Em meio a 'rixa' e boato, baianos buscam profissionalização no fisiculturismo
Por Leandro Aragão
O Campeonato Brasileiro de Fisiculturismo e Fitness 2018 acontece neste final de semana na cidade de Ribeirão Preto, em São Paulo. A novidade desta 49ª edição é que a Confederação Brasileira de Musculação, Fisiculturismo e Fitness (CBMFF – IFBB Brasil) vai distribuir "Pro Card" para os atletas campeões Overall da cada categoria. Isto é, o campeão geral entre todos os vencedores das divisões de peso ou altura da categoria, além de levar o troféu para casa, ganhará também a profissionalização no esporte. O prêmio a mais deixou os atletas mais empolgados com a disputa, como diz a fisiculturista Saryta Pinheiro (relembre aqui a história dela), de Salvador, que vai disputar nas categorias Bodyfitness Sênior e Bodyfitness Master.
"Todos vieram nessa intenção de ganhar o Overall para ganhar o Pro Card. Das outras vezes ganhava o Overall, mas não ganhava o Pro Card", declarou, em entrevista ao Bahia Notícias, a empresária baiana que foi vice-campeã no Brasileiro do ano passado.

Saryta Pinheiro | Foto: Arquivo Pessoal
A atleta Luana Pastor, natural de Conceição do Coité, também foi para Ribeirão Preto de olho na profissionalização no fisiculturismo. "É o sonho de qualquer atleta amador, se tornar um profissional e poder ser reconhecido e valorizado. O atleta acaba sendo mais reconhecido pelas empresas. Tendo esse reconhecimento, vem os patrocinadores... E assim consequentemente! Eu recebi muito apoio da Secretaria de Esportes da minha cidade e da Prefeitura, junto com meus amigos e patrões também. E ainda fiz algumas ações para levantar dinheiro para competir no Estadual e Brasileiro. Eu tenho sorte de ter pessoas na minha cidade e amigos que me apoiam bastante", disse a professora de dança, cabeleireira e estudante de Educação Física.
Aos 33 anos, Luana foi campeã Baiana deste ano na categoria Fitness Coreográfico, a mesma que disputará em Ribeirão Preto. Este será o primeiro Brasileiro de sua carreira, que começou em 2016. "Nervosismo bem em alta. Tensão pura! Na pesagem eu estava sentindo frio e suando. Por aí você já tira", confessou.

Luana Pastor | Foto: Arquivo Pessoal
Também estreante no Brasileiro, o policial militar Adelino Medrado, mais conhecido como Del, é outro que vê a profissionalização com bons olhos. Nascido em Catu e morador de Santo Antônio de Jesus, ele citou outros benefícios do Pro Card. "Também participa de campeonatos em países que só pode competir quem tem o Pro Card. Daí vem mais seriedade, disciplina e profissionalismo, coisas que os patrocinadores também procuram", pontou.
CONCORRÊNCIA
Essa iniciativa da CBMFF-IFBB Brasil de distribuir o Pro Card acontece pouco depois do rompimento com a NPC, maior organização do bodybuilding amador nos Estados Unidos e afiliada à IFBB Pro League americana. A organização promove alguns dos grandes eventos do mundo do fisiculturismo como o Mr. Olympia em Las Vegas, o Arnold Classic Estados Unidos e a versão brasileira, além do Musclecontest.
"Elas tiveram um problema de relações e decidiram se separar desde outubro do ano passado", disse a ex-presidente da IFBB-BA, Bruna Miyagui, que agora é uma das promotoras da IFBB Pro League americana.
Bruna comandou a IFBB-BA por aproximadamente três anos, começando em 2014. No entanto, ela disse que entregou o cargo após se sentir pressionada a abrir mão do Pro Card IFBB Pro League. "Para eu continuar no cargo de presidente da IFBB me foi imposto que eu abrisse mão do meu Pro Card, que eu conquistei por anos de trabalho. Eu não aceitei e entreguei", contou.
No entanto, apesar de ter sido um rompimento, a mudança com a chegada da NPC ao Brasil foi vista como algo saudável, já que passa a ter uma concorrência maior para conquistar os atletas. Com isso a qualidade dos eventos realizados tende a aumentar.
"A concorrência faz com que cada Liga se esforce para fazer o melhor cada dia mais e quem ganha são os atletas. Vemos o crescimento da modalidade com mais eventos, mais possíveis empresas patrocinadoras e visibilidade. Até agora, o resultado tem sido apenas benefícios aos atletas. Além de estar à frente disso, também sou atleta e consigo enxergar essas mudanças", disse Bruna Miyagui.
A atual presidente da IFBB-BA, Marília Sassi, tem uma visão parecida em relação à concorrência. Ela foi eleita por votação realizada após a saída de Miyagui do cargo máximo da entidade, e assumiu a cadeira em fevereiro deste ano. "Vamos trabalhar duro para que o esporte cresça ainda mais. Vamos perder atletas, mas esse é o preço da concorrência e acho muito válido", declarou. "A NPC no Brasil será apenas uma promotora de eventos, eles não são ligados a nada. Não é Federação e não terá nenhum reconhecimento", ponderou.
Os atletas também apostam que essa mudança no cenário do fisiculturismo no Brasil será benéfica, como avalia Saryta Pinheiro. "A mudança não interfere no foco. A diferença é que como a NPC chegou agora no Brasil muitos atletas que não tiveram uma boa colocação na IFBB mudam para ela, o que para mim acho um erro, pois se na IFBB não estava tendo bons resultados é porque precisa melhorar. Eu prefiro ganhar passando pelas melhores atletas para ir ajustando meu físico com as que são referência. Essa busca pelo Pro Card é meio complicada, porque o físico muda, tem que aumentar volume, a concorrência é enorme e o custo é altíssimo. Desde meu primeiro campeonato eu tive que ir ajustando meu físico com o que é exigido", explicou. "Mas não atrapalha em nada. É uma concorrência saudável onde quem ganha somos nós. Isso obriga os responsáveis pelas competições a realizarem eventos cada vez melhores", completou.
A principal mudança é que os atletas terão mais liberdade para escolher as competições que irão disputar. "Cada um escolhe o que acha melhor. Não vou dizer que uma federação é melhor que a outra, já que tomaram rumos diferentes. Cabe ao atleta escolher qual ele acha melhor e seguir sua carreira da melhor maneira possível", afirmou Del Medrado.

Del Medrado | Foto: Arquivo Pessoal
Já Luana Pastor espera que os dois lados chegem a um consenso. "Creio que em um futuro próximo isso possa se resolver", disse. Porém, ela acredita que o atleta não deve se prender à questão das federações e sim na sua preparação para a próxima competição. "Acho que independente de federações, o atleta ele tem que focar no campeonato, na sua preparação. Uma coisa de cada vez... Se você está se preparando para o Brasileiro, então você tem que focar nele", completou.
BOATOS
No meio do fisiculturismo baiano corre a informação de que a participação de um atleta num evento promovido pela NPC implica numa suspensão de dois anos dos campeonatos promovidos pela IFBB brasileira. Marília Sassi desmentiu essa punição. Segundo ela, o artigo 19.7 da constituição da IFBB internacional diz que "Qualquer atleta que concorre ou participa como convidado em Eventos não aprovados e / ou sancionados pela IFBB estarão sujeitos a: (a) apresentar teste antidoping negativo a ser realizado de acordo com o Regulamento Anti-Doping da IFBB".
"O atleta que competir em evento não autorizado pela IFBB deve apenas apresentar exame antidoping e voltar a competir conosco", rebateu.
