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Marca Bahia Notícias Holofote

Entrevista

“Começou como hobby e virou paixão”: Como Matchola reinventa o rap alternativo a partir de Salvador

Por Ana Beatriz Soares

Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

Não é de agora que a Bahia é conhecida por ser um berço de grandes talentos musicais. Um dos nomes promissores da nova onda de artistas do estado se chama Matchola. O cantor performa, escreve e produz as próprias canções, apostando em um gênero musical único, mesclando todas as suas referências de uma vez só.

 

Definindo seu estilo como "música alternativa brasileira" ou "rap alternativo", Matchola constrói sua sonoridade unindo rap, reggae, rock, pop e Miami Bass com a tradição da música popular brasileira. Nascido e criado em Salvador, a influência da capital baiana transparece na incorporação do axé, do pagodão e de elementos percussivos da cultura afro-brasileira às estruturas do hip hop. Suas referências sonoras transitam entre ícones internacionais como Childish Gambino, Kanye West, Brockhampton, Outkast e The Neptunes, além de referências do rap baiano como Baco Exu do Blues.

 

Antes de se consolidar na música, a trajetória artística de Matchola começou ainda na infância, por meio do desenho e da edição de vídeo. Após passar pelo mercado de trabalho formal, encontrou na produção musical sua verdadeira vocação. De forma completamente autodidata, aprendendo por tutoriais no YouTube por não ter recursos para pagar um produtor, passou a compor batidas, gravar, mixar e masterizar suas próprias faixas diretamente do seu quarto.

 

Essa autonomia deu origem a uma discografia marcante. O álbum OK Tchola destacou-se por uma estética experimental influenciada pelo rap industrial de JPEGMAFIA e Death Grips, além da inspiração conceitual do disco OK Computer, do Radiohead. Em seguida, o álbum Zero Bala trouxe uma proposta mais sóbria, coesa e pop, focada no pertencimento baiano e na autoaceitação. A caminhada do artista reúne colaborações orgânicas, além da realização de uma turnê pelo Sudeste. Um marco recente de sua carreira foi a gravação do Spotify Sessions, com direção musical de Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem, a quem Matchola considera um amigo e mentor.

 

Atualmente contratado pela gravadora Warner, o artista vive a transição do circuito underground para uma estrutura de lançamento mais planejada, mantendo seu processo criativo característico de transformar vivências pessoais em letras melancólicas sobrepostas a batidas alegres.

 

Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, o artista falou sobre suas influências, o momento transitório em que vive na sua carreira, além dos próximos passos daqui para frente. 

 

CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA: 

 


 

Queria começar falando com você sobre o seu gênero musical; acho que é algo muito único sobre você e sobre sua carreira. Termina unindo muitos estilos diferentes numa mesma sonoridade. Você consegue definir o seu gênero musical?
Eu estou tentando colocar numa caixa, digamos assim. Se eu fosse dizer hoje, eu sou música alternativa brasileira. É claro que é rap, mas também é claro que é reggae, e rock, às vezes pop, e Miami Bass. Nessa viagem toda, eu me coloco como música popular brasileira, rap alternativo brasileiro ou rap alternativo.

 

E como você começou na música? Você é daqui de Salvador; a influência da cidade tem um impacto muito grande na sua música?
Eu comecei na arte desde muito pequeno, fazendo desenho. Eu desenhava desde os cinco anos e pensei que ia ser desenhista. Só que aí foi andando e me desapaixonei pelo desenho. Comecei a caminhar para a arte do cinema, edição de vídeo. Eu editava muito vídeo e queria trabalhar com cinema. E aí me desencantei também, até por conta da correria. Tive que ir para o CLT, trabalhar em supermercado. Acabei me frustrando com a arte, mas a música em si sempre esteve junto. Logo em seguida, lá pelos 16 anos, comecei a produzir. Eu gostava muito de rap, principalmente americano, e fazia batidas. Comecei como produtor e depois fui colocando voz, fui entendendo como funciona a produção musical, abri o programinha e comecei a bater cabeça para entender como faz beat. Foi indo até que comecei a pegar gosto; começou como hobby e virou uma paixão. Quando vi, já estava querendo largar tudo para viver de música, que foi o que fiz. Como sou da Bahia, por mais que gostasse de hip hop, gosto muito da música baiana, do axé, da MPB, das batidas percussivas. Comecei a adicionar um pouquinho disso no beat. Apesar de ser hip hop, bebe muito da música africana. Comecei a colocar elementos de percussão, de axé, de pagodão junto com o rap para trazer um pouco da originalidade da Bahia. Essa mistura tomou proporções maiores e hoje sou a pessoa mais ecléticatica possível quando se trata de fazer música.

 

Você é autodidata com a sua produção, começou produzindo sozinho… Teve ajuda de amigos?
Quando começou, sempre fui curioso e tive acesso a computador desde muito novo. Abria o YouTube, procurava tutorial de tudo e ia fazendo. Foi assim com vídeo e com a música. Não tinha como bancar um produtor, então tive que correr atrás de produzir sozinho: a batida, a gravação, a mixagem, a masterização, tive que aprender todo esse processo sozinho. Virou até uma mão na roda e um conforto. Hoje posso eu mesmo fazer a música a hora que a inspiração vier e gravar. Quanto às referências, como gosto muito de rap, sempre fui apaixonado por Childish Gambino, por esse rap mais indie, Kanye West e a galera inspirada por ele. Virei fã do Brockhampton e foi ele quem moldou minha forma de fazer música. Também era fã das referências do Brockhampton, como The Neptunes e Outkast. Tentei abrasileirar e baianizar o máximo possível. Tive referências do rap baiano, como Baco Exu do Blues; os primeiros discos fiz muito inspirado no álbum Bluesman.

 

Você lançou ano passado o álbum Zero Bala. Como foi a concepção desse disco e você acha que ele se diferencia do restante do seu trabalho?
Acho que o Zero Bala é o álbum mais sóbrio que eu tenho, porque, apesar de continuar viajando por vários gêneros, é o álbum mais coeso e pé no chão, que trilha só um raciocínio. É um álbum que fala da Bahia, sobre se aceitar e lembrar de onde veio. Foi o primeiro disco sóbrio e bem pop que fiz, porque os anteriores eram mais rap, trap e rap experimental, com uma parada mais suja. Quando me encontrei com o Germano em 2024, a gente trocou mensagens, ele gostou do meu som e quis fazer um remake de 'Foi Mal Ai'. Foi a primeira vez que um som meu viralizou e, dali, comecei a adentrar no mundo do boombap, graças ao Germano e ao público que ele trouxe para mim. O boombap já era um gênero de que eu gostava, mas senti que a galera gostava mais de mim no boombap quando vinha com refrões e coisas mais melódicas e cantadas. Comecei a me perder e tive que parar um tempo para refletir sobre o que queria produzir. Voltei para a Bahia para respirar os ares de casa, saí mais e me encontrei. O Zero Bala veio disso.

 

E o que você achou da recepção do público? Foi diferente do restante?
Eu não esperava. Fiz pensando seriamente que ninguém ia gostar tanto, porque vinha de um mundo bem boombap/rap e, do nada, trouxe uma levada bem pop. Tive receio, mas acreditava no projeto. Graças a Deus estava errado; amo estar errado porque sou muito pessimista. Sou muito grato a todo mundo que escuta e participou. O público do 2ZDinizz veio conhecer e a participação dele no disco trouxe muitas pessoas. A galera abraçou, inclusive o público daqui da Bahia, que eu tinha mais dificuldade de apresentar minha arte por ser um som mais alternativo e experimental. Todo disco meu tem pelo menos uma música de reggae, e é a assinatura que faço em todos os álbuns. "TAMAGOTCHI!" é uma das melhores que tenho e gosto muito dela. A galera veio a ouvir mais recentemente e é uma das mais escutadas do disco por enquanto.

 

 

Você acha que esse álbum foi um divisor de águas na sua carreira ou existe outro momento?
Colocaria o Zero Bala como um pontapé inicial e de criação de carreira. O verdadeiro divisor de águas foi o antecessor dele, o “OK Tchola”, que foi o disco em que mais experimentei e baguncei. Na época, eu escutava muito JPEGMAFIA e Death Grips, um rap industrial. Também me inspirei no “OK Computer” do Radiohead, que gerou enorme expectativa sobre o que lançariam depois, e eles entregaram algo totalmente diferente e estranho. Trouxe essa ideia para o “OK Tchola”.

 

Você deixou recentemente de ser um artista independente e assinou com a gravadora Warner. Como tem sido essa mudança?
Estou muito feliz por fazer parte de uma major, algo que sempre sonhei. Com a equipe da gravadora a meu favor, vou poder potencializar minhas ideias e fazer minhas músicas chegarem a mais pessoas com um holofote maior.

 

Como funcionavam suas produções antes da Warner e o que muda na prática?
Meus discos eram todos feitos no meu quarto, de forma bem underground: cozinhando beats, remixando e sampleando com total liberdade criativa. Com o tempo, fui entendendo o lado comercial da arte. Agora, não sendo mais independente, as coisas serão mais profissionais e planejadas. Como independente, eu apenas lançava sem planejamento longo. O Zero Bala, por exemplo, foi lançado em dezembro com apenas uma semana de pré-divulgação. Agora terei um processo mais planejado.

 

Como surgiram as parcerias com artistas como Germano, 2ZDinizz e Tangolo Mangos?
Sempre fiz trabalho de pesquisa de outros artistas do underground. No “OK Tchola”, chamei pessoas como a galera da Praia de Minas e Zilla Dog. O 2ZDinizz já me escutava desde o “OK Tchola” e sugeriu fazermos um som juntos. O Tangolo Mangos eu já escutava desde 2018/2019. Meu brother Tazim, que participou do “OK Tchola”, fez a ponte com o Denovaro. Todos os feats surgiram de relações muito naturais e amizade.

 

 

E como surgiu a ideia da turnê em parceria com o Germano? Há planos para Salvador?
Conheci o Germano por um Reels do Instagram em 2024. Mandei mensagem elogiando; ele ouviu meu som e propôs o remix de 'Foi Mal Ai'. Viramos brothers, sócios e workaholics trabalhando juntos. Fizemos nossa primeira turnê pelo Sudeste, o que foi a realização de um sonho. Temos muito sonho e luta para fechar show em Salvador. É um dos lugares mais difíceis por conta da logística e porque sinto que o público baiano é mais conservador, escutando mais o que já dá certo aqui, como axé, arrocha e piseiro, ou quando o artista já está gigante fora. Mas nosso sonho é fazer um showzão na Concha Acústica.

 

E como foi gravar o Spotify Sessions com direção musical do Russo Passapusso?
Para mim, já posso morrer depois disso! Além de Baco e Childish Gambino, uma das minhas maiores referências é o BaianaSystem. Fazer o Spotify Sessions foi incrível, pois, antes de mim, só dois brasileiros tinham feito: KayBlack e Ana Castela. Pedi o Russo na direção musical. Quando liguei para ele, ele fez uma leitura do Zero Bala e interpretou coisas das letras que só eu tinha pensado. O cara é um gênio. Fizemos o Sessions em plano sequência, em take único, com o diretor visual Rodrigo de Paula. Tive que focar em não esquecer a letra, não perder o fôlego e interpretar. Tenho TDAH, então foi um desafio gigante, mas saí treinado e hoje o Russo é meu amigo e mentor.

 

Quais são os maiores desafios quando você produz e escreve?
Só escrevo quando tenho a batida pronta, pois me conecto mais com a sonoridade do que com a composição isolada. Escrevo a partir das minhas vivências pessoais. Minhas composições têm uma certa melancolia nas letras, mas com batidas alegres. Gosto desse contraste, algo que o Tyler, The Creator, também faz muito bem.

 

Já tem algum projeto futuro que você possa revelar?
Está se formando algo. Vão sair faixas bônus que ficaram de fora do Zero Bala e que saíram apenas no CD físico.

 

E como foi ver o disco em formato físico?
Foi lindo, a realização de um sonho. Meu sonho agora é lançar em vinil. Tenho saudades da época em que só existia a mídia física, sem essa loucura do streaming.

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