Emerson Ferretti
Foto: Tiago Melo/ Bahia Notícias

Por Lucas Esteves
Bahia Notícias – Você é gaúcho e veio de lá para jogar no futebol da Bahia. Por que resolveu aceitar uma proposta de tão longe para jogar futebol e não ficar em um time como o Grêmio, por exemplo?
Emerson Ferretti – Na verdade, eu era do Grêmio, fui criado no Grêmio, mas eu saí e joguei em alguns clubes. Flamengo, América-RN, São Paulo. E voltei para o Juventude. Então foi o último clube que eu joguei antes do Bahia. Muita gente acha até que eu sou cria do Juventude, mas eu sou do Grêmio. O que me fez vir para o Bahia foi porque eu tinha feito um ano muito bom no Juventude e, quando acabei o ano, estava com seis propostas de times bons, como Fluminense, Coritiba. O próprio Juventude ia disputar a Libertadores por causa da Copa do Brasil. O Bahia e o Vitória tinham me procurado e mais o Grêmio. Na verdade o Bahia não era a minha prioridade. Então foi indo, as outras propostas não foram fechando e no Juventude eu não queria ficar porque achei que em um ano eu já tinha feito o meu trabalho e queria sair.
BN – Mas mesmo conquistando a projeção da Libertadores?
EF – Mesmo assim. Eu abri mão. Foi mesmo por vontade, porque ficar em Caxias, sinceramente... Eu já comecei, de um bom tempo, para escolher onde jogar, dependendo das propostas, já pesava muitas coisas, não só o fator financeiro. Era a minha vontade de ir para tal time, para tal lugar, a estrutura do clube. E por isso que eu vim. Quando eu vim para o Bahia eu aliei tudo isso. Tinha uma proposta boa de trabalho com o lugar que eu já adorava. Então pra mim foi ótimo ter vindo para cá
BN – Então você já conhecia Salvador?
EF - Eu já conhecia Salvador de muito tempo, de vir jogar contra. Já tinha vindo duas vezes de férias e sempre fui fascinado pela Bahia. Então pra mim foi ótimo. E a empatia com a torcida do Bahia foi muito rápida. Então logo eu comecei a ter sucesso, um carinho, as pessoas gostavam de mim e pra mim ficou.
BN – E, naquela época, o Bahia era um time muito diferente do que é hoje.
EF – É verdade. Eu posso dizer que ainda conheci o Bahia vencedor, aquele que a torcida tem saudade. O último título do Bahia foi em 2001 (da Copa do Nordeste), eu era o capitão. Foi no Barradão e eu levantei o último troféu do Bahia. Os três primeiros anos meus no Bahia foram anos de sucesso tanto meu quanto do time, com boas campanhas. Então eu conheci a força da torcida, a magia da Fonte Nova. Então eu entendo bem o que está acontecendo com o Bahia hoje e o que ele foi, o que a torcida fala.

BN – E como foi esta experiência de jogar no Bahia? Qual foi o melhor e o pior momento de atuar pelo clube?
EF – O melhor momento foi em 2001, quando a gente foi 8º lugar no Brasileiro e a minha Bola de Prata neste campeonato, porque você ser o melhor goleiro do Campeonato Brasileiro competindo com todas as outras estrelas que tinha na época, como Dida, Rogério Ceni, Júlio César, Marcos, todos jogando aqui no Brasil e eu superei a todos. Então foi o melhor momento, junto com a campanha do time. Eu saí do Bahia em 2005 e o meu projeto era encerrar a carreira no Bahia. Mas pelas coisas que eu vi lá dentro do clube, a forma como é administrado, as pessoas que administravam e administram o clube. Isto tudo foi desestimulantes. Tanto é que o que está acontecendo com o Bahia hoje é que eles estão colhendo o que plantaram durante anos. E tudo isto foi me desestimulando e eu também senti que as pessoas que administravam o Bahia não me queriam mais. Eu era uma pessoa incômoda. Eu reivindicava as coisas pela melhoria, mesmo. Coisas de condições de trabalho, mas sempre de uma forma de diálogo, pacífica, eu não sou de briga. Mas, como eu falei mais cedo, eu já pesava muitas coisas. Eu recusei muita proposta para sair do Bahia, baixei o meu salário duas vezes. Porque eu me sentia muito bem aqui, tinha conquistado uma coisa que é muito difícil conquistar, que é o respeito e o carinho do torcedor, como eu tinha aqui no Bahia. Isto é muito difícil e eu não queria mudar para começar do zero em algum lugar. Então eu acho que eu abri tanta concessão lá dentro que a diretoria perdeu o respeito e disse “ah, o Emerson faz qualquer coisa, ele aceita”. Então quando eu comecei a perceber muitas coisas lá dentro acabei me desestimulando e vendo que era a sorte de sair mesmo.
BN – E nesta época você já estudava Administração, não é mesmo?
EF – na verdade, eu saí do Bahia em dezembro de 2005 e entrei na faculdade em agosto.
BN – O que se dizia naquela época era que a sua vontade era exatamente, depois que terminasse a carreira no Bahia, passar a integrar o time na forma de um “manager”, na parte mais administrativa. Ainda é um objetivo?
EF – tenho vontade, sim. Sempre tive vontade porque, dentro do futebol, o que me atrai depois da carreira de jogador é um cargo de direção, administrativo. Não técnico, como treinador ou treinador de goleiro. Então eu imaginava isso, mas enquanto tivesse essa política e essas pessoas que tem dentro do Bahia eu não faço nenhuma questão de entrar para ajudar.
BN – Quando você assinou com o Vitória teve medo que a torcida do Bahia te hostilizasse, te chamasse de traidor?
EF – É lógico, tive medo da reação do torcedor. Mas o que fez eu sair do Bahia foi justamente eu sentir que as pessoas lá dentro queriam que eu fosse embora, mas ninguém tinha coragem de dizer isso porque eu era ídolo. Mas eu senti que as pessoas queriam isso. O Vitória veio com uma proposta muito boa,me valorizando. Ele tinha acabado de cair pra Série C e queria que eu fosse um jogador-líder, pra resgatar. Então veio me valorizando, coisa que o Bahia já não fazia mais. Então foi por isso que eu optei em vir para o Vitória.
BN – E qual a maior diferença entre ter jogado no Bahia e no Vitória? Em termos de gestão, estrutura, torcida, ambiente?
EF – A maior diferença em relação a torcida é que a torcida do Vitória sempre me tratou bem. Durante toda a minha estada por lá e até hoje sempre me trata bem. É até bem difícil conseguir isso, o respeito das duas torcidas. A diferença grande é que a torcida do Vitória é bem mais exigente. Muito mais que a do Bahia. O clube muito mais estruturado. Está (estala os dedos) muito à frente do Bahia em estrutura, em organização. São as principais diferenças. Eu gostava do ambiente no Vitória, enquanto no Bahia ele já estava muito deteriorado nos últimos tempos que passei lá. E no Vitória era um bom ambiente. Mas essa da torcida exigente é importante. A torcida do Bahia gosta tanto do time que ganha de meio a zero de um time lá não sei daonde e o pessoal já fica (segura a camisa) “ah, o meu Bahia!”. É até bonito isso, a paixão do torcedor do Bahia. Mas a do Vitória, não, ela é mais racional. Às vezes, quando o Vitória ganha, sai de campo vaiado porque a torcida não gostou da atuação. A do Bahia, não. Ganhou, tá saindo festa, tá comemorando.

BN – Você é um ex-atleta que ainda está na idade em que muitos jogadores ainda usam para atuar normalmente, pois se aposentou até cedo demais. Por que decidiu seguir este caminho e não estender a sua carreira, uma vez que tantos goleiros fazem isso?
EF – Na verdade, não fui em quem decidiu, né? Eu tinha contrato com o Vitória até o final do ano de 2007 e eles rescindiram o meu contrato no meio do ano. Eu era titular do time, estava no meu melhor momento no cube e eles rescindiram contrato e a partir daí as cosias foram acontecendo. Algumas propostas aconteceram, mas eu também não procurei outros clubes. Esperei aparecer alguma coisa, mas as propostas que eu recebi não me agradaram porque eu já estava naquela fase de escolher. Se tivesse aparecido alguma cosia boa eu teria seguido jogando, mas não apareceu nada que fizesse a minha cabeça. Passou meses e eu não sentia falta do futebol. E isso foi o que pesou mais. Não sentia falta do dia-a-dia, até porque já estava fazendo faculdade, não fiquei parado em casa. Talvez, se tivesse ficado, sentiria mais, mas já estava estudando, com outros projetos, e aí acabei oficializando a minha parada. Eu parei com 35, hoje já estou com 38. Eu poderia estar jogando até agora, mas também o futebol é uma cosia que exige demais. Você acaba se dedicando muito. E hoje eu tenho uma liberdade de horário, de tudo, que o futebol não permite. Imagine que um jogador do Bahia hoje não pode sair de casa. É difícil você ir numa praia, qualquer lugar. E eu sempre fui muito cuidadoso com isso, sempre fui muito profissional. O time perdia e eu procurava não sair para não me expor. Tinha jogo e eu procurava me cuidar antes do jogo. Justamente para não dar margem a falatório e também me cuidar mesmo para estar bem. Estão isso exige demais, você passa a maior parte do tempo do clube. Então é uma liberdade que eu nunca tive na minha vida, porque eu jogo futebol desde os oito anos. Então passei por infantil, júnior, passei a minha adolescência e fase adulta toda jogando e jogando. Então ainda estou bem para curtir a vida um pouco que eu não curtir, porque eu jogava futebol e ele não permite. Mas eu continuo malhando para manter a forma, para não virar aquele ex-atleta enorme, que engorda. Só não tenho jogado. Tem dois anos e meio que parei e não jogo.
BN – Você passou a sua vida inteira no esporte e ele é muito presente na sua existência. E nesta época em que se dedicou mais à sua vida, aos estudos e à formação, você tentou juntar isto ao esporte de alguma maneira?
EF – Eu parei com 35 e já fazia faculdade, tanto é que este ano estou me formando. Logo em seguida, eu tive uma empresa de produção e assessoria e cheguei mesmo a fazer alguns eventos. Só que quando a gente entra em um ramo que não conhece direito é normal bater com a cabeça e eu vi que não era muito a minha praia e então eu fiz algumas coisas que tinha vontade mas não segui porque não é o que eu sei fazer. Aí surgiu o convite do Cartão Verde, da TVE, para ser comentarista. Então eu já tenho um ano e meio como comentarista de TV e um ano na Equipe Gol. Era uma cosia que eu não imaginava, mas eu estou gostando demais e pretendo me aprimorar na profissão, crescer, mas ao mesmo tempo estudando, quero me formar. Tem até um curso de gestão esportiva que eu quero fazer. Ainda pretendo participar da gestão de um clube.
BN – Muitas vezes, entre os profissionais de comunicação, acontece frequentemente de haver um mau tratamento às pessoas que entram para o meio mas não têm uma tradição ou formação na área. Isso te assustou quando você recebeu convite para ser comentarista de TV e rádio? Por que aceitou entrar neste meio em que ocorre este tipo de reação a quem vem de fora?
EF – Eu aceitei primeiro porque, sendo comentarista esportivo, eu estaria falando de uma coisa que fiz a vida toda. Eu vivenciei, joguei em time grande, time pequeno, estive em seleções brasileiras sub-20, infantil, viajei o mundo jogando. Então, pra mim, falar de futebol é fácil. Mesmo que a pessoa que é do ramo de jornalismo talvez não fale tão bem , porque não vivenciou. Então eu levo vantagem nisso. É lógico que o pessoal da rádio que está há mais tempo e é viciado, com as mesmas práticas, ficaram assustados porque era gente nova. Eu sempre fui considerado um jogador diferenciado pelo fato de saber falar, de ter estudado, porque a maioria não se preocupa com isso. Mas eu acredito que como é específico o trabalho de comentarista, eu não estou tirando o trabalho de ninguém que é formado, porque é uma cosia que eu fiz a vida toda e eu posso falar sobre isso e a gente também montou uma equipe nova, não tirou o lugar de ninguém. Havia um espaço vago e nós montamos uma equipe. É uma visão de cosias corriqueiras do futebol, uma visão de quem esteve lá dentro. Na nossa equipe, inclusive, é bom porque a gente tem Sinval (Vieira), que foi diretor, e é uma outra visão. Às vezes, a mesma situação eu posso dar um parecer como jogador que fui e ele como diretor que foi e a visão pode ser completamente diferente da mesma situação, mas essa de uma pessoa que nunca vivenciou aquilo ali. Acho que eu levo vantagem, além de ser o caso de ser uma renovação no rádio. Ainda me considero jovem e acho que deve haver uma renovação das pessoas. Então acho que por tudo isso está bem aceito o meu trabalho.

BN – Como é o seu cotidiano de comentarista, tanto nas resenhas quanto nos jogos?
EF – A gente tem na Equipe Gol uma escala que não é rígida porque eu e o Sinval temos outras tarefas. A gente conversa muito (para acertar os horários), mas geralmente, na resenha de segunda a sexta, eu vou na segunda e na sexta e Sinval faz terça, quarta e quinta. Mas isso acontece porque nos dias dele eu tenho aula. Mas é flexível. Se um dia ele não puder ir, eu vou. Durante os jogos, quando eu faço Bahia ele faz Vitória e logo depois troca para não ficar eu fazendo sempre o mesmo clube e ele também. Então temos três horas de programa, comentamos sempre os assuntos que aparecem. E, dentro disto, a gente está sempre ligado no que está acontecendo. Temos que assistir todos os jogos de Bahia e Vitória para comentar. Não chego a ir aos treinos, isto é mais o trabalho dos repórteres, que passam as informações.
BN – E como é a receptividade do público? São diferentes entre rádio e TV.
EF – São diferentes. E até pra mim é diferente fazer tanto um quanto o outro. Na TV é diferente do rádio, o formato do Cartão Verde é um pouco diferente. Mas eu estou gostando bastante, mas eu já peguei a manha, acredito que estou evoluindo e a receptividade tem sido muito boa pelas manifestações que eu recebo.
BN – O povo quer saber: e o Ypiranga? Vai mesmo aceitar a proposta e voltar a calçar as luvas pelo time na Segundona do baiano no ano que vem?
EF – Eu conheci o presidente do Ypiranga há uns dois meses e ele está, coitado, sozinho para cima e para baixo com um projeto para reerguer o Ypiranga. O objetivo é já jogar a Série B do ano que vem, que deve ser depois da Copa, então ele tem menos de um ano. Mas tem alguns problemas administrativos que precisam ser corrigidos, mas eu gostei muito do projeto, gostei muito dele, da forma como ele está fazendo as cosias e eu de cara me coloquei à disposição para ajudar. E estou ajudando, orientando ele em muitas cosias, porque ele não é do futebol. E a ideia e pegar o Ypiranga e reerguer o time. E neste processo, de alguma forma, eu vou estar lá junto, para reerguer. E como muitas coisas ele não tem a noção e eu tenho a vivência de futebol, vou estar apoiando esse projeto. E uma das cosias que eu sugeri a ele foi exatamente, no sentido de marketing para o projeto, para chamar a atenção da mídia e da torcida para o Ypiranga, seria eu jogar uma ou duas partidas na Segunda divisão ou algumas partidas preliminares, de repente, de Bahia ou Vitória. Isso chamaria a atenção dos torcedores para a causa do Ypiranga. Foi uma ideia minha. Não sei de onde partiu que eu voltaria a jogar profissionalmente. Não é isso. Se acontecer, vai ser por um ou dois jogos, dependendo da situação, de como eu me sentisse, de como as coisas fossem se desenrolando. Acho que o Ypiranga é um clube que precisa ser reerguido, uma causa simpática a todos os torcedores, independente de Bahia e Vitória. Acho que Salvador precisa ter de volta o Ypiranga. Então é também uma das coisas em que eu vou poder por em prática todo ensinamento que eu tive na faculdade. Vou colocar um pouco da minha experiência prática dentro do futebol. Então eu vou poder começar um trabalho do zero no Ypiranga, sem vícios de pessoas que estão lá. Então esta é uma ideia que me atrai muito. E aí mataria a saudade, também.
BN – Então Emerson Ferretti será o novo Chico Estrela? Jogador, técnico e dirigente ao mesmo tempo?
EF – (risos) Ah, eu não sei... Mas isto ainda está no campo das ideias. O presidente ainda está resolvendo algumas questões cruciais desse projeto, que tem tudo para dar certo. Então eu estou esperando que estas cosias se resolvam pra gente poder começar. E é isso, não estou voltando profissionalmente, seria apenas alguns jogos para eu ajudar o Ypiranga.
