Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Holofote
/
/
Entrevistas

Entrevista

Gustavo Borges

 
Por Lucas Esteves e Maurício Naiberg
 
Bahia Notícias – Você começou a carreira como esportista competindo em uma série de esportes mas, um dia, decidiu parar na natação e continuar apenas nela. O que aconteceu para que você não escolhesse outra coisa, como o vôlei, por exemplo?
 
Gustavo Borges – Eu acho que a gente acaba se desenvolvendo nas áreas em que tem um pouquinho mais de habilidade. Comigo, a natação acabou acontecendo de uma maneira natural, diferente do que foi no vôlei, e então foi se desenvolvendo de uma maneira mais fácil pra mim. Eu fui tento resultados, tendo uma seqüência forte. E é lógico, quando você se dá bem em uma atividade, continua fazendo aquilo.
 
Bahia Notícias – Então foi uma questão de se sentir bem vencendo? O próprio César Cielo relatou em uma entrevista na semana passada que a vitória é um grande motivador da carreira dele.
 
GB – Não dessa maneira, porque quando eu comecei na natação, eu não ganhava tudo. Mas eu gostava. A primeira coisa é porque eu me sentia feliz com aquela atividade. Num segundo momento, as vitórias, as conquistas foram importantíssimas, mas não eram tudo.
 
Bahia Notícias – Nesse início, você rapidamente teve a iniciativa de se mudar para os Estados Unidos para ter a possibilidade de um nível de treinamento superior. Por que decidiu isso?
 
GB – Foi com 17 anos. Eu já estava buscando uma coisa no sentido de fazer um trabalho na educação, como escola, universidade, e depois fazer a parte esportiva em paralelo. Então ganhei uma bolsa de estudos em um primeiro momento e depois eu fiz isso. 
 
Bahia Notícias – E qual a diferença da estrutura que você encontrou nos Estados Unidos naquela época e a que tinha no Brasil?
 
GB – O estudo aliado com o esporte é uma diferença muito grande. Então quando você tem a oportunidade de fazer uma parte esportiva de alto nível e de educação também, isso beneficia em muito a sua vida. E a competição universitária acaba sendo uma coisa importante ali na conciliação das duas.
 
Bahia Notícias – Você acha que um nadador iniciante que seja muito talentoso seria capaz de competir em alto nível ou teria de fazer sacrifícios para também fazer uma viagem destas, como você e o próprio Cielo fizeram?
 
GB – O treinamento fora não necessariamente. Acho que quem tem a oportunidade de fazer um intercâmbio na Europa e nos Estados Unidos – muita gente da Europa vem fazer intercâmbio – é uma coisa interessante. Os americanos tem um pouco mais de estrutura e experiência nesse sentido. No caso de fazer a parte aqui no Brasil em alto nível, há clubes que podem te ajudar, como  o Pinheiros, que tem uma equipe multidisciplinar. Acho que dá pra fazer um bom treinamento aqui.
 
 
Bahia Notícias – na sua época havia uma situação de patrocínio de atletas e, atualmente, ela é um pouco diferente. Como você avalia a dificuldade de obter patrocínio hoje pra que havia 10, 15 anos atrás?
 
GB – De certa forma os clubes estão mais profissionais. Acho que os patrocínios dos clubes está mais profissional, mais generalizado. Continuar é muito difícil pra quem não consiga resultados. Às vezes você tem o talento mas não tem o apoio, no início, para bancar a parte financeira, mas as dificuldades continuam parecidas, apesar de que a evolução é notável no sentido de se conseguir resultados e relação com patrocínios.
 
Bahia Notícias – Você é o maior medalhista brasileiros tanto de Olimpíadas quanto de Pan-Americanos. Destas, quais foram as mais marcantes na sua opinião?
 
GB – Ah, o Pan-Americano de 1991, ouro nos 100 metros livres, foi uma competição marcante. A Prata de 1992 em Barcelona foi realmente um marco na minha carreira. E todas as medalhas e recordes alcançados foram muito significativos.
 
Bahia Notícias – E você se sente meio “fundador” do esporte no Brasil? Depois de você, surgiu uma grande geração de talentos.
 
GB – Não. Eu acho que nós tivemos grandes nomes ao longo do tempo. Grandes recordistas, grandes medalhistas olímpicos, e acho que eu faço parte da história. Então eu não sou o fundador, não. Teve gente antes que teve muitos resultados antes de mim.
 
Bahia Notícias – Você sempre foi bastante vencedor, cada vez mais, mas decidiu terminar a carreira quando ainda era um atleta muito competitivo, o que surpreendeu muita gente. Por que decidiu isso? Quais os motivos que te fizeram fechar este período da vida?
 
GB – Acho que você toma uma decisão baseado em alguns fatos. No meu caso, foi buscar um outro tipo de trabalho, encerrar um ciclo de natação de uma maneira importante pra mim. Eu já estava buscando outros caminhos profissionais e a transição na vida de um atleta é uma coisa muito difícil. E achei que o momento pós-olímpico foi melhor para mim naquele momento.
 
Bahia Notícias – Depois disso, você assumiu cargos e atividades administrativas. Você inclusive é consultor da Federação Internacional de Natação (FINA).
 
GB – Eu faço parte de um órgão consultivo. É muito mais idéias e participação de uma maneira global nos interesse dos atletas do que a parte administrativa em si. A administração eu exerço mais no dia-a-dia, nos negócios que eu coordeno. O órgão da Fina eu participo com o (Alexander) Popov e a gente tem ali uma série de grandes ex-atletas que podem dar uma contribuição legal pro órgão.
 
Bahia Notícias – Esse órgão foi consultado na decisão recente de se abolir os maiôs especiais nas grandes competições?
 
GB – Isso não passou pela gente, apenas algumas discussões após o caso ser analisado. Já estava meio avançado e, normalmente, o processo que isso faz é uma indicação das federações junto aos comitês técnicos e à FINA. Então as comissões das quais eu participo são consultivas, nós somos consultados e emitimos a nossa opinião. Então alguma coisa tinha de ser feita quanto aos maiôs, pra decidir, restringir e tudo o mais. Algumas opiniões divergentes em algum caso mas acho que a decisão, para este momento, foi a mais adequada.
 
Bahia Notícias – E a sua opinião, qual foi? O maiô tinha de ser abolido ou isso é um exagero?
 
GB – A minha opinião é de que eu gostaria de restringir um pouco na parte técnica do maiô e manter o visual dele que a gente já viu em 2008 que, tecnicamente, é mais adequado. Eu fui um pouco contra abolir o maiô mas também eu entendo a complexidade de uma decisão como essa. Não é tão simples quanto eu falo. 
 
Bahia Notícias – Inclusive também porque a evolução que ele trouxe ao esporte foi muito grande. Você acha, inclusive, que o maiô ajudou a banalizar a questão da quebra dos recordes?
 
GB – Não. O recorde vai ser quebrado sempre. Quando o pessoal raspou (os pelos do corpo) quebrou um monte de recorde quando (as roupas de natação) saíram do algodão pra lycra, também quebraram um monte de recordes. E agora acontece a mesma coisa. Eles foram feitos para ser quebrados.
 
Bahia Notícias – Atualmente, você percorre todo o Brasil fazendo palestras contratadas. Em que consiste a sua apresentação e pra que tipo de público você se apresenta?
 
GB – A palestra é motivacional. Ela conta a minha carreira, a cronologia dos fatos que aconteceram na minha carreira envolvendo a questão da disciplina, planejamento, competição, a busca do resultado de uma maneira mais geral. Existe também a Metodologia Gustavo Borges. Ele é um processo de ensino estruturado para academias, escolas e clubes que possuem piscinas. A gente trabalha como uma instituição de ensino onde a gente ensina as pessoas, capacita, e trabalha com uma sistematização estruturada nos processos aquáticos. Então ela acaba servindo para qualquer tipo de pessoa, a gente divide em níveis pedagógicos, avaliações, sendo dividido pelas unidades.
 
 
Bahia Notícias – O que também deve levar à realização do Troféu Gustavo Borges.
 
GB – Isso já é uma coisa diferente. O Troféu Gustavo Borges acontece em várias cidades brasileiras e a gente leva as pessoas para nadar uma competição que não é federada.
 
Bahia Notícias – E por meio tanto da Metodologia como do Troféu você já conseguiu formar algum atleta que tenha realmente talento para competir em alto nível?
 
GB – A gente tem uma equipe no Paraná onde somos a terceira equipe no estado hoje. Temos projetos federados e competição onde se pode revelar isso. Tem uma nadadora lá hoje que é recordista brasileira na categoria 13 anos nos 200m medley. Então nós temos uma pequena influência nesse processo. Acho que é uma possibilidade de talentos futuros para a natação brasileira até mesmo para a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro.
 
Bahia Notícias – na Bahia, há uma carência muito grande em relação a treinamento profissional, uma vez que são poucas piscinas no estado e a única de Salvador, por exemplo, que ficava na Fonte Nova, já está interditada porque o complexo será demolido para reconstrução. Você tem algum projeto específico para o estado entre os que estão engatilhados nas suas empresas?
 
GB – No momento, não. A metodologia até que sim. Temos algumas academias credenciadas em Salvador e também em outras cidades do Nordeste. O troféu, não. O projeto Metodologia pode ser usado em qualquer lugar. Se as escolas e academias da Bahia e de Salvador tiverem interesse, podem entrar em contato com a gente. Para isso, é só ligar para o telefone 11-5051-8009 ou pelo site www.metodologiagb.com.br e a gente pode dar todas as informações sobre isso.

Compartilhar