"O forró é uma das espinhas dorsais da música brasileira", afirma Léo Estakazero ao celebrar 30 anos de carreira
“Não sei de nada, sou um eterno aprendiz…” Após anos de história, essa é a frase que ainda define a vida de Léo Estakazero. O artista completa 30 anos de trajetória musical em 2026 e acredita que ainda tem muito a aprender em um gênero que luta por preservação: o forró.
Se a história de Léo com a música fosse um casamento, neste ano o artista estaria celebrando Bodas de Pérolas, joia que, no matrimônio, simboliza uma relação que passou por adversidades e se tornou firme, resistente e encantadora, algo que traduz a trajetória do artista na música.
Seguro de sua escolha, Léo soube ainda no início da carreira que a música era a sua certeza na vida. Foi botando o pé na estrada com a Colher de Pau que o artista entendeu que nasceu para o "forró com reggae", se tornando um símbolo do forró em Salvador e representante de um estilo na Bahia.
“Uma geração de adolescentes, muitas pessoas aprenderam a gostar de forró com a Estakazero. Hoje eu tenho um sanfoneiro, Nino, que cresceu ouvindo a Estakazero em Cruz das Almas. O elogio que eu mais gosto de receber, sem dúvida alguma, é esse: ‘Poxa, eu aprendi a gostar de forró com a Estakazero’. A gente tem um forró com uma linguagem lúdica, as crianças sempre gostaram.”
Em 2026, o sonho de Léo é um: após 30 anos de história na música, o desejo é emplacar um novo CD como o Lua Minha, de 2005, considerado um dos clássicos do forró baiano. “Eu trabalho e busco a cada ano, quem sabe, realizar um novo sucesso. Poder contribuir mais ainda com o forró”.
No bate-papo com o Bahia Notícias, o artista ainda relembrou momentos marcantes da carreira e avaliou a cena atual do gênero. Confira a entrevista completa com Léo Estakazero:
Léo, você fala que não foi você que escolheu o forró, que o ritmo te escolheu. Como foi esse momento de perceber que o forró era o seu caminho?
Olha, aquela história: às vezes o ambiente, né? Às vezes o meio influencia, né? O meio nos influencia demais. Então, assim, foi durante o São João que eu percebi a minha importância, por isso que eu falo que o forró me escolheu. Aqui na Bahia, nós temos esse movimento muito sazonal, muito forte. Quando passa o Carnaval, que é muito forte em Salvador, existe aquele clima onde as pessoas se preparam para o São João. Então, a gente começa a respirar o forró e, em meio a isso tudo, eu estava começando a tocar com meus amigos e primos; tinha uma banda que não era uma coisa muito profissional, que era a banda Colher de Pau. E a gente fez um repertório só de forró, e eu acertei nesse repertório de tal maneira que a gente foi eleita a banda revelação em 97, em Amargosa. Aquilo foi muito forte, aquilo me impactou demais. Eu larguei faculdade, emprego que eu tinha e me dediquei à música.
Você falou da Colher de Pau e eu lembrei que na porta da minha casa tinha um adesivo da banda. Percebo que o gosto pelo forró é uma tradição que cresce em família. Como você percebe essa transmissão de raízes?
Isso é fantástico, né? Isso aí é a maior riqueza que nós temos, né? Ser influenciados pelas nossas raízes. E o forró tem muito isso. O forró é um estilo de música. Quando eu abracei o forró, eu fiz isso com a consciência muito tranquila, porque eu cresci ouvindo Luiz Gonzaga, meu pai, meus avós, né? Dominguinhos, o próprio Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, que foi o artista com quem aprendi a tocar violão. Então, eu me senti em casa e realmente me identifiquei muito, sempre me identifiquei muito com esse movimento musical; e meu pai também sempre me ensinou a valorizar a música brasileira. Sempre foi um bairrista nesse aspecto de gostar de música brasileira, de MPB, e o forró está dentro desse contexto.
Qual foi a maior dificuldade que você encontrou ao largar a profissão e a faculdade para se dedicar inteiramente à música?
Essa pergunta até é uma pergunta difícil. Sinceramente, assim, eu não tive dificuldade. A música sempre esteve presente na minha vida, né? Fazer música é diferente de viver de música. Então, eu sempre fiz música desde criança. Tive a sorte incrível de ter uma mãe professora. Ela dava aula de iniciação musical e aula de piano. Então, eu tive uma educação musical, vamos dizer assim, desde casa; eu comecei a tocar instrumentos, aprender ritmos, aprender as melodias, solfejar, aprender a teoria musical. Desde pequeno, frequentava a escola de música ainda jovem. Só que, engraçado, eu nunca projetei que iria viver de música. Eu tinha aquilo como uma coisa natural, como uma coisa de dentro de casa. E quando eu comecei no mercado de trabalho, trabalhei em bancos, servi ao Exército, eu percebi que tinha dificuldades nas outras coisas. Quando eu comecei a banda, que a banda começou a despontar, logo percebi que aquele era o meu lugar. Meu lugar era o palco, eram as festas, era estar no meio das pessoas. Eu me sentia bem fazendo isso. Eu sentia que, assim, provavelmente eu não daria mais certo em nada. Seja tocando num barzinho, voz e violão, animando uma festa de aniversário, ou seja num palco, numa praça tocando para 50.000 pessoas, 100.000 pessoas, eu me sinto em casa ali. Me sinto bem, me sinto seguro.
Qual foi o momento mais marcante para você nesses 30 anos de carreira?
Provavelmente o mais marcante foi o momento em Amargosa, quando fomos eleitos banda revelação. Aquilo foi o ponto de decisão para pautar minha vida pela música, mesmo sem ter planejado ou almejado o sucesso. Hoje, muitos jovens e crianças sonham com o sucesso, influenciados pelos pais, mas eu acho que você precisa primeiro gostar de fazer música. O sucesso é consequência.
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Você comemora esses 30 anos em um palco especial: os seus tradicionais ensaios de São João. Como foi consolidar essa festa que virou memória afetiva em Salvador?
Olha, é uma realização também, né? E, aqui na Bahia, eu tive muito exemplo, né? Eu aprendi muito com os artistas que faziam os ensaios. É uma tradição; eu cresci na juventude indo para os ensaios. Era do GeraSamba, depois foi do É O Tchan. Ao longo desses muitos anos, as coisas vão evoluindo, vão mudando. Fazer evento hoje é muito mais difícil do que era no passado. Existe uma série de situações, mas o ensaio é, assim, uma realização. Como você disse, eu tive a honra e o prazer de cantar com Elba Ramalho, com Geraldo Azevedo e Alceu Valença, fora os artistas da Bahia. Toda a galera do forró, eu pude prestigiar: Adelmário, nosso saudoso Zelito, Carlos Pita, Renato Fechine. Toda a galera do forró: Del Feliz, Jó Miranda, Cangaia de Jegue... Nosso ensaio teve uma projeção nacional; foi um momento de muita consolidação da carreira da banda Estakazero.
Muitas pessoas tratam o forró como algo sazonal, mas quem é da cena sabe que ele acontece o ano inteiro. Como é manter essa constância?
Dentro do universo do forró, você tem as suas, vamos dizer assim, tendências. O forró, ao longo desses 30 anos, eu assisti: o forró pé de serra, o universitário, depois o forró tradicional fazer mais sucesso, depois o forró das bandas, o forró vaneirão... ele passa por processos de transformações. Isso vai de acordo também com os jovens que vão chegando, a maneira como eles se comunicam. O forró é uma das espinhas dorsais da música brasileira, assim como o samba; influencia todos esses outros estilos. E aqui na Bahia existe esse caldeirão. Então, eu me sinto assim: eu faço parte disso e, durante o ano inteiro, esses movimentos estão presentes nas festas. A gente percebe mais isso na capital, né? Essa coisa da sazonalidade está mais dentro da capital, por ter muita influência também da música baiana, do reggae, do pagode e tal. Mas o interior, ele ainda mantém muito acesa a questão do forró nos seus eventos, sem dúvida alguma.
Eu acompanho a cena dos festivais e é bonito ver que o ritmo não para após o São João.
Os festivais são importantíssimos, eles fazem questão de manter a tradição. O festival, ele mantém ali a essência do forró, para que não se perca. Quem gosta de forró na sua essência tem nos festivais ali o ano inteiro.
Quem canta forró tem obrigatoriamente que saber dançar?
Olha, eu particularmente sei um pouco (Risos). Não faço feio não, né? Gosto muito de dançar, adoro. E sempre que eu posso eu vou lá no Forró Talco dar uma uma dançadinha.
A dança do forró é um ambiente acolhedor? Você recomenda para quem nunca foi?
Sem dúvidas. A dança é uma excelente manifestação. Dançar é terapêutico, movimentar o corpo, conhecer pessoas. Quantas pessoas já me disseram: "Olha, casei, tenho filhos, conheci minha mulher, meu primeiro beijo foi dançando ao som de 'Encosta N'eu', ao som de 'Lua Minha'". Já ouvi muito isso, já fiz show em casamentos, já casei muita gente. Então assim, sem dúvida alguma é a programação excelente.
Léo, eu conversei com Del Feliz para poder falar justamente sobre essa essa esse processo de reconhecimento do forró como patrimônio material da humanidade. E quando eu conversei com ele, ele tocou em um ponto importante, a questão da descaracterização de São João. A gente sabe que é um pedido muito forte para políticas públicas em relação ao São João, ao forró, mas eu queria saber do outro lado. O que é que o público pode fazer para manter essa tradição de São João, né?
Em primeiro lugar, o público precisa entender, né? E saber o que quer. Ter a consciência do significado do São João. Ao mesmo tempo em que o São João cresceu muito, a gente não pode generalizar; tem cidades que fazem festas lindíssimas de São João, mas tem cidades em que realmente descaracterizou, porque o São João é uma festa do interior. Ela é a festa que enaltece a essência do nordestino. É a festa da cultura nordestina, cheia de assunto: comida, roupa, dança, tradições. Assunto esse que vem se perdendo; quanto mais ela cresce, mais ele perde a característica. E você vê artistas, muitas vezes, sem vínculo nenhum com o próprio São João, porém, essa coisa toda acontece, como você mesmo falou, para agradar ao público. O que acontece é que, nas festas hoje, o forró não é o centro das atenções. O forró deixou de ser o protagonista.
Depois desses 30 anos de carreira, você tem algum sonho ainda como artista, como cantor, que você ainda quer realizar?
Olha, a gente sempre almeja. Eu gostaria de mais músicas. Seria maravilhoso poder ter um outro disco, como eu tive, os meus dois primeiros discos foram os que mais fizeram sucesso, os que mais emplacaram músicas. Eu trabalho, eu busco a cada ano, quem sabe, realizar um novo sucesso. Poder contribuir mais ainda com o forró. Ver o forró sendo mais valorizado. Tudo isso faz parte, tudo isso é meu sonho.
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Para encerrar, Léo, 30 anos de carreira para 2026: o que a gente vai ter além, é claro, dos ensaios de São João?
Olha, a gente lançou agora um EP com seis músicas. Estamos planejando fazer um audiovisual ainda este ano. Tudo em planejamento, tudo isso aí a gente está trabalhando. O ensaio de São João, ele é fundamental, né, para que as coisas andem; e fazer um São João maravilhoso, um São João onde eu possa homenagear as pessoas que estiveram envolvidas nesses 30 anos, relembrar esses momentos, né? Fazer um show muito especial.
