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Coluna

Quem quer injeção na testa?

Por Luís Ganem

 

A primeira coisa que aprendi quando comecei a trabalhar com a música foi: sempre esteja um passo à frente das novidades e das evoluções do mercado. Dito isso, enquanto produtor sempre me coloquei à frente de algumas ações, buscando anteceder ao que aconteceria. Claro, algumas vezes nem tudo acontecia ou aconteceu do jeito que eu imaginava, e nem sempre conseguia fazer o que estava pensando, até porque, nem sempre, o pensamento era somente meu.

E tendo dito tudo isso, vou dizer o primeiro passo que um artista deve fazer antes de entrar em carreira solo: ter o seu bloco, ser dono de um bloco. Esse é e será sempre o primeiro passo a se dar para quem está pensando em fazer carreira solo. E pergunto, para corroborar com o que estou dizendo, se alguém conhece algum artista que, começando ou já estando em carreira solo no carnaval da Bahia sem bloco, vingou para algum lugar? Com certeza a resposta será um grande não.

Pelo que eu saiba, nunca na história da música baiana um artista conseguiu continuar na mídia ou chegar a algum lugar sem ter seu bloco. Como referência para o que estou dizendo, cito Luiz Caldas e a turma do fricote na década de oitenta, que somente vingaram enquanto estiveram inseridos em alguma agremiação carnavalesca. Ou mais recentemente a competente e talentosa Gilmelândia que, independente de toda a qualidade musical, foi obrigada a reavaliar os rumos de sua carreira, justamente por não ter um bloco para chamar de seu.

Não que tê-lo – o bloco carnavalesco –  signifique a garantia do sucesso. Mas expressa a visibilidade necessária que o artista precisa para ser visto e vender o seu peixe, sob pena de quem não tem ficar esquecido em um canto e, consequentemente, ser engolido pelos novos valores.

E em cima disso, uma grande indústria de vagas se criou. Hoje aparecer no carnaval de Salvador é, para quase todos os artistas novatos ou veteranos, muito importante. E essa conversa de vaga para apresentação pode significar uma pequena fortuna para o artista ou empresário pagar.

O que antes se resolvia apenas com uma cerveja e uma conversa de bar, hoje com a questão do melhor horário de saída, pode significar a cerveja e uns dígitos a menos na conta de quem quer a vaga. Para quem almeja algo mais do que um momento de fama, ter um bloco seu significa um item a menos para se preocupar na corrida pelo sucesso. O que, no caso contrario, pode ser na grande maioria das vezes o principio do fim, seja ele rápido ou demorado, mas o fim com certeza.

Certa vez ouvi um “entendido” em música e empresariamento dizer do alto de sua arrogância que: “vaga se compra a qualquer tempo”. Disse ainda o boçal para quem quisesse ouvir que era somente oferecer algum dinheiro que os mortos a fome donos de bloco sem atração viriam rastejando vender a vaga. Em tese o sujeito tinha e tem até razão, talvez por um pequeno punhado de reais, alguns donos de bloco aluguem ou vendam a sua vaga e façam um bom negócio.

Mas por outro lado o tal sujeito esqueceu de pensar em um detalhe: e quando a atração apenas tem dinheiro, mas não chama mais ninguém, não faz mais sucesso como antes, como fazer nesses casos? Olha, sendo muito franco, até sei qual seria a resposta para uma situação como essa, mas deixo-a para os universitários, pois de graça, nem mais injeção na testa, imagine consultoria.

Só sei de uma coisa: na terra do Senhor do Bonfim, dar abadá de graça no carnaval, como diz Xanddy do Harmonia, significa “a verdadeira quebradeira, a quebradeira verdadeira”.

Só serve pra pano de chão e, olhe lá.

 
 

Luis Ganem

luisganem@bahianoticias.com.br
twitter: @luis_ganem