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Coluna

GOSTO NÃO SE DISCUTE, SE RESPEITA

 

 

 

Há pelo menos duas semanas a coluna “Sabe o que eu acho?”, que é a parte de opiniões do site Bahia Notícias, vem recebendo manifestações um pouco acaloradas sobre a decadência das letras atuais das músicas que estão sendo executadas nas rádios, interpretadas pelos nossos artistas.

 
Comentários demonstrando uma irritação e um desgosto crescente com os rumos que vem tomando as letras das musicas não são coisas tão novas assim. O que tem tornado este fato um novo é que uma coisa que era isolada, com uma ou outra manifestação pública, tem se tornado, na sua proporção, uma pequena mas já uníssona revolução popular pela qualidade poética das nossas letras musicais.

 
Comentários quase que sempre assinados com nomes falsos a fim de se preservar, mas com opiniões que merecem, sim, uma atenção, trazem manifestações que, na minha opinião, deveriam começar a preocupar quem faz, quem canta e quem vende este mercado.

 
Opiniões como a do nosso internauta Luciano Braga, que não sei se é o nome verdadeiro ou falso, mas que de forma sensata diz que: “Sou compositor e já não quero mais fazer músicas com a levada da Bahia, pois me recuso a ter que falar bobagens, baixarias ou outras coisas apelativas. Se eu tivesse a carreira consolidada da Daniela ou da Ivete, eu jamais subiria ao palco com "Foge Mulher Maravilha", "Vou te Comer," "Bota a b... no pau", "chupeta na boca e na b...". Acabou a beleza da música baiana!”, no que vem seguido de outros comentários dando apoio e dizendo que: “essa fase passa, como tudo na vida passa” fazem com que certas reflexões tenham que ser feitas.

 
Como, por exemplo, se foi por imediatismo ou pelo lucro fácil, ou ainda por desleixo mesmo, que se deixou de notar detalhes que o povo em geral começou a perceber. Ou então hipnotizados pela onda da modernidade que tem no consumo fácil e rápido um dos seus pilares, que toda uma classe foi induzida a achar, mesmo não vendo com bons olhos, que esse tipo de letra era normal.

 
E se engana muito quem acha que a maior parte das criticas são direcionadas para a comunidade da quebradeira (Pagode). De forma distinta e clara, os dois principais ritmos da musica baiana na atualidade, Axé e Pagode, começaram a ser bombardeados pela opinião publica de forma imparcial.

 
Olha, na minha época, por incrível que pareça, músicas que hoje são conotadas como clássicos do axé eram recebidas com certa desaprovação pelos mais antigos. Artistas da moda de então, como Luiz Caldas, Sarajane ou bandas como Laranja Mecânica, Ademar e banda Furta-Cor, eram vistos como extravagantes por terem em seus repertórios algumas musicas com letras consideradas chulas e de mau gosto como o refrão de “Fricote” ( Luiz Caldas), que dizia:  “pega ela aí, pega ela aí/ pra que?/ pra passar batom/ de que cor?/ de cor azul/ na boca e na porta do céu”, seguida de uma dança, para a época, sensual e explícita demais.

 
Estou dando este exemplo para mostrar que, de tempos em tempos, o moderno vai se tornar velho, antiquado e infantil perante ao novo e atual. Olha, não aceito condenações antecipadas. Entender que uma música é boa ou ruim pela letra que ela possui é não querer ver de forma periférica o moderno independente da própria opinião. Acredito que toda obra tenha seu fundo de sensibilidade, mesmo as que possam ser consideradas em principio de mau gosto. Ademais, a tecnologia nos deu um presente maravilhoso que sempre poderemos usar quando não gostarmos de algo: a tecla desligar.

 
É importante que se crie um fórum de discussões sobre os caminhos que a música baiana está tomando ultimamente. Afinal, esse mercado que segue torto por linhas certas leva não somente o nome da Bahia, mas sim, queiram os críticos ou não, sua cultura para os quatro cantos.

 
E no mais, desde que o mundo é mundo quem gosta de azul pode não gostar do amarelo, sacou?

 

 

Luis Ganem

 

 

Luisganem@bahianoticias.com.br / twitter @luis_ganem

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