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Entrevistas

Entrevista

Jayme Brandão

 

BN - Quando e como você  entrou no Bahia?

Jayme Brandão -
Entrei no Bahia de uma forma pouco comum para o cargo de assessor de imprensa, que na maioria dos clubes é ocupado por alguém com origem da própria imprensa. Acessei o site do clube e vi uma nota sobre uma seleção para o cargo. Mandei meu currículo sem muita esperança de ser chamado, já que minha experiência na área de jornalismo esportivo resumia-se em escrever para sites e para jornais de pequena circulação. Quem coordenou a seleção foi o então Diretor e Marketing Marco Costa, que fez a primeira entrevista. Fui avançando pelas etapas e a última, foi uma conversa com o ex-assessor Darino Sena, que já estava trabalhando na Rede Bahia. Felizmente, fui aprovado e comecei a trabalhar no dia 17 de julho de 2006. Fiquei muito contente, pois soube que conquistei a vaga, que foi disputada por mais de 100 candidatos.

 

BN - Quais as condições de trabalho você encontrou quando entrou?

Jayme Brandão -
O Bahia estava na Série C, com dificuldades financeiras graves e tentando se adaptar a uma nova realidade, já que era a primeira vez que o clube iria disputar a terceira divisão do futebol brasileiro. Isso significa que havia um descrédito por parte da torcida e imprensa. O cargo de assessor estava vago desde maio daquele ano. Dois meses parece pouco tempo, mas foi o suficiente para a imprensa se "espalhar" neste período. Nos treinamentos diários, os profissionais de imprensa entrevistavam quais e quantos jogadores quisessem, o técnico Mauro Fernandes falava todos os dias, antes e depois dos treinos, repórteres tinham acesso a todas as dependências da concentração profissional, inclusive DM, fisioterapia. Enfim, tinha muito trabalho a fazer. Assumi a assessoria sozinho e tinha algumas limitações de infra-estrutura, que foram sendo resolvidas aos poucos. 

 

BN - Qual o sentimento de trabalhar no clube do coração. A pressão aumenta? Existe uma proteção maior por isso?

Jayme Brandão -
Não digo que a pressão aumenta. Acho que o envolvimento emocional. As vitórias são mais comemoradas, as derrotas são mais sentidas e o empenho é maior, sem dúvida.

 

BN - Qual o melhor treinador com quem você trabalhou?

Jayme Brandão -
Essa é  difícil. Com estes quatro anos de convívio com treinadores aprendi que não existe aquele "perfeito". São muitas as virtudes que formam um bom técnico. Trabalho em campo, visão de jogo, organização, disciplina, relacionamento com atletas, imprensa e diretoria, carisma e até mesmo sorte. Todos os treinadores com quem trabalhei tiveram qualidades e defeitos, mas analisando todas estas características inerentes a eles, acho que o mais completo foi Alexandre Gallo. Tenho que fazer também uma menção honrosa para outros dois: Charles Fabian e Sérgio Guedes.

 

BN - E o pior?

Jayme Brandão -
Essa eu não vou responder, por uma questão de ética, mas garanto que tenho esse nome na minha cabeça.

 

BN - Qual jogador deu mais trabalho?

Jayme Brandão -
Meu relacionamento com os jogadores sempre foi muito bom. Os considerados "bad boys" sempre são mais trabalhosos. Nonato era muito autêntico e de personalidade forte.  As vezes isso atrapalhava um pouco, mas dentro de campo ele resolvia. Prefiro mil vezes um jogador polêmico, que dá trabalho para assessoria, mas que resolve em campo do que um "certinho" que não faz nada no jogo. 

 

 

 

BN - Se espelha no trabalho de algum assessor?

Jayme Brandão -
Mantenho uma relação de contatos com alguns assessores do Brasil. Sem citar nomes, gosto muito do trabalho desenvolvido no São Paulo, Atlético-PR e Santos.

 

BN - Quais as maiores dificuldades que você encontra com os reporteres baianos?

Jayme Brandão -
Ao contrário do que acontece em muitos estados, a rádio tem muita influência na formação de opinião dos torcedores na Bahia. Sem sombra de dúvidas, é o veiculo de comunicação mais poderoso do estado e o clube tem que saber se defender e conviver com todo tipo de linha de critica das equipes. Não gosto do estilo "vou dar pau para ser respeitado". O clube tem que ter a maturidade de saber que o espetáculo do futebol só acontece porque a  agremiação existe. Acho que às vezes, os papeis se invertem, mas isso está mudando tanto no Bahia, quanto no Vitória. 

 

BN - Qual o setorista mais mala?

Jayme Brandão -
Todos têm o seu dia de "mala", até você. Eu também tenho os meus, mas o importante é ter paciência e respeito para que a convivência seja a melhor possível. Tenho minhas discussões, posso ficar chateado na hora, mas no outro dia já está tudo resolvido e a relação profissional só não continuará boa, se o repórter não quiser, pois não guardo rancor de ninguém. Qualquer queixa ou critica que tenho a fazer, eu a faço na hora, olhando no olho da pessoa. Acho que todos já perceberam que sou assim.

 

BN - Tudo no Bahia é  superdimencionado. O que você faz para tentar acalmar as crises na imprensa?

Jayme Brandão -
Você tocou em um ponto importante. A grande diferença de trabalhar em um clube de massa é essa. Tudo no Bahia é supervalorizado porque o Bahia vende jornal, dá audiência. E é aí que está o pulo do gato. O clube tem que blindar suas informações para não facilitar o trabalho do tipo de imprensa que quer explorar qualquer deslize ou problema interno. O Bahia já sofreu muito com isso, hoje sofre menos, mas ainda acontece. Estamos em  evolução neste aspecto.

 

BN - Como foi trabalhar com Paulo Carneiro?

Jayme Brandão -
Foi uma experiência interessante. Paulo Carneiro é dinâmico e sua energia contagia quem está ao seu redor. Ele cobra de todos os setores e isso faz com que o clube se modifique mais rapidamente. Ele deixou ensinamentos importantes no clube e foi atropelado pela lei da sobrevivência no futebol: O resultado. Ele apostou alto em seu primeiro ano de trabalho, a bola não entrou e ele teve que sair. Gostei de trabalhar com Paulo.

 

BN -  É verdade que você chegou a ficar 6 meses sem receber salário?

Jayme Brandão -
Não fiquei tanto tempo assim, mesmo porque não posso me dar a esse luxo, mas já tive alguns meses sim.

 

BN - É verdade que na época de Petronio, o Bahia era dividido entre a turma de Maracajá  e a turma de Marcelo Guimarães?

Jayme Brandão -
Estes dois grupos sempre tiveram força política dentro do clube e os dois tentavam dar suas contribuições para o sucesso do Bahia.

 

 

BN - Você ficava em qual turma?

Jayme Brandão -
Eu ficava e fico na turma do Bahia. Buscava ajudar o clube, independente da origem, do cargo ou a quem a pessoa era ligada. Sempre tive bom relacionamento com todos e aprendi muito com Petrônio Barradas, Ruy Accioly, Paulo Maracajá, Marcelo Guimarães(pai) e agora com Marcelo Guimarães Filho.

 

BN - Pensa em um dia ser presidente do Bahia?

Jayme Brandão -
Não tenho essa intenção.

 

BN - Qual a maior dificuldade de trabalhar no Bahia?

Jayme Brandão -
A eminência dos resultados, que causa ansiedade na torcida e descrença quando ele não vem. É perfeitamente compreensível a angustia do torcedor. O Bahia não pode ficar dez anos sem conquistar um título. Mas isso causa um efeito curioso, que atrapalha o time em campo. Podemos perceber isso facilmente. Vamos tomar o exemplo da Série B deste ano. O Bahia começou o campeonato muito bem, o torcedor se empolgou, mas vieram dois revés( Icasa e Duque de Caxias). Em uma semana todo o otimismo e elogios se transformaram em desconfiança e criticas ao trabalho que vem sendo feito. Futebol é assim mesmo e já estou acostumado. Outra situação desagradável é o vazamento de noticias. Isso prejudica demais o clube. Existem muitas formas de se divulgar uma noticia e eu que sou da área de comunicação, que estudei pra isso, fico chateado quando as notícias saem de qualquer forma, mas isso também tem melhorado. 

 

BN - Quais os maiores problemas de ser assessor?

Jayme Brandão -
Acho que é  o eterno convívio com a crise e a boa fase. Quando o time está  vencendo, tudo fica mais fácil, as ações de MKT são bem vindas, os patrocinadores aparecem, bons jogadores querem vir para o Bahia, mas quando perde, tenho que administrar crises, a imprensa quer encontrar um culpado e muitas vezes acaba cometendo injustiças, mas isso faz parte do jogo.

 

BN -  É verdade que você nunca teve férias?

Jayme Brandão -
O futebol não funciona muito como as outras áreas de trabalho. No fim do ano, quando se encerram os campeonatos, é quando começam as contratações e essa divulgação é muito importante, aí você vai emendando, começa outro campeonato, quando você vê, já era. Mas acho que desse ano não passa, mesmo porque já conto com uma pessoa trabalhando comigo, que pode me dar um suporte nesse curto período de férias.

 

BN - Você trabalharia no Vitória? Já recebeu proposta para sair do Bahia?

Jayme Brandão -
Não posso dizer que isso é impossível, pois não sei o dia de amanhã, mas tenho certeza que o Vitória tem bons nomes para assumir a assessoria do clube, caso eles pensem em substituir Roque Mendes e Pedro, que fazem um bom trabalho. Caso receba uma proposta do Vitória, ela tem que ser mais vantajosa financeiramente, mas espero que o Bahia a cubra, pois minhas raizes estão aqui. Recebi algumas propostas, mas preferi ficar no Bahia pois quero fazer parte desta reestruturação do clube. Quando chegar a um nível  de serviço que almejo, posso sair e dar oportunidade a outro profissional, mas isso é claro que depende do desejo da diretoria.

 

BN - Como é o seu relacionamento com Marcelo Guimarães Filho e o que acha do desempenho dele como presidente? E qual a diferença para Petrônio Barradas?

Jayme Brandão - O Presidente é jovem, temos idades muito próximas, o que facilita o diálogo. Acho que ele é muito bem intencionado e tem tudo para entrar para a história do clube. Na parte estrutural do Fazendão, ele vem dando condições de trabalho e segue investindo. Agora mesmo, vamos reformar a sala de imprensa e deixá-la com excelente nível. Fora de campo, ele vem conduzindo bem a reestruturação do Bahia, mas os resultados precisam vir. Esse ano vamos brigar para subir, com certeza e existem projetos importantes em curso, que em breve, serão divulgados. Petrônio Barradas foi o Presidente que me deu a oportunidade de surgir no mercado e lhe sou muito grato por isso, pois sei que apostar em um jovem desconhecido foi algo ousado. Ele assumiu o Bahia em um dos seus piores momentos da história, sem verba e dentro do possível vez um bom trabalho. Com ele, conquistamos o acesso à Serie B em 2007 e hoje podemos pensar em primeira divisão. Em 2008, no campeonato baiano, sem campo para jogar, não fomos campeões por um gol marcado. De quatro ba-vis, ganhamos três, mas o Vitória levantou a taça. Esse foi um dos campeonatos mais injustos que já vi.

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