O DEDO PESADO DA CULTURA

Ao que parece, mais um absurdo está acontecendo na Bahia. Desta vez, mais precisamente, no Carnaval de Salvador. Sendo isso verdade, seria, acredito eu, mais um passo para exterminar de vez o nosso carnaval de rua.
Bom, vamos entrar na história. Em 1989, as entidades carnavalescas e o poder público (Prefeitura e Governo do Estado) resolveram criar o conselho do carnaval. O objetivo deste conselho seria unir, a partir daquele momento, os dois lados interessados na festa e suas respectivas entidades em um grupo de atuação que pensaria, a partir de então, melhorias para a festa, que àquela altura já começava a colher frutos do estouro musical do axé music.
Não que o carnaval naquela época fosse ainda bagunça, mas justamente para dar uma arrumação mais profissional ao evento é que os representantes do carnaval se submeteram a apreciação do prefeito e vereadores de então a idéia da criação do conselho. O que foi aceito e acolhido pelo executivo e legislativo, sendo ele regulamentado alguns anos depois, mais precisamente em 1992 sob a lei N¢ª 4538/92.
Mas eis que surge por esses dias a preocupante notícia de uma intervenção mais que profunda da Secretaria de Cultura na escolha do presidente do conselho, o que realmente ficou estranho, pois desde a sua criação, há mais ou menos vinte anos, não sofria o conselho uma tentativa de ingerência tão grande como agora se fomenta.
Há de se entender que o conselho do carnaval, com suas entidades carnavalescas, sempre foi representado na presidência por pessoas ligadas diretamente à folia momesca, justamente pela interação que a função exige. Nunca houve, até então, intervenção política na escolha de seus membros; seja ela por que partido ou político.
As entidades ligadas ao conselho (cito apenas duas, mas há outras), como a ABT (Associação de Blocos com Trio) ou a ABS (Associação de Blocos de Salvador), nas mais duras discordâncias de pontos que tivessem em relação ao carnaval, sempre atuaram de forma harmoniosa para a finalização do mesmo. Prova disso é que, ao longo desses anos, alternaram as administrações do conselho e da coordenação do carnaval em uma equação de consenso entre todos os membros que do conselho participavam.
A administração pública, seja ela municipal ou estadual, é de importantíssima contribuição para a festa, desde que, para o bem de um evento que nasceu da vontade do povo, não interfira de forma direta no seu andamento, nem tentem a bem da vontade própria manipular ou tentar manipular um segmento que sempre atuou em parceria com o poder público, mas sempre soube se virar.
O que se torna mais intrigante nesta história toda é que, na justificativa de melhorar o segmento do carnaval, um órgão do governo e seu principal dirigente tentam, a todo custo (deus sabe lá qual), manter na presidência do conselho um indicado seu em detrimento ao interesse de um todo, visando, ao que parece, apenas seus interesses (sejam lá quais forem eles).
Alguém pode me dizer o porquê de tanto interesse em idealizar a manipulação de uma festa que, diga-se de passagem, já é tão difícil de ser feita até pelos profissionais que nela atuam? Qual o interesse por trás de tudo isso?
E se, em contrapartida aos que tentam a intervenção branca nos destinos do carnaval, pudessem os que lutam contra isso estabelecer um dono de bloco como diretor de teatro, tendo à sua frente uma peça como Hamlet, ou MacBeth, papel que aqui na Bahia, dizem já ter dono?
Que saber, como diz riachão: xô xuá, cada macaco no seu galho!
