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Entrevistas

Entrevista

Sérgio Guedes

 

 Por Éder Ferrari

Bahia Notícias – Qual foi sua primeira impressão do elenco do Bahia?

 

 

Sérgio Guedes - Muito bacana. Condição de trabalho muito boa. (Estou) Conhecendo todos os atletas devagar, alguns de já ter visto jogar, alguns de ter tido um primeiro contato, uma atitude bacana, eu acho que é um perfil bom de time, camisa pesada, de responsabilidade, de cobrança, de pressão, de ansiedade, de pressa, e eu tenho que ser cauteloso com isso, eu tenho que ter os pés no chão, eu tenho que ser frio, mas consciente que precisamos traduzir isso em resultado rápido.

 

B.N –  O elenco do Bahia é tido como um dos melhores da Série B, mas se encontra com a auto-estima baixa. De que forma o senhor pretende levantar o time?

 

 

Guedes – Com a verdade. A motivação você trabalha com a verdade, você trabalha com franqueza e o futebol me ensinou isso ao longo da minha vida, que você quando conquista um atleta ele produz mais. Quando ele se sente confiável ele rende mais, ele doa mais, ele se entrega mais. Eu não posso, em momento algum, jamais vou fazer uma crítica em público a um atleta que de repente possa produzir mais. Isso tem que ser a porta fechada, de forma individualizada, mas passar a ele a expectativa daquilo que é o Bahia. Já dei uma noção exata daquilo que representa, já sabia por que foi meu adversário muitas vezes, passei muitos apuros aqui e o Bahia precisa ser assim: um time que joga em casa e que se imponha em cima do adversário, na força. Na inteligência, na capacidade técnica, na atitude. Na Série B são circunstâncias, não existe uma regra específica pra isso, existem momentos de jogo e nós precisamos ter um time inteligente suficiente pra entender o momento do jogo e saber se impor.

 

B.N – Você já trabalhou com algum jogador do elenco?

 

 

Guedes - Eu já trabalhei com o Alex Terra na Ponte Preta. Eu conheço o Rubens Cardoso, que estava começando a jogar. Ele não é mais jovem, mas ele era quando eu jogava ainda. No geral, não tem ninguém estranho, na verdade. Eu tive uma surpresa boa com alguns garotos da base. Então às vezes você fala muito em contratação e às vezes você precisa fazer esses meninos terem confiança e a oportunidade não marca data, não. Eu sou verdadeiro no que eu falo. Se eu confio, se eu acho que o trabalho foi bom, ofereço oportunidade. Eu sou entidade mesmo, sou uma pessoa que não tem compromisso a não ser com aquilo que eu acho mais bonito no futebol, que é a paixão do torcedor e quando a gente tem isso ao nosso lado. Você tem o estímulo, você tem o apoio, você tem tudo de bom e eu preciso fazer com que os atletas entendam isso.

 

B.N – E como se fazer entender pelos atletas?


Guedes - Eu preciso entender muito bem o Bahia. Preciso ser rápido, eficaz! Sou muito observador naquilo que faço, com as pessoas que trabalho, escuto muito, sei considerar tudo, sei filtrar o que é bom e o que não é. Sei o que é positivo e negativo. Tive isso como atleta, que sabia diferenciar muito essas coisas, mas eu tenho plena consciência de tudo aquilo que é passado na pressa, da necessidade, da ansiedade, do tamanho do time, da expectativa que se tem, da cobrança que existe. Agora eu tenho que ser pé no chão. Eu não posso ser emoção nessa hora, tenho que ser a razão, e tenho que lidar com gente que vai me ajudar. Quem vai me ajudar são os atletas, quem vai transformar o Bahia são os atletas. A gente faz uma conta, vende um projeto, conta uma expectativa e os atletas, acreditando nisso, é quem vão traduzir isso em resultado. Eles é quem vão fazer o melhor pro clube. Então eu preciso tê-los motivados, confiantes, confiando, acreditando no treinador e se entregando no treino porque, senão, fica na conversa.

 

 

B.N –  Como o senhor pretende armar a equipe?

 

 

Guedes - Vou conhecer o elenco. O que eu posso adiantar é que, com a torcida que o Bahia tem, se eu jogar atrás, eu ponho a cabeça a prêmio. Não posso ter esse perfil em hipótese alguma, Bahia vai ser ofensivo, o Bahia às vezes vai se deixar envolver, mas o Bahia não vai jogar atrás, já descarto três zagueiros. Três volantes se tiverem qualidades pra jogar, se tiverem recursos pra jogar, é possível que a gente adote, mas a idéia e jogar com um meia, jogar com gente na frente. O Bahia precisa se impor, se impor lá na frente, desde a saída de bola.

 

B.N –  O senhor deixou o Santo André por não aceitar ingerência da diretoria na escalação do time. Vai manter a postura no Bahia?

 

 

Guedes - Sempre! Com dezoito anos eu já era assim, acho que tudo é conversa. Tudo é argumento. Se você conversa comigo, você tem tudo de mim. Se você me convence, porque eu penso, eu não sou radical. Agora eu penso que colocar um jogador com tudo que eu falo a eles, o discurso que eu tenho com os atletas, a maneira com que os trato, chegar no atleta e dizer que joga, por critério técnico, e no outro dia eu escalar um outro jogador, como eu vou olhar pra ele, como vou me portar diante de tudo que falo? Não, eu não vou colocar, não vou conflitar nada, eu acho só que existe responsabilidade. Se me contrataram como técnico, tem que confiar em mim como técnico, porque é dessa forma que eu vou fazer. Vou tentar transformar o Bahia num time com mais confiança, com mais atitude. Enfim, é a maneira que eu enxergo o futebol.

 

B.N –  O senhor assistiu a alguma partida do Bahia na Série B?

 

 

Guedes - Eu assistir sem ter nenhuma perspectiva até então de vir trabalhar no Bahia, até porque eu estava trabalhando. Assistir contra o Ipatinga, contra o Bragantino, e o último em Pituaçu contra o Juventude. Esses três jogos eu assisti inteiros sem ter nenhuma expectativa de vir trabalhar no Bahia, então tenho mais ou menos uma idéia do que é, do que precisa fazer e do que é interessante fazer. Aí eu venho aqui no dia-a-dia, convivo com os atletas e me certifico se aquilo que eu vi é verdadeiro e se por alguma razão não funcionou. Então é isso que eu tenho que fazer. Vou assistir aos jogos agora de uma forma mais envolvida, vou pegar os últimos trabalhos da equipe, vou ver os nossos futuros adversários. Tenho plena noção do que é esse campeonato da Série B – disputei essa competição uma vez – e confesso a você que é um nível técnico um pouco mais baixo, mas de atitude boa, de espaço, de correria. Então nós precisamos ter um time equilibrado. O Bahia não pode se expor, o Bahia tem que se impor, então precisa está organizado.

 

B.N –  E como organizar esse time tendo pouco tempo para trabalhar?

 

 

Guedes – Tenho que conversar com os atletas e dividir responsabilidades. É óbvio que não vou impor nada, vou conversar e sentir no treinamento se é possível isso. Acho que eu preciso conhecer bem os atletas, mas oferecer oportunidades e condições de jogar, de colocar um time um pouquinho mais acima, com mais liberdade. Vai ter responsabilidade de encostar, de defender, de se posicionar bem. Eu não posso jogar com três, quatro atacantes, mas eu posso jogar com jogadores versáteis, que cheguem, que voltem, que componham. Só não gosto de jogar com muita gente atrás sobrando. Isso é uma tendência, isso é uma possibilidade, uma idéia que eu tenho.

 

 


B.N –  O senhor não acha que o elenco está muito grande?

 

 

Guedes - Tenho que conhecer o grupo. Concordo nesse ponto, acho que, por mais motivador que você seja, trabalhar com mais de trinta e cinco jogadores, trinta e bobagem, você perde tempo, não vai agradar nunca. Porque jogador de futebol, embora acredite às vezes no treinador, também se coloca: “Pô, o cara gosta de mim, fala bem de mim, mas não me leva nunca?”. Ele se questiona com relação a isso, então é um cuidado que a gente precisa ter. É um campeonato de lesões, de suspensões, mas a gente precisa formar um elenco útil. Jogadores versáteis, ecléticos, que façam mais de uma função, (para) não inchar o elenco mesmo, observar muito bem. É muito cedo pra eu fazer uma afirmativa acerca de algum jogador da base. Às vezes surge uma situação, uma circunstância que você precisa olhar primeiro para o que você tem, e não sair contratando e depois contratar um jogador que de repente tem menos recursos que aquele que estava aqui. Então esse critério eu preciso ter, essa calma eu preciso ter, até porque é minha maneira de ser, minha maneira de agir, eu prefiro assim mesmo correndo riscos, mas ser justo com o discurso que tenho.

 

B.N –  Na atual situação do Bahia, o senhor vai focar seu trabalho no físico ou no psicológico?

 

 

Guedes - As duas coisas. Tem hora pra tudo: primeiro de argumentar e convencer, de conquistar. Acho que (tomando a atitude de) impor, no futebol, você adia o problema. Mas o trabalho é dinâmico, o trabalho é intenso, o trabalho é forte. Às vezes ele é mais reduzido, mas ele tem qualidade. Não gosto de fazer trabalho mais desgastante, ele tem que ser útil e isso a gente vai fazer bastante. Eu acho que os atletas vão gostar da maneira da qual eu faço o trabalho, até porque eu acho que isso vai se traduzir em jogo. Porque eu preciso de uma equipe que jogue uma divisão, mas que poderia estar jogando na divisão de cima. Nossa realidade é a Série B, então a equipe precisa ser competitiva, tem que ter atitude boa. Pra isso tem que estar bem treinada, pra isso tem que estar bem postada, pra isso tem que ter um time vibrante, então isso é treino, isso vai além da conversa, isso é trabalho. A conversa talvez elucide, tire a duvida do atleta, mas a minha dúvida só é tirada com o treino.

 

B.N –  Seu antecessor, Paulo Comelli, foi demitido por telefone sem nenhum aviso prévio. Teme que aconteça o mesmo com o senhor?

 

 

Guedes - Não, eu não temo. Acho que é uma realidade isso, preciso ter essa noção que isso é possível acontecer. Agora preciso trabalhar, não posso trabalhar com a perspectiva que a coisa não possa sair bem. Preciso trabalhar com a perspectiva de formar um time forte, competitivo, de melhor atitude, esse é o compromisso. Confesso a você que, embora todo mundo saiba que precisa trabalhar, estar no mercado, eu não me seguro no cargo, não. Quem me segura no cargo é um bom trabalho e bons resultados. Então eu preciso arrojar, ser audacioso, petulante, para convencer os atletas que eles é quem vão fazer e acredito muito no meu poder de argumentação com eles. Se você tem a liderança, se você vai conquistando a cada dia um atleta, acho que no dia do jogo é o suficiente pra fazer um jogo bom.

 

 

B.N –  Voltando ao elenco inchado. O senhor pensa em liberar quantos jogadores?

 

 

Guedes - É muito cedo para se posicionar. Ouço muito isso, acho que o atleta ouvindo isso se enfraquece, se diminui. Disse a eles que o critério é técnico, que minha expectativa é a melhor possível, que eu acredito em quem eu coloco. Se mostrar pra mim no treinamento que tem vontade de jogar, vai jogar, vai ter a chance, e às vezes contratações não resolvem, aumentam o problema e o mercado não é tão rico assim em boas contratações. É preciso valorizar muito o que você tem e esgotar a motivação daqueles que você tem. Sentir no semblante deles se, de fato, eles estão entendendo e comprometidos com a entidade que é minha razão maior, que é minha prioridade, independente de qualquer interesse que possa haver. A entidade é prioridade. Eu acho que o atleta de futebol pega logo isso. Quando ele entende que o treinador, que coloca ele, pensa assim, acredita nisso, ou eu trago ele para junto de mim ou, aí sim, a gente parte pra um plano B. Mas isso é o ultimo caso.

B.N –  Uma das maiores críticas ao time do Bahia é o condicionamento físico deficitário. Como o senhor pretende resolver isso?

 

 

Guedes - É verdade, temos conversado sobre isso com os profissionais. Alguns jogadores lesionados, alguns chegando depois do prazo e com pouco tempo pra trabalhar. Como fazer isso? (Se) Você tem um tempo pra trabalhar, trabalha! Vamos fazer os testes, avaliar individualmente cada atleta, trabalhar esse jogador que carregue o peso mais do que precisa. A palavra é comprometimento. Se o atleta não tiver esse espírito, dificilmente vai ajudar o Bahia, então é aproveitar o máximo o tempo. Precisamos treinar, condicionar, mas não temos tempo de descansar. Dá para conciliar, equilibrar. Justificar não adianta, o resultado precisa vir, a atitude precisa melhorar, o rendimento precisa crescer. Nós precisamos nos adequar a tudo isso, mas realmente vamos precisar de tempo. O que não temos tempo é pra jogar bem e ter resultados. Tenho consciência disso, mas eu preciso equacionar, preciso encontrar uma saída rápida. Acho que é possível fazer.

 

B.N –  O senhor falou que iria aproveitar o elenco antes de pedir contratação, mas o Paulo Isidoro foi contratado. Facilitou ele já estar treinando com o grupo?

 

 

Guedes - Paulo é um jogador interessante, de currículo, história, de caráter bom, eu tenho ele nesse conceito. Já estava aqui, é um parceiro, um amigo, um rapaz que só ajudou, mesmo não estando contratado. Não podia descartar. Além de toda sua capacidade técnica. Com certeza, nos será muito útil.

 

B.N –  Pelo seu discurso, o senhor parece realmente estar acreditando na subida do Bahia. É o seu maior desafio?

 

 

Guedes – Meu primeiro clube de massa como treinador, um grupo muito forte para a Série B e total estrutura para trabalhar. Como não acreditar?

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