Bruno Carioca
Texto e fotos: Éder Ferrari/ Bahia Notícias
Bahia Notícias – Normalmente um lutador de Mixed Martial Arts (MMA) começa em uma modalidade específica antes de sair para a mistura de artes marciais. Por onde você começou?
Bruno Carioca - Eu comecei no jiu-jítsu em 2004 aqui em Salvador, num condomínio. Tinha poucos atletas e eu competi poucas vezes. Participei de um baiano, um campeonato interno e logo no ano seguinte eu fui pro Rio de Janeiro e lá eu comecei a competir mesmo, nos campeonatos melhores. Disputei brasileiro, estadual, mundial. Sempre gostei do jiu-jítsu, sempre fui dedicado aos treinos. Quando voltei pra Bahia, em 2007, já estava com a faixa roxa e comecei a competir o MMA. Mas, antes de voltar a morar aqui, sempre tinha o costume de vir nas férias e, em uma dessas férias, eu conheci o Zé Mario. Sempre vinha pra academia dele nas férias pra não ficar à toa. Uma vez dessas, eu competir, o Zé Mario gostou e sempre falava com ele “tenho vontade de fazer MMA. Como é que eu faço pra começar o vale tudo?” O Zé Mario já tinha os atletas de vale-tudo e me botou no canal de lutar também. Deu certo, estou competindo direto agora, está tudo tranqüilo. Não tenho muito tempo de vale-tudo
B.N – E quando foi que você começou a lutar MMA?
Bruno Carioca – Comecei no finalzinho de 2007. Ano passado lutei bastante. Quer dizer, bastante não, mas fiz umas lutas boas. Esse ano está mais acelerado. Já fiz uma luta, tem outra agora pro dia 29 no WFE e mês que vem também já tenho luta. Então estou melhorando, fazendo as lutas principais nos eventos. Isso quer dizer que o trabalho está sendo bem feito não é?
B.N – Então você entrou no MMA apenas com a base do Jiu-Jítsu?
Bruno Carioca - Não, no jiu-jítsu eu comecei a treinar a sério as artes marciais, mas já tinha treinado caratê, tinha feito capoeira, boxe, porém, nada sério, mas ajuda a dar uma base. Depois que eu comecei a treinar o jiu-jítsu que peguei a graça de lutar e isso vai puxando. O jiu-jítsu é um esporte que no vale tudo é muito importante. Você se dando bem, se destacando nos campeonatos, começa a ter uma vontade maior, pelo menos comigo foi assim, de participar de vale-tudo. Achei que o MMA completava a minha vontade. O jiu-jítsu é maneiro, te garante no chão, mas também tem aquela parte da trocação, aquela parada que te dá confiança de estar bem no chão, mas se o cara vier em pé vou saber o que fazer. Para isso, você tem que treinar, treinar. Como sempre gostei de luta, sempre gostei de treinar, de me dedicar e o vale tudo exige muito o preparo físico, então essa parte deve fazer diferença nos ringues. Juntei o útil ao agradável. Jiu-Jítsu me puxou, mas tem essas outras coisas.
B.N – Como é a sua rotina de treinamento?
Bruno Carioca - Eu dedico a minha semana toda só ao esporte. Treino boxe segunda, quarta e sexta; jiu-jítsu todos os dias; específico de vale-tudo terça e quinta e faço a parte de musculação também todos os dias. Preparo físico, o gás, eu trabalho terça, quinta e sábado e nado terça e quinta, porque eu gosto, acho que faz parte do preparo no geral, e isso se torna um diferencial. Apenas o domingo que descanso. No sábado eu também treino também jiu-jítsu e específico de vale-tudo. É um treino mais light, mas, mesmo assim, é um pouquinho cansativo.
B.N – Você não trabalha o jogo de pernas, chutes e joelhadas?
Bruno Carioca – Estou fazendo caratê também na sexta e no sábado. Trabalho mais a parte de chute. Eu gosto muito do chute do caratê, que é uma técnica que não te deixa muito exposto ao seu adversário, eu gosto.
B.N – Em sua última luta deu pra perceber que seu jogo de quedas é afiado, mas você não treina nem wrestling (luta olímpica ou greco-romana), nem judô. De onde surgiu essa boa base?
Bruno Carioca – A gente treina aqui o wrestling, mas é o básico. A Bahia não tem muito professor de wrestling. Tem o Lequinho, mas ele não aparece muito aqui. Temos até amizade com ele, a academia dele está aberta pra gente, mas não dá tempo quando ele está aqui. Então a gente treina o básico mesmo que está ajudando nessas quedas que estão aparecendo, mas tem que ir pela parte da vontade também. Aí, a técnica, de pouquinho em pouquinho, estamos aprendendo, assimilando direito né? (risos)
B.N – Em sua última luta no WFE, você ganhou o direito de disputar uma luta no Jungle Fight, um dos maiores e mais tradicionais eventos do Brasil. Ainda está de pé essa luta?
Bruno Carioca – Está, sim. vou lutar agora no WFE dia 29 de agosto e dia 29 de setembro tem o Jungle Fight, vou emendando aí. Vou lutar agora, descansar um pouco e já ir treinando pra lutar no Jungle.
B.N – Você já sabe quem será seu adversário e onde será o Jungle Fight, já que virou um evento itinerante?
Bruno Carioca - Não, ainda não me falaram de adversário. Falaram até uns nomes lá, mas nem lembro, também não sei quem vai ser. Estamos aí, vamos esperar. Estou preocupado com essa luta de agora aí. Depois me preocupo com a outra. Sobre o local do evento, pelo que eu estava sabendo, vai ser em São Paulo.
B.N – Seu adversário no WFE 4 será o Danilo Motoserra. O que você conhece dele?
Bruno Carioca - Eu até tive uma oportunidade de treinar uma vez com ele, mas foi pouca coisa. O que eu conheço mais é a equipe dele. Eles abriram as portas algumas vezes pra mim lá no Rio. O pessoal é gente boa pra caramba, o mestre Gordo (dono da equipe) é muito sangue bom. Tenho vários amigos lá da Gracie Fusion. Pô, o Gordo me deu a maior moral, até fiquei triste na hora que fiquei sabendo que ia lutar com o Motoserra, mas ao mesmo tempo eu fiquei feliz porque a intenção do organizador foi fazer uma luta boa por causa do cinturão e o Motoserra é um dos melhores atletas que tem na categoria. Mas o profissionalismo tem que falar mais alto. Tenho que fazer uma boa luta, porque vou lutar com um cara bom e a tendência e ser uma luta que a galera goste.
B.N – Existe uma polêmica entre os lutadores de MMA, sobre lutar ou não contra amigos. Você não acha que os que dizem que jamais enfrentariam um amigo, estão testemunhando a favor de quem diz que o MMA não é um esporte e sim uma espécie de rinha humana?
Bruno Carioca - No meu pensamento, não. São pessoas que treinam juntas, sempre um está ajudando o outro, então seria muito feio. Tem até a ver um pouco com o caráter, porque é um esporte, mas é um esporte muito deferente dos outros. Eu não nego, eu não sou amigo do Motoserra, eu conheci ele, mas a gente não teve tempo de fazer amizade nem nada, foi mesmo um rola (treino). Tive muita amizade com o Gordo, que me recebeu bem, como muitos atletas dele que abriram as portas lá pra mim. Fiquei no alojamento deles, me trataram super bem, então isso já chegou a atrapalhar um pouco. Mas se ele fosse meu amigo mesmo, camarada, não ia ter como a gente lutar, porque o MMA não paga muito bem. Se fosse um dinheiro grande, aí sim vale à pena lutar com seu camarada, mas totalmente profissional.
B.N – Sobre isso, o Anderson Silva declarou recentemente que não enfrenta os amigos Lyoto Machida e Rogério Minotouro. Pelo que você falou, concorda com ele?
Bruno Carioca – O grande lance é que um ajuda o outro, um entende o jogo do outro, então, na hora da luta, não vai poder fazer uma boa luta. Vai ficar um jogo meio parado, travado, meio feio, e isso não vai agradar o público. Por isso que eles evitam lutar. Eu também não lutaria com meus camaradas se fosse por pouco. Porque é diferente do futebol, do vôlei, que é uma equipe, não tem o contato, um jogador quando está num time, está num time. Quando vai pro outro, está no outro e a vida continua. Mas o vale tudo não, os caras são amigos. Aí tem pancada, tem aquela vontade a mais. Com seu amigo você não vai ter aquela vontade, aí acaba não fazendo uma boa luta e não agradando o público.
B.N – Quantas lutas e contra quem você já lutou?
Bruno Carioca - Eu ganhei as quatro lutas que eu fiz, todas aqui em Salvador. A primeira foi por nocaute em cima do Nuno, no Prime MMA, que rolou no Balbininho. Minha segunda luta foi contra o Edilberto Crocotá e eu venci por pontos, também no Prime, só que dessa vez foi no hotel Fiesta. A terceira, no WFE 1, o meu adversário, o Neilson Gomes, desistiu do 2º para o 3º round, no Wet N’ Wild. A minha última luta foi no WFE 3, foi por pontos contra o Éder Jones, que é da Minotauro Team, de novo no hotel Fiesta, onde vou lutar novamente contra o Motoserra.
B.N – Por falar em Minotauro Team, muitos lutadores estão se mudando para os EUA e busca de maior estrutura e melhores treinos. Com seu crescimento, você acredita que terá que buscar uma equipe grande dessas?
Bruno Carioca – Isso é uma realidade hoje, mas também acredito nas famílias, na boa vontade das pessoas, a galera que lhe incentiva. Estar perto das pessoas que você gosta também é bom. Claro, a gente pensa também em ir pro Rio, pegar algumas coisas novas, sempre estou pesquisando. Querendo ou não, cada lugar está criando coisas novas, mas sair daqui ainda não penso não. Penso mais em treinar onde eu estou, está dando certo, está tudo direitinho, então não tem porque sair.
B.N – Você tem empresário?
Bruno Carioca - Por enquanto, não. Quem me ajuda bastante é o meu professor Zé Mario e meu avô também me orienta, mas não tem nenhum empresário, nada que me ajude a buscar lutas, salário, patrocínio, essas coisas.
B.N – Seu avô também é lutador, ou te ajuda apenas financeiramente?
Bruno Carioca – Não é lutador, mas se não fosse ele não dava pra lutar não. Meu avô é o “avôtrocinio”. (risos)
B.N – Você se espelha em algum lutador?
Bruno Carioca - Eu sempre me espelhei no Paulão Filho (carioca com bem sucedida carreira internacional). Gosto do tipo de luta dele, que é um jogo justo no chão, até por que o meu tipo é meio parecido, eu gosto muito do estilo dele.
B.N – Qual a categoria de peso que você luta e sua alimentação?
Bruno Carioca – Eu luto até 84 quilos. Minha alimentação é acompanhada por um nutricionista. Como tudo que seja saudável: frutas, legumes, arroz, feijão, carne, muita carne. É mais ou menos isso. Macarrão, muito carboidratos, proteínas e suplementos, que eu tenho que ter pra conseguir aguentar treinar sempre duro.
B.N – Você tem dificuldade para manter o peso?
Bruno Carioca – Manter, estou conseguindo fácil, por enquanto. Peso 91 quilos e já cheguei a 93, mas foi uma vez só que eu fiquei muito tempo sem competir. Perto da luta eu baixo pra 84 quilos.
B.N – Você tem apenas 22 anos. Pretende seguir a carreira?
Bruno Carioca - Meu objetivo é viver da luta. Então eu espero lutar fora do país, que é onde dá dinheiro. No Brasil não entra dinheiro, o patrocínio é fraco. Você só consegue um patrocínio bom quando você vai lá pra fora. Então o objetivo é lutar o UFC que é o maior evento, onde tem os melhores lutadores. O dia que eu estiver lá, eu sei que eu mereci e estou entre os melhores, esse é o meu objetivo, ser um dos melhores. Quero ser o melhor, treino pra ser o melhor, não quero ser o segundo. Mas primeiro tenho que trabalhar duro para chegar lá e agradar o público. Se eu agradar, estou bem na fita.
B.N – Deixe um recado pra galera que não conhece o esporte e o WFE.
Bruno Carioca - Pra galera que conhece o WFE, está vendo que o evento está crescendo, bem organizado, em uma localidade maneira, está mais fácil hoje acompanhar. O próximo evento será excelente, vários lutadores bons. Quem não gosta e quem não conhece, tem a chance de curtir e ate gostar do esporte através do WFE. Vários amigos meus que achavam o esporte violento, hoje vão direto. Sempre que tem a oportunidade eles estão indo. É muito maneiro, sou meio suspeito pra falar, mas se a galera for vai ver que é muito organizado!
