logo após o cantor e compositor falou sobre seu início na música, quando tocava acordeom e morava no bairro de Santo Antônio. E para ilustrar esse momento da carreira, Gil cantou a música “Procissão”.
Cantou sua primeira música chamada “Felicidade Vem Depois” que, segundo o próprio Gil, ganhou uma roupagem mais ‘envenenada’, com uma batida mais forte e marcante. Gil não deixou de falar sobre a paixão pelos afoxés e em especial pelo Filhos de Gandhy, que carrega consigo toda uma simbologia e indumentária bem original.
Questionado sobre a ruptura musical causada pelo Tropicalismo, Gil fez questão de ressaltar que os resultados do movimento não ficaram só na música, mas se estendeu à arte em geral como cinema, artes plásticas, teatros, etc. Neste momento citou a parceria com Capinan, Torquato e Caetano Veloso na eclosão do referido movimento. E para transportar a platéia para o momento comentado, ele cantou a música “Domingo No Parque”.
Falou da trilogia Refazenda, Refavela e Realce, que marca diferentes momentos da carreira, começando pela música intrinsecamente ligada ao sertão, ao Nordeste, e terminando numa batida mais pop. Logo após Gil cantou a música “Refazenda”.
Posteriormente, falando do exílio, o cantor cantou “Aquele Abraço”. Música composta entre a saída de Gil da casa de dona Mariah (mãe de Gal Costa), no Rio de Janeiro, no Avião e a chegada à Salvador. No dia em que fez a música, relatou Gil, ele e Caetano fizeram o último show no Brasil, após autorização do Exército, antes do exílio em Londres. Como no memorável show os cantores executaram o hino do esporte clube Bahia, uma pergunta de um ouvinte do Roda Baiana sobre o tema foi lida por um dos apresentadores. E falava justamente deste momento, perguntando, discretamente, se Gil poderia se repetir o hino já que quem canta os males espanta, e essa seria uma maneira de espantar os atuais males do Bahia. Atendendo ao pedido, Gil cantou o hino, falou um pouco de futebol, se arriscou a comentar a crise nos times brasileiros e citou uma tal de ‘estrutura clubística’, que está moldada de uma maneira equivocada e afirmou que, do jeito que está, vai demorar algum tempo para o Bahia se reorganizar.
Ao cantar o hino, assim como há 40 anos, em 1969, momentos antes de partir para o exílio, Gil foi acompanhado pelo coro presente. E para ilustrar um momento marcante do exílio, o compositor escolheu o que considerou obvio: a música que marcava a volta ao Brasil; a canção “Back in Bahia”. Quando voltou do exílio Gil gravou o disco Expresso 2222.
O apoio dado pelo ex-ministro ao reggae, ritmo que ele ajudou a popularizar no Brasil e tem como ícones Bob Marley e Jimmy Cliff, foi citado. Gil disse que apesar da na cultura de Salvador e de São Luis terem muita interação com o reggae, Curitiba, cidade que se referiu como ‘de polacos e alemães’, também tem esse ritmo muito presente. Aproveitando o momento, Gilberto Gil cantou “No Woman No Cry” e, provocado pelos apresentadores, falou sobre um assunto polêmico: a liberação da maconha no Brasil.
Gil afirmou ser a favor da liberação da maconha – e alguém tinha dúvidas disso? Falou da necessidade de se criar políticas públicas para que o uso não seja excessivo e prejudicial, além da importância das ações para cuidar de quem usa a ‘erva’ de maneira errada. Fez, ainda, um contraponto sobre a quantidade de pessoas que morre de overdose por maconha, ou outra droga, e por conta do tráfico de drogas, fato que, segundo o cantor “é causado pela proibição da venda de drogas”. Citou também que até o ex-presidente FCH afirmou que a liberação seria mais eficaz. Aproveitando os rumos da conversa, ele cantou “Vamos Fugir”, canção originalmente gravada por Gil na Jamaica em inglês, que depois ganhou a versão em português. A música foi executada lindamente, acompanhada do coral formado pelo público – interativo, diga-se de passagem - que lotou o TCA.
Outro ponto polêmico abordado foram as novas tecnologias e como elas são utilizadas para fazer downloads de músicas. Gil afirmou que não há como impedir que as novas tecnologias como Internet e downloads cheguem, já que é uma tendência clara na sociedade atual. Citou a crise no capitalismo e disse que a ganância e a usura destruíam a finalidade primordial do sistema econômico citado, que era marcado pela produção, consumo e geração de renda e riquezas, o que dá fôlego ao mercado. E para finalizar a parte polêmica do bate-papo, Gil cantou a música “Estrela” e seguiu com outros temas não tão polêmicos, mas muito empolgantes, além de tantas outras canções. Esse Música Falada, que foi mais uma espécie instigante de História Falada e Cantada, merece elogios do cenário à platéia, do cantor aos apresentadores!
