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Marca Bahia Notícias Holofote

Entrevista

Denny fala da 'porra' de Tomate, do verão e do novo DVD

Por Fernanda Figueiredo

Era para ser uma entrevista, mas acabou se transformando num bate-papo tão descontraído que o vocalista da banda Timbalada se "despiu", no bom sentido, claro. Denny contou um pouco do novo CD, que já está sendo finalizado, falou sobre o verão, o carnaval e do novo DVD - que deve ter participação internacional. Amigo declarado do cantor Tomate, Denny comentou o novo hit do cantor, que traz um palavrão em seu refrão, e ficou em cima do muro na hora de falar se teria coragem de se arriscar numa carreira solo, mas não descartou a possibilidade. 
 

 


"Não que eu tenha a pretensão de fazer um disco solo, mas acredito que sim e também acredito que não. Eu não sei, é Deus quem vai dizer"

Coluna Holofote: Muito se falou sobre o fim da Timbalada quando Ninha e Amanda saíram da banda. Hoje, com o sucesso da Timbalada sob o seu comando, como você avalia as antigas suposições?
Denny:
Primeiro que foi uma transição. A Timbalada passa por muitos momentos bacanas. A própria vida da Timbalada, a existência é de transição. A Timbalada, quando ela foi criada por Carlinhos Brown, um dos projetos daquela época, é... Como todo projeto, ela agrega muitas emoções. Eu estava vendo uma reportagem anteontem do Carlinhos Brown falando que a Timbalada não tem idade, essa é a coisa mais certa no mundo. A Timbalada não é uma coisa datada porque a Timbalada é o que vem do coração e eu acredito que a Timbalada veio para confirmar o grande potencial que a nossa música baiana tem. E esse processo que você fala aí é porque eu não fui uma pessoa que tipo: saiu fulano e entrou beltrano, entrou Denny, no caso. Não. Eu sempre fiz parte desse projeto, desde o início da Timbalada.



CH: Eu sei, mas o que eu digo, é que as pessoas não acreditavam muito na sua capacidade de levar a Timbalada. Acreditava-se, até então, que só Ninha conseguia isso. Então, as pessoas se questionavam ‘será que Denny vai conseguir comandar a Timbalada?’. E o que eu quero saber é o que você achou dessa desconfiança com que as pessoas lhe viam no início.
Denny:
Eu acho isso uma coisa super bacana e normal. Porque nós temos medo de tudo aquilo que é novo, de tudo aquilo que é impactante, de tudo aquilo que surpreende, nós temos medo das coisas novas e eu, como sou atuante desde o início, também tem uma coisa chamada questão de oportunidade. Desde o início, passaram 10 cantores pela Timbalada: Carlinhos (Brown), eu,  Ninha, Patrícia Gomes, Xexéu, Amanda, Augusto Conceição, Pintado do Bongô   e Alexandre Guedes. Então, alguém tinha que ficar na base e como eu era o mais novo, o menor de todos, então, era óbvio que um dia a minha vez ia chegar e eu ia poder mostrar o potencial musical que sempre tive. E isso que eu estou dizendo não é que eu sou bom pra caramba, mas fui aprendendo com a própria Timbalada. A Timbalada foi e continua sendo a minha faculdade musical e de vida.



CH: E essa desconfiança das pessoas, esse medo lhe incomodava?
Denny:
Eu encarei isso como uma força tão grande que você não tem noção. Isso me fortificou. Primeiro porque a unanimidade é burra, então, eu não quero ser unânime. Tem que ter alguma coisa para você dizer “não, eu quero superar isso, eu tenho que passar por cima disso com a minha naturalidade, com a minha musicalidade, da minha forma e do meu jeito”. E isso, graças a Deus, deu certo.



CH: Pois é. Hoje as pessoas veneram Denny à frente da Timbalada, dizem que a Timbalada é a sua cara. Como é a sensação de ver a desconfiança se transformar em amor e desses bem fortes?
Denny:
Primeiro eu acho que todos aqueles que passaram pela Timbalada deixaram a sua marca, então, a gente também tem que agradecer a essas pessoas, porque sem essas pessoas a Timbalada não seria a Timbalada mesmo com a minha cara que tem hoje. É como eu falo: eu aprendi muito com eles, suguei muitas coisas e apliquei na própria Timbalada. E hoje a Timbalada é muito tranqüila, é muito aberta a tudo nessa vida. Nunca teve preconceito, mas agora, muito mais ainda, está desprovida de qualquer tipo de preconceito, que essa é também a nossa meta. E, a cada ensaio que eu vejo eu me emociono com o amor das pessoas. Na nossa estreia no domingo passado, eu chorei por dentro – porque eu não podia me emocionar porque eu estava cantando, senão eu ia desafinar - , chorei no camarim porque o que acontece é uma coisa incrível e, ao mesmo tempo, eu não sei o que é que acontece que as pessoas ficam dessa forma. Eu só sei que é um trabalho conjunto entre mim, os timbaleiros, os músicos, toda a produção, o próprio Carlinhos Brown que não me deixa nunca, eu só sei que é isso.



CH: Você entrou na Timbalada com quantos anos?
Denny:
Com 12 anos.



CH: Então, você sempre foi artista?
Denny:
Sempre. Porque eu venho de uma família de artistas. Os meus três irmãos cantam, a minha mãe cantava, o meu pai cantava, cresci acompanhando meus irmãos cantando. Fugia de casa, saía de noite e só voltava no outro dia. E isso com oito anos de idade. Conheci a noite com os meus irmãos, aprendi muito assim, “natoralmente”, fui autodidata, enfim.



CH: Você disse no início da entrevista, que a Timbalada é transição. Passa pela sua cabeça largar a Timbalada para alçar novos vôos?
Denny:
Olha, eu não sei, eu acho que... Quando eu vejo assim, por exemplo, Mick Jagger nos Rolling Stones, a sua energia incrível, tantos anos de trabalho juntos, eu não sei, eu não sei, eu acho que eu me vejo como Mick Jagger também, só que na Timbalada, sabe? Mas, ao mesmo também, é algo, é uma busca minha buscar outras coisas, até mesmo na Timbalada, sei lá, quem sabe? Quem sabe um disco Denny não vem por aí? Porque também, hoje em dia isso é normal entre os artistas, fazer um disco em paralelo com a banda. Não que eu tenha a pretensão de fazer um disco solo, mas acredito que sim e também acredito que não. Eu não sei, é Deus quem vai dizer.



CH: Assim ficou difícil...
Denny:
É porque eu não sei, não tenho certeza, entendeu? Eu estou aqui, vou fazer meu trabalho, continuo trabalhando e pretendo ficar na Timbalada até quando Deus quiser.



CH: A Timbalada foi encarada como uma grande invenção musical da Bahia no século XX e permanece agora no século XXI, mas o que é que a banda traz de novidade, musicalmente falando, nessa temporada?
Denny:
Eu acredito que a tendência hoje em dia é o que há de mais eletrônico. A Timbalada é 90% percussiva. Eu acho que a nossa música e a Timbalada busca mesmo abrir a nossa mente para as coisas novas que vêm lá de fora e é isso que a gente quer trazer para a Timbalada, desde que a batida da Timbalada não deixe de ser percussiva nunca.



CH: Inserir outros instrumentos, outras sonoridades na música de vocês requer mais trabalho pelo fato da banda ter bastante gente, bastante percussão, enfim?
Denny:
Pelo contrário, fica mais fácil. Porque nós já somos da Timbalada, então, trazer uma coisa pra incrementar isso dá orgulho, dá um tempero à nossa carne. Eu acho que é fácil. Hoje, por exemplo, eu já estou tocando o SP-20, que é um sampler eletrônico, então, eu já coloco umas batidas, já faço invenção de umas músicas eletrônicas, porque eu vou muito pra boates, porque eu adoro boate, então já boto dentro. Eu acho que já fica mais fácil. Mas a questão mesmo está no nosso querer em buscar isso. É estar mesmo antenado no mundo. Por que não? Só porque nós somos do Candeal? Não. Nós vamos lá, vamos nos Estados Unidos. Tocamos com The Black Eyed Peas agora. Então, não é só a nossa musicalidade, mas também a nossa musicalidade na comparação de eventos, como nós já abrimos shows lá fora, nos Estados Unidos, na Europa, para alguns artistas. Então, eu acho que o nosso som, por mais que seja percussivo, é uma coisa muito mais além da percussão.




"Eu sou timbaleiro. Posso cantar o que for, mas eu sou timbaleiro. Pagodeiro é pagodeiro"



CH: Você disse aí que a Timbalada é livre de preconceitos, mas eu nunca vi a Timbalada tocando pagode...
Denny:
Você não viu? Você está dormindo? Você foi para o nosso ensaio este domingo? Tocamos pagode, pela primeira vez, neste domingo.



CH: Eu não fui, não sabia. Mas você gosta de pagode, porque você acabou de dizer que gosta de boate... Do pagode também?
Denny:
Olha, eu acho o pagode uma coisa fenomenal! Primeiro porque mexe com o povo, como a Timbalada mexe com o povo. O pagode mexe com o povo de uma forma tão extrema que eu acho que qualquer outro gênero da Bahia ou não sei, mas é uma coisa que a gente tem que estudar, que analisar para mandar pra fora. Eu adoro pagode, eu tenho uma banda de pagode.



CH: Que novidade! Qual o nome?
Denny:
“O Cara”. Eu tenho uma banda de pagode, eu que sou o diretor musical, então eu vou lá e faço tudo. A única coisa do pagode que eu não gosto é quando ele vem com aqueles “linguajas” e deturpa toda uma história, deturpa as mulheres, deturpa uma sociedade, eu não gosto. Mas pagodes que falam do gueto, que falam da realidade do nosso povo, eu não vejo problema em cantar. No domingo passado eu cantei “firme e forte” do Psirico. Agora, eu sou timbaleiro. Posso cantar o que for, mas eu sou timbaleiro. Pagodeiro é pagodeiro. Ele pode cantar o que for, está ali levantando o nosso astral, levantando a nossa galera, a nossa cultura, mas ele é pagodeiro. E eu adoro pagode. Cantei “firme e forte” e a galera não se deu... Isso foi inédito porque a Timbalada nunca tinha cantado uma música de pagode e eu cantei.



CH: Você cantaria “Mulher Maravilha” ou melhor, “A Liga da Justiça” que é a febre do momento?
Denny:
Eu não conheço ainda, ainda vou ouvir.



CH: Agora, entra ano e sai ano e as músicas da Timbalada nunca ficam velhas, mesmo as mais antigas. Qual o segredo?
Denny:
É incrível, né? Tem umas músicas de 10, 20 anos e eu vejo as pessoas cantando como se tivesse tocando nas rádios... Pôxa, eu não sei. Na verdade eu sei, né? Agora eu não posso largar o doce. Pergunte ao diretor da coca-cola qual a fórmula da coca-cola para ver se ele vai dizer. Mas eu acho que é amor.



CH: Quantos shows, em média, a Timbalada faz por mês?
Denny:
De dez pra cima.



CH: Viajando tanto, como fica a relação com a família, você que tem um filhinho?
Denny:
É um pouco complicado isso. A própria Timbalada já é uma família, porque a gente passa o tempo todo juntos na estrada, no avião, no aeroporto, no hotel, enfim, a gente está o tempo todo na estrada. Mas o tempo livre quando eu, particularmente, estou aqui na Bahia, eu tenho entrevista (risos), aí já dá uma complicada, já tem outras coisas para resolver: é composição, é estúdio, então fica um pouco apertado, mas a gente sempre dá um jeito. Sempre que eu tenho um tempo livre eu ligo para a mãe de Lucca (filho), digo “eu vou aí, vou pegar Lucca”.



CH: E Lucca vai ser artista?
Denny:
Com certeza. Ele pode ser o que quiser: capoeirista, jogador de futebol, nadador e timbaleiro. Porque ele toca de uma forma que é incrível! Todo mundo que eu mostro, todos falam a mesma coisa “Denny, é incrível!”. Todos, todos, todos.



CH: Denny, quando Ninha saiu da Timbalada, ele criou a Tribahia, agora está com a Trem de Pouso, mas nada emplaca. E isso surpreende porque, à frente da Timbalada, Ninha era “o cara”, não à toa, ele foi considerado o gogó de ouro da Bahia. Por que você acha que fora da Timbalada, ele não está dando certo?
Denny:
Olha, isso é uma coisa que eu não posso falar. Eu não posso falar porque eu não tenho propriedade dos saberes dele, das dificuldades dele, das coisas que ele passou. Eu só digo uma coisa: é muito difícil, é muito difícil. Você tem que estar extremamente estruturado, em todos os sentidos. Porque para você sair de uma banda que já tem uma vivência, já tem uma marca internacional, até, você tem que estar extremamente estruturado. E tem outra coisa: no futebol, quando você toca a bola, o gol está ali e você toca a bola para o seu amigo, isso se chama humildade.”Porra, não fiz o gol, mas ajudei o meu amigo a marcar”. Mas você indo, indo e chutar a bola direto pro gol e o goleiro pegar a bola, aí você vai ser criticado para sempre, porque não foi humilde.



CH: Como assim?
Denny:
Não estou querendo dizer nada com isso. O que eu estou querendo dizer é que temos que ter uma estrutura, internamente, muito forte. Externamente também, muito forte. Porque Timbalada é Timbalada em qualquer lugar do mundo.



CH: Quem diria que Ninha ia sair da banda?
Denny:
Pois é. Aí eu volto para aquela pergunta que você me fez se eu penso um dia em sair da Timbalada... Caramba! Eu não sei, eu não sei. Porque eu sou tão Timbalada – eu não me sinto a Timbalada – eu sou tão Timbalada que, se eu sair, eu acho que vou perder muita coisa. Então, tem que estruturar, tem que analisar como é que está o mercado...



CH: Vocês estão finalizando um CD agora. Como é que vai ser esse CD? Vai ter participação, porque a Timbalada não parece ser muito adepta de participação, não...
Denny:
A Timbalada... Ela participa, sim! Eu vou contra você agora. A Timbalada sempre gostou de participação. Primeiro que a Timbalada já é participativa, ela já foi criada nesse sentido. Reinaldo do Terrasamba já foi tocar lá com a gente; a galera do Olodum; a galera do Ilê; já tivemos parcerias com Caetano Veloso, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil, além das parcerias em composições.



CH: Mas e no novo CD, especificamente?
Denny:
Nesse CD tem quatro canções minhas...



CH: São músicas para o carnaval?
Denny:
São músicas para a Timbalada. Porque assim, quem vai determinar qual é a música do verão não é a gente, é o povo. E assim que o CD sair, o povo vai começar a cantar e a música que o povo cantar mais, vai ser a música do verão.



CH: Sim, mas tem aquela preferida de vocês, que quando vocês escutam, vocês logo pensam no potencial dela para ser o hit do verão... Qual seria?
Denny:
A gente tem isso, claro, temos essa estratégia. Eu posso falar uma minha ou de Carlinhos. Porque olhe, esse CD é uma coisa inédita e a gente ainda está trabalhando para isso. O que existe, na verdade, são pensamentos. E esse CD está vindo com quatro músicas minhas, com autoria também de Paulinho Caldas – que por acaso é irmão de Luiz Caldas – e tem também com Alain Tavares que já é o nosso parceiro há muito tempo, tem composição de Carlinhos Brown, óbvio, não pode deixar de ter, são seis composições de Carlinhos e mais duas que a gente vai regravar, que é “Leva”, “leva, o meu som contigo, leva”, de Michael Sullivan e “Muito além do arco-íris”.



CH: E quando é que fica pronto o CD?
Denny:
Acredito que no ano que vem. Pode ser em 1º de janeiro ou...



CH: Pode ser mais específico? Vai ser antes do carnaval?
Denny:
Antes do carnaval.



CH: E vai ter lançamento aqui em Salvador?
Denny:
Vai. Aí vai ter tudo direitinho, lançamento nacional, show, a gente está preparando uma turnêzinha que vai mesclar músicas que já gravamos com essas músicas.



CH: E DVD, porque já tem um tempinho que saiu o da Timbalada?
Denny:
Vai ser aqui em Salvador também.



CH: Vai ser no Museu Du Ritmo ou vocês pretendem fazer num lugar maior?
Denny:
A gente ainda está vendo, eu juro.



CH: O que é que você sabe em relação ao DVD?
Denny:
Aí eu tenho que morrer de novo... (risos)



CH: A Timbalada é conhecida internacionalmente. Existe a pretensão de trazer alguma atração internacional para participar do DVD?
Denny:
Vai ter participação. Internacional, não sei. Mas eu, particularmente, estou vendo a participação internacional.



CH: E carnaval? Tem como adiantar alguma novidade?
Denny:
Carnaval a gente vai estar desde quinta no Nana, vamos sair todos os dias.



CH: Você deve ter visto agora a polêmica envolvendo a música de Tomate, “Eu te amo, porra” e a Prefeitura. O que você achou disso?
Denny:
Eu vi a polêmica, mas ainda não ouvi a música. Poxa, o que é que eu acho? Eu só acho que eu tenho uma amizade muito grande com Tomate e eu até o entendo quando ele faz isso dessa forma porque até eu xingo quando eu estou no palco “caralho, ta de f...”, porque é uma expressão nata. Claro que a gente não vai sair por aí “porra, foi de f... o ensaio. Foi do caralho”, porque isso é uma questão de educação. Eu até entendo ele, mas eu acho que, por exemplo, eu simplesmente não gostaria que meu filho ouvisse. Não só essa música como qualquer outra música que tivesse um palavrão. Porque eu tenho filho, então, eu estou falando como pai. Não é nem como artista, não é nem como amigo dele.



CH: Mas e Denny o artista... Cantaria “eu te amo, porra”?
Denny:
Ah, eu botaria outra coisa no lugar do palavrão. Porque o “porra” já está na cabeça das pessoas. Eu cantaria “eu te amo, meu amor”; “eu te amo, minha paixão”, “eu te amo, sua caramba, sua danada”. Porque, queira ou não, o porra já está na cabeça das pessoas e, se eu cantar não vai dar em nada.

 



Por Fernanda Figueiredo

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