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Notícia

Da rifa ao sucesso: conheça a evolução do time de futebol para cegos na Bahia

Por Ricardo Alves

Jefinho, craque do ICB/BA e da seleção. Foto: Silas Batista/ GloboEsporte.com
Menos badalado do que o futebol convencional, o futebol de 5 para cegos, tem o time da Bahia e a seleção brasileira como destaques na modalidade. A última derrota brasileira foi em 2006 para a Argentina, na Copa do Mundo, desde então foram conquistadas as três Paralimpíadas (Olimpíada para deficientes) e o mundial de 2010, o último até o momento. Não se sabe ao certo quando o esporte chegou ao País, de acordo informações do site da Confederação Brasileira de Desportos Deficientes Visuais (CBDDV), a modalidade teria chegado na década de 50, praticado com latas ou garrafas. O primeiro torneio com futebol para deficientes visuais aconteceu em 1978, em Natal, o primeiro mundial foi realizado em 1998 com vitória brasileira e, em 2004, passou a ser esporte Paralímpico também com vitória verde e amarela. Um dos responsáveis pelo sucesso da seleção brasileira é o estado baiano, cujo time do Instituto de Cegos da Bahia é hexacampeão brasileiro, tem três dos dez jogadores convocados para disputar o mundial no mês de novembro, sendo um deles o melhor atleta do mundo, Jefferson Gonçalves, mais conhecido como Jefinho. Boa parte do sucesso do time baiano e a revelação de Jeffinho se deve ao técnico do ICB, Gerson Coutinho, 59, que conta como tudo começou. “Estou no instituto desde 1984, mas, em 2003, depois de muita gente querendo jogar bola formamos o time. Começamos na cara e na coragem, não tínhamos nenhum apoio, tanto que vendíamos rifa para conseguir dinheiro para participar das competições. Em 2004 até ficamos de fora do torneio porque não tínhamos patrocínio”, diz Gerson. A dificuldade era tamanha que não havia nem bola para a prática do futebol de 5, os baianos praticavam com um frasco cheio de pedrinhas.
 

Foto: Thiago Pereira/ Gerson Coutinho, técnico do Instituto de Cegos da Bahia (ICB/BA)
 
Porém, a partir de 2006 houve uma mudança da água para o vinho. “Mesmo ainda sem apoio nós conseguimos conquistar o título da série B brasileira, com isso, garantimos vaga para a elite do futebol brasileiro, de onde não saímos mais e somos hexacampeões. Para se ter ideia, naquele ano nem time completo nós tínhamos, eram apenas sete jogadores”, conta o treinador do ICB. À medida que o time baiano foi conquistando títulos, as dificuldades foram diminuindo. Por exemplo, após o título de 2007, segundo Gerson, a Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), do Governo do Estado da Bahia, passou a bancar as passagens da equipe. Além disso, os atletas que conquistam títulos nacionais recebem ajuda financeira da Sudesb através do Programa Bolsa Esporte, de no máximo R$800, dependendo da categoria. Também existe através do Programa Bolsa-Atleta, do Ministério do Esporte, no valor máximo de R$2.000, que beneficia jogadores que representem a seleção brasileira. O Bolsa Esporte é válido para atletas e paratletas que apresentem plano anual de participação em competições, treinamento e não tenham sofrido penalidade nos últimos dois anos. Ambos os valores são pagos mensalmente no período de um ano, que pode ser renovado por igual período. Do dia 16 a 24 de novembro acontece a competição mais importante da categoria, o mundial, que será disputado no Japão. Dos dez jogadores convocados, três fazem parte do ICB/BA, são eles: o defensor Cássio Lopes, o ala Gledson Barros e pivô e atual melhor do mundo, Jefferson Gonçalves, conhecido como Jeffinho. O craque brasileiro, de 25 anos, que mora em Candeias contou um pouco de sua história. “Nasci com glaucoma (problema nos olhos em que é quase impossível evitar a perda da visão) e perdi a visão quando tinha sete anos. Foi um baque para mim, mas fui preparado pela minha família, mesmo assim a gente sente muito. Apesar de ter tido pouca visão, pelo menos antes eu podia sair sozinho de casa, brincar com meus amigos e depois senti muita falta disso”, relata Jeffinho. 
 
Foto: Thiago Pereira/ Jeffinho, atual melhor jogador de mundo no futebol para cegos
 
Como maneira de se readaptar, o atual melhor jogador do mundo quando tinha nove anos foi levado para o Instituto de Cegos da Bahia e foi a partir daí que a vida de Jeffinho começou a se transformar. “Fui muito bem recebido no ICB, foi lá onde fui alfabetizado, onde pratiquei vários esportes, dentre eles o futebol, que acabei me apaixonando. Passei a ser muito elogiado e, quando vi que tinha potencial para virar jogador me empenhei mais”, conta o atleta. Tanto empenho deu resultado, são seis títulos Brasileiros, três Paralimpíadas e um Mundial, de quebra, sendo eleito o melhor jogador do mundo (que aconteceu em 2010, mas prevalece até o momento, pois a definição acontece a cada quatro anos, após o Mundial). Além do sucesso na carreira, Jeffinho revela de qual maneira o futebol de 5 também o deixa contente. “Algumas pessoas passam por mim e falam que ingressaram no esporte por minha causa, isso é muito gratificante. Me sinto muito abençoado. O esporte tem me proporcionado coisas muito boas, como conhecer vários lugares por causa das viagens e fazer boas amizades”, diz o pivô da seleção brasileira. O atleta viaja às terças, quintas e sábados para Salvador para treinar com os companheiros de equipe do ICB na União Metropolitana de Educação e Cultura (Unime) de Lauro de Freitas. Na sexta-feira (10), Jeffinho viajou para o Rio de Janeiro para se juntar à delegação da seleção brasileira antes da viagem para o Japão para a disputa do mundial. O futebol de 5 é exclusivamente para cegos, com partidas geralmente disputadas em uma quadra de futsal adaptada com uma barreira nas laterais e na linha de fundo para a bola não sair. A prática do esporte pode ser também em campos com grama sintética. Cada time é formado com cinco jogadores, sendo que os goleiros enxergam, mas os atletas de linha são deficientes visuais (os que não são totalmente cegos utilizam uma venda nos olhos). Como os atletas de linha não enxergam a bola, existe o “chamador”, que fica atrás do gol orientando o ataque do seu time (quando houver um jogador no terço de ataque, que é determinado por uma fita). A bola possui guizos (objeto de metal) para orientar os jogadores dentro de quadra e, se um atleta for marcar o outro tem que avisar para não haver choque entre eles. Caso isso não aconteça, é marcada falta para o adversário. O jogo é dividido em dois tempos de 25 minutos, sendo que os dois últimos minutos de cada tempo o tempo é paralisado se houver alguma falta ou a bola sair de quadra e o intervalo é de dez minutos. A modalidade deve ser praticada com o ambiente em silêncio, desta maneira, a torcida só pode se manifestar a bola não estiver em jogo, por exemplo, na hora do gol ou em faltas.

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