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Coluna

Correndo atrás do tempo perdido

Por Luis Ganem



Nas últimas duas semanas, dois eventos marcaram o mercado musical baiano. Primeiro o "Sauípe Fest", evento que aconteceu em Costa do Sauipe, feito por um pool de produtoras do Axé que trouxe, entre outros, o Chiclete com Banana e o cantor Tomate como atrações. E o outro, o "Todo Mundo Vai", que aconteceu no Wet’n Wild e trouxe como atrações, entre outros, a cantora Ivete Sangalo.

Falando desta forma, faria uma coluna dizendo que nada de mais aconteceu nestes dois eventos, a não ser, óbvio, a presença de duas das maiores estrelas do axé na atualidade. Mas, e sempre tem o “mas”, várias observações puderam ser feitas nas duas festas que estive presente. Observações inclusive que o mercado vem falando em longas e altas vozes há muito tempo, e finalmente, ao que parece, as produtoras de eventos do axé se tocaram que é: a elitização do ritmo axé no mercado musical baiano.

Somente para entendimento e lembrança, o nosso mercado musical se expandiu e invadiu o Brasil através do axé. Naquele tempo, como já disse outras vezes, o povo conseguia se ver nos artistas do axé, o movimento conseguia arrastar grandes multidões aos seus shows, e a música que se fazia, e invadia o país, era a música do axé que tocava nos guetos. Só que isso começou a mudar no começo dos anos 90, quando o axé começou a fazer música para turista comprar abadá, e abriu espaço para outros ritmos como o pagode e o reggae, o que também já comentei aqui.

O que não previam as produtoras era que essa abertura dada a outros ritmos seria, por assim dizer, o martírio de uma era que, acostumada a viver sozinha no reinado da folia, teve que, da noite para o dia, se acostumar a dividir os holofotes. E agora, ao que percebi, finalmente começaram a tentar recuperar o terreno perdido apostando novamente no popular. Como? Simples: a fórmula um tanto usada pelas produtoras de pagode em juntar ritmos diferentes em um só show, ao que parece começou a ser usada pelo povo do axé, o que já não era sem tempo.

Pois bem, amigo, o pagode se fez presente nos dois eventos do axé. No Sauípe Fest, a 'madeira de lei" deitou e rolou ao som de Léo Santana e seu Parangolé, e no Todo Mundo Vai, Ivetinha resolveu convidar mais duas atrações além do Psi para a festa: Leva Nóiz e Raghatoni também foram e fizeram bonito no terreno do axé.
 
A única coisa que o axé, enquanto ritmo, ainda não fez é dar espaço para a renovação poder entrar no mercado. Passos isolados e de forma tímida para um mercado cheio de atitude são muito pouco para a grandiosidade desse estilo de música. Ademais alguns desses passos isolados, já podem começar a ser referência para um futuro não muito distante. Bandas como 5%, Filhos de Jorge e Oito7Nove4 já começam aos poucos a dar a nova cara do axé, pra daqui a alguns anos.
 
Que bom que as “cabeças pensantes” tenham enxergado que quem comanda e dita o que é sucesso é o povo, como bem já dizia meu amigo Manolo Pousada. E é ele (o povo) que diz o que fica ou não no mercado. Bom ainda que essas mesmas “cabeças”, mesmo as que são sócias dos grandes artistas do ritmo, comecem a perceber que a renovação é o caminho natural para um negócio que depende do novo, da novidade. É importante perceber que por detrás de uma manifestação de um pai como Bell Marques (cantor da banda Chiclete com Banana) em relação ao seus filhos que cantam na banda Oito7Nove4, exista a visão do empresário, que enxerga o momento e a lacuna de se lançar novos aspirantes ao sucesso.
 
Lógico que não adianta ser um pai famoso, conhecido, com uma carreira solidificada se a aposta não corresponder as expectativas. Mas isso aí já é um outro detalhe, que sinceramente não está em voga. Que bom seria que outras apostas mais viessem e pudessem nos mostrar que existe um novo caminho, e que naturalmente o seguiremos, dando continuidade ao axé como ritmo maior da música baiana. Afinal, com o passar dos anos, temos mostrado que, diferentemente da torcida dos entusiastas do caos, os nossos ritmos são e serão eternos.

Salve a Bahia!
Luis Ganem
luisganem@bahianoticias.com.br // twitter:@luis_ganem