"O Axé abriu as portas do mundo para mim": Osmar Marrom celebra nova etapa da carreira e estreia no Bahia Notícias
Se, em 1985, alguém perguntasse a Osmar Martins como ele imaginava a vida daqui a 40 anos, o jovem que dava os primeiros passos no jornalismo não diria que se tornar a maior referência do estado quando se trata de música baiana estava nos seus planos.
Muito menos que Alcione — sim, uma das maiores estrelas do samba — daria a ele o apelido pelo qual é chamado em todos os trios dos principais circuitos da folia em Salvador: Marrom.
Mas quarenta anos se passaram e essa é a realidade de Osmar "Marrom" Martins. Sua história se mistura com a do Axé, e não é à toa. O jornalista foi um dos principais entusiastas do movimento que marcou a folia baiana e afirma: "O Axé abriu as portas do mundo para mim."
Em uma nova fase da carreira, o jornalista retorna à ativa após um período sabático, de casa nova como o novo colunista do Bahia Notícias, no Blog do Marrom, e com muita história para contar.
Em entrevista ao Bahia Notícias, Marrom relembrou alguns dos momentos mais marcantes da carreira e conversou sobre o cenário do jornalismo baiano. Confira a entrevista:
São 40 anos de carreira jornalística e 40 anos sendo referência em uma área que é 100% nossa: a música baiana. Queria saber se você tinha a dimensão de onde iria chegar com a sua carreira.
MARROM: Nenhuma. Se eu falasse [que sim], seria mentira, e se tem uma coisa que eu não sou é mentiroso. Foi muito engraçado, porque meu nome começou a aparecer justamente quando o Axé surgiu, já que bate 41 anos de Axé agora. Antigamente, eu tinha uma coluna chamada MPB, de Música Popular Brasileira. Na verdade, a minha formação é roqueira — ouço rock até hoje —, mas o Axé surgiu na minha vida assim: todo dia eles iam lá no jornal me entregar material e eu nunca discriminei, fosse famoso ou iniciante. Comecei a perceber: "Isso vai dar um borogodó." Porque antes da palavra "Axé" já tinha Chiclete com Banana, Luiz Caldas... E eu era o único que cobria isso. Tinha um certo preconceito do pessoal de cultura, mas eu não posso escrever só sobre o meu gosto pessoal. Fui acompanhando e crescendo. Sinceramente, sou uma das pessoas que mais incentivam o Axé. Primeiro porque criou um mercado que não existia no Brasil — um mercado fantástico que empregou, além de músicos, profissionais de som, empresários, produtores e até nós, jornalistas. O Axé vai viver para sempre, pra mim é muito importante!
Marrom, você mencionou algo bem curioso: começou como uma pessoa do rock e hoje abraça todos os estilos. Diante disso, qual foi a sua maior descoberta musical?
MARROM: Veja só, a minha festa preferida é o São João. Eu amo São João, mas no Carnaval tô eu lá dançando, porque, claro, você tem que se incorporar à festa, né? Então eu acho o seguinte: todo tipo de música tem seus defeitos, tem música boa, música ruim, tem de tudo, mas você não pode negar que Carnaval é Axé. Tentaram numa época botar sertanejo e não deu certo. O Axé tem muita coisa de qualidade. Temos bons músicos, bons compositores... Você vai negar um Carlinhos Brown, uma Ivete Sangalo, Sarajane, Daniela Mercury, Claudia Leitte, Ricardo Chaves, Durval Lelys, Bell Marques? Você pode até não ser, eu não sou o axezeiro número 1, mas Carnaval, Micareta, Lavagem, vou estar eu lá dançando. Sou como um camaleão, me adapto.
Você viu o Axé crescer e cresceu junto com ele. Qual momento você elencaria como marcante no desabrochar desse movimento? O que mais te chamou a atenção?
MARROM: Olha, o que me chamou a atenção foi o Carnaval de antigamente. Porque o Carnaval era só domingo, segunda e terça. Aí passou a começar na quinta, hoje acho que começa até na terça-feira. O que mais me marcou é que o Carnaval antes era Novos Baianos, Dodô e Osmar, Moraes Moreira... Quando vi pela primeira vez o Luiz Caldas estourando — lembro que fui ver a saída dele na Barra —, isso marcou muito o Carnaval. Quando o Luiz Caldas cantou pela primeira vez, pensei: "Poxa, agora nós temos uma música própria mesmo, uma música nossa, né? Sem depender de ninguém."
Ao longo desse tempo, você também acompanhou a transformação da música baiana, a paixão nacional em que se tornou o Axé, e o surgimento de outros estilos e movimentos. Como você avalia isso?
MARROM: Ah, vou contar uma história aqui. Quando voltei para o Correio, em uma dessas voltas, cobri o primeiro festival de arrocha no Parque de Exposições. Fui cobrir e [a rua] parecia um deserto. Menina, quando entro no parque, tinha 80 mil pessoas lá dentro! No início, [o arrocha] era uma bateria, um teclado e cada um levava seu sax. Essa era a base: Nara Costa, Asas Livres com Pablo... Aguentei 10 horas de arrocha que ninguém queria cobrir. Hoje o arrocha virou um fenômeno. Isso me impressionou muito.
A sua carreira permitiu cobrir a música e também se tornar parceiro de vários artistas. É assim mesmo que acontece?
MARROM: Vou dizer uma coisa séria: eu não sou uma pessoa invasiva. Respeito muito a individualidade e não entro na intimidade do artista. Não sou daqueles jornalistas que querem se mostrar íntimos; tenho pouquíssimos telefones de artistas, muito poucos, porque o que me interessa no artista é o que ele faz no palco. A vida pessoal do artista não me interessa, assim como a minha não interessa a ninguém. A não ser que cometa um crime ou algo absurdo que não dá para deixar de noticiar. Nunca fui à casa de um artista sem ser convidado, nunca.

Você já falou em outra entrevista que não tinha talento para ser fofoqueiro. Como é conciliar a curiosidade do público com o seu trabalho?
MARROM: Não tenho mesmo. Não tô dizendo que sou puritano, mas não tenho talento para fofoca. Não tenho. Mas quem não gosta de fofoca? Vamos ser sinceros, quem não gosta? Já me propuseram: "Ah, mas você vai ser o Leão Lobo da Bahia." Nem pensar! Eu sou o Marrom. Agora todo trabalho bem feito, se tem público... não está aí por acaso. Claro que tem os exageros também.
Com todo esse tempo de carreira, você viu as transformações no jornalismo. O que você sente falta no mercado e o que acha que a nova geração está tirando de letra?
MARROM: Quando eu estava na redação e algum estagiário pedia conselho, eu falava: "Leia! Jornalista tem que ler." Porque veja só: um advogado ou um médico pode até cometer um erro de concordância ou de português, mas a gente não pode errar. O que sinto também é que, quando veio a internet, muito jornalista bom não acompanhou. Eu disse: "Gente, os tempos mudaram, tem que se adaptar." Eu gosto de escrever, sou das pessoas que gostam de ler jornal, mas me adaptei. A notícia hoje é dinâmica, você tem que acompanhar; ou me adapto ou vou ficar para trás.
Muita gente criou um carinho e uma admiração gigantesca por você. Qual considera o seu maior momento no jornalismo?
MARROM: Quando o U2 veio para o Carnaval de última hora — e aqui agradeço muito a Flora Gil —, ao lado de Mônica Bergamo, fomos os únicos jornalistas convidados para almoçar com eles. Isso causou uma confusão, mas fomos como amigos da família, não como jornalistas. Teve uma hora em que fui pegar um papel e o assessor disse: "Não pode." Fiz uma matéria descrevendo o que via, porque não podia nada. Estavam Gil, Ivete, Daniela, Margareth, Durval... todo mundo lá apresentando a eles a comida baiana. Não sei se foi Dadá que fez a comida, ou Ana Célia. E Gil explicando o que era vatapá. O baterista do U2 amou a caipirinha de seriguela, tomou várias. Isso me marcou muito. U2, que parou o Brasil, deu sold out, veio pra Salvador, aquela loucura, e eu estava presente no almoço. Imagine, só eu e Monica Bergamo. Quem sou eu perto de Monica Bergamo, coitado? Uma poeirinha no meio das estrelas.
Também foi marcante algo que o axé me proporcionou: quando fui pela primeira vez ao exterior, a convite da Banda Mel. Entrei por Bruxelas e de lá fomos para Paris. Eles se apresentavam em um galpão e, ao lado, vi um tumulto: era a Madonna desfilando para Jean Paul Gaultier. Quando eu estava estudando em Londres, a Banda Eva me chamou, e eu expliquei que já estava na Inglaterra. Mas eles pagaram a multa da passagem e fiquei 15 dias viajando com eles. E teve a inauguração do estádio do Porto, no jogo Porto contra Barcelona. Foi o primeiro jogo do Messi, ninguém sabia quem ele era. Fui saber anos depois que aquela era a estreia dele.
Já fui a vários Rock in Rio Lisboa com Ivete, Suíça, Nova York no Brazilian Day... [...] Muita cobertura internacional. Posso dizer isto: o Axé abriu as portas do mundo para mim.
Um momento marcante da sua trajetória recente foi a cobertura da morte de Moraes Moreira, quando a veracidade da informação chegou a ser questionada no Twitter. Como foi isso para você?
MARROM: Foi o seguinte: o Paulinho Boca é muito meu amigo, e eu acordo muito cedo e vejo as redes sociais. Quando entrei no Facebook, vi uma nota assim: "Perdemos nosso querido Moraes." Fiz como todos faziam no Jornal do Brasil, Globo, Folha de S.Paulo... Senti que a fonte tinha firmeza, então liguei para o Paulinho. Quando ele atendeu, já estava chorando e falou que era verdade. Aí botei a nota. O povo procurou em outros lugares, não achou e foi para o Twitter revoltado perguntando: "Quem é esse Marrom?." Depois, a própria jornalista do UOL me pediu desculpas. Eu não ligo para isso, mas as pessoas têm que parar com essa mania. Com a internet, você pode estar no Afeganistão e descobrir algo de outro lugar. Mas foi difícil, apanhei mais do que mala velha.

Você já teve algum momento em que pensou: "Acho que isso não deveria seguir por esse caminho"? Ou é sempre muito seguro do que faz?
MARROM: Nunca tive. Eu não especulo nada, checo bastante. Não sou santo, mas ninguém pode me acusar de ser irresponsável ou criador de fake news. Aprendi no jornalismo que não se dá furo pelo furo. Prefiro tomar o furo a dar a nota de qualquer jeito.
Como fã de rock e de música em geral, como avalia a recente movimentação de grandes shows internacionais em Salvador, como Guns N' Roses e Maroon 5? Imaginava esse retorno?
MARROM: Demorou muito. No do Guns eu não fui porque me atrapalhei, você acredita? Mas acho bacana. Maroon 5 não é da minha geração, mas acho ótimo vir, como outros grupos. Quanto mais shows aqui, melhor. Salvador comporta. Temos um bom estádio; aliás, a Fonte Nova é muito bem localizada e tem estrutura.
Para encerrar nosso papo: há uma frase recorrente a todo Carnaval de que "o Axé morreu." O que você acha dessa declaração e onde percebe que o movimento sobrevive?
MARROM: Enquanto houver Carnaval, micareta e festa jovem, não tem jeito, o Axé sobrevive. Foi comprovado. Como disse antes, tentaram botar bloco de sertanejo, mas não é música para Carnaval. Tive uma experiência maravilhosa no Fortal: Bruno & Marrone num trio top, sertanejo, lotado; atrás vinha um trio de quinta categoria com o É o Tchan, e o povo enlouquecido, misturado, tudo de bom, todo mundo se divertindo. É claro que o Axé não é mais o mesmo, porque toda música tem seu momento e o Axé teve o seu auge, mas ele não vai morrer nunca.

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