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Entrevistas

Entrevista

Novo comando: Jonilson Veloso revela planos para nova fase da base do Vitória

Por Hugo Araújo

Foto: EC Vitória/Divulgação

Celeiro de craques históricos, a base do Vitória ganhou fama internacional ao longo dos anos e hoje vive um processo de reconstrução, assim como todo o clube desde a virada de chave iniciada durante a Série C de 2022. Após um período sem protagonismo dos jogadores formados no clube e de instabilidade do Rubro-Negro antes da arrancada iniciada naquele ano, o Vitória tem atualmente no goleiro Lucas Arcanjo, cria da base e hoje uma das referências do clube, um dos símbolos desse processo e da busca por dias melhores.

 

Após retornar à Série A do Campeonato Brasileiro Sub-20 ao conquistar o acesso no ano passado, o Vitória terminou a competição na 14ª colocação, com 20 pontos, três a mais que o Criciúma, 18º colocado e rebaixado ao lado de Avaí e Fortaleza. O ano de consolidação na elite, porém, contrastou com a eliminação na semifinal do Campeonato Baiano da categoria, diante do Fluminense de Feira, que acabou derrotado pelo Bahia na decisão. Com o resultado, o Leão viu o rival conquistar o octacampeonato consecutivo da competição e ampliou para nove anos o jejum de títulos estaduais da categoria, já que a última conquista aconteceu em 2017.

 

Para dar sequência ao processo de reconstrução, que já apresenta reflexos no elenco profissional através de jogadores como Lucas Arcanjo, um dos principais nomes da equipe, e Edenilson, que integra o grupo principal rubro-negro desde o ano passado, o Vitória acertou a contratação do experiente técnico Jonilson Veloso para assumir o comando do Sub-20, substituindo Mário Henrique na função. 

 

Eleito o melhor treinador do Campeonato Baiano de 2023, Jonilson, que estava no Vilavelhense, do Espírito Santos, também realizou estágios no Bayern de Munique durante o período em que Pep Guardiola comandava a equipe alemã. Com passagens por Jequié, Ypiranga e Jacuipense, onde conquistou o acesso à Série C e o vice-campeonato do Campeonato Baiano, o treinador chega ao clube com a missão de desenvolver novos talentos e recolocar a base do Vitória em posição de protagonismo.

 

Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, Jonilson Veloso falou sobre o desafio de comandar uma das divisões de base mais tradicionais do Brasil, explicou os motivos que o levaram a aceitar o novo desafio e revelou bastidores do projeto, que terá como primeiro grande objetivo a preparação da equipe para a disputa da Copa São Paulo de Futebol Júnior, a Copinha, em janeiro de 2027.

 

Bahia Notícias: O que pesou para você aceitar o convite do Vitória, especialmente deixando o futebol profissional para assumir o Sub-20?

 

Jonilson Veloso: Primeiro, o desafio. A gente tem dez anos de carreira, não só no futebol profissional, e chegou a pensar: "Será que estou dando um passo atrás?". Mas, por outro lado, encaramos isso como um desafio enorme, porque sabemos que a marca Vitória supera qualquer coisa.

Também pensamos muito no investimento futuro. Dar esse passo, aproveitando a marca Vitória, é uma oportunidade de valorização no mercado de trabalho. A divisão de base do Vitória dispensa apresentações. Os craques revelados pelo clube falam por si só. A marca do Esporte Clube Vitória, não só no profissional, mas também na base, é muito forte.

 

BN: Como aconteceu o contato com a direção do Vitória e quem integra a sua comissão técnica? 

 

JV: O primeiro contato foi feito pelo gerente de futebol, Ricardinho (Ricardo Amadeu), que me explicou e apresentou o projeto do Vitória. A gente tem uma comissão muito experiente. Temos o auxiliar técnico John Sugar, que recentemente era auxiliar da equipe profissional da Jacuipense; o preparador físico Léo Coutinho; o Victor Miller, treinador de goleiros da comissão anterior, que está há muitos anos no clube e foi atleta do Vitória; e o analista de desempenho Tomás.

Pela experiência e pela vivência dessa comissão, a equipe do Vitória pode esperar muitas coisas boas pela frente.

 

BN: Você tem cerca de uma semana conhecendo o clube antes do anúncio oficial. O que encontrou nesse período?

 

JV: Foi um período para me ambientar, conhecer as estruturas, as instalações e os departamentos do clube. Também começamos a analisar os elencos do Sub-20 e das outras categorias, como Sub-17 e Sub-16. Foi uma semana de adaptação ao clube, tanto para mim quanto para a comissão técnica. Agora já colocamos a mão na massa e estamos trabalhando, porque sabemos que nossa missão é difícil e o desafio é muito grande.

 

BN: Você também teve contato com o presidente Fábio Mota. Como foi essa conversa?

 

JV: Fomos apresentados ao presidente e ele me mostrou toda a estrutura do clube. No final, falou: "Olha o tamanho para onde você está vindo".

 

Isso é uma pressão a mais, mas estamos acostumados e preparados. O Vitória é uma equipe gigante do futebol brasileiro. Quem não conhece a estrutura do Vitória não tem dimensão do tamanho que é o clube. Fico muito feliz pelo convite e tenho certeza de que a equipe Sub-20 vai dar muitas alegrias à nossa torcida.

 

BN: Como você avalia o momento atual do Sub-20 do Vitória, que terminou o Brasileiro na 14ª colocação e caiu na semifinal do Campeonato Baiano, amargando nove anos sem título estadual na categoria?

 

JV: A equipe Sub-20 está se reestruturando. Alguns atletas, por força de contrato, terminaram seus vínculos e deixaram o clube. Membros da comissão também saíram. Então, estamos chegando para algo novo. Começamos praticamente do zero.

 

Ainda temos este período do ano para nos prepararmos para duas competições oficiais: a Copa Atlântico e, logo em seguida, em janeiro, a Copa São Paulo. Temos tempo para trabalhar. O departamento de análise de desempenho e o departamento de mercado estão trabalhando para trazer outros atletas e fortalecer a equipe.

 

O projeto do Vitória é ter uma equipe muito forte no Sub-20, porque é a categoria principal da base, aquela que prepara os atletas para o profissional. Esse é um dos motivos pelos quais está acontecendo essa reestruturação, para que no próximo ano possamos estar ainda mais fortes.

 

BN: Como foi a conversa com o técnico Jair Ventura? 

 

JV: É um trabalho em conjunto. Precisamos trabalhar muito próximos para avaliar e analisar quais atletas do Sub-20 estão capacitados para serem inseridos na equipe profissional.

 

Essa integração é muito próxima. O Jair me desejou boa sorte, deu as boas-vindas e falou que eu estava chegando a um grande clube. Também disse que estava à disposição para o que precisássemos e que poderia nos ajudar.

 

BN: A Copa Atlântico será sua primeira competição oficial. O que o torcedor pode esperar da equipe?

 

JV: Na Copa Atlântico já teremos uma equipe com a nossa cara, claro que respeitando a identidade e a cultura do clube. Não vamos esperar a Copa São Paulo. Precisamos mostrar isso logo na primeira competição.

 

Temos tempo para adaptar os novos atletas que vão chegar e também aqueles que permaneceram à nossa ideia e ao nosso modelo de jogo. A expectativa é a melhor possível. Nosso intuito é sempre ser o melhor e fazer uma campanha melhor do que estamos acostumados a fazer.

 

 

BN: Já existe uma definição sobre o perfil do elenco que será levado para a Copa São Paulo de 2027?

 

JV: Ainda não. Estamos planejando porque temos tempo para isso. Geralmente, não se leva uma equipe formada apenas por atletas do último ano. Vai uma garotada mais nova para que eles possam amadurecer e vivenciar uma competição como a Taça São Paulo, que é uma das principais competições de base do país.

 

Vamos sentar ainda com o clube para definir o planejamento em relação à Copa São Paulo e aos atletas mais jovens que serão inseridos nesse processo.

 

BN: O Vitória tem jogadores da base retomando espaço no profissional, como Lucas Arcanjo e Edenilson. Como você enxerga essa geração e os atletas que podem dar esse salto?

 

JV: Vou ser muito sincero: ainda é muito novo para mim. A gente ainda está conhecendo o elenco e formando um novo grupo para as futuras competições. Mas isso é a identidade do clube. O Vitória sempre foi uma equipe que utilizou muitos jogadores da base e acho que isso precisa continuar. Quem acompanha o clube sempre viu garotos revelados aqui recebendo oportunidades.

 

Isso é um DNA do Vitória e não vai mudar. Em relação aos novos atletas que têm condições de chegar ao profissional, isso vai acontecer de acordo com o trabalho e com o tempo. Precisamos trabalhar e preparar bem esses atletas para que possam ser inseridos na equipe profissional.

 

BN: O Alisson Santos é um exemplo recente de jogador formado no Vitória que conseguiu se destacar no futebol europeu, mas no Leão não teve sequência. O que esse caso representa para o trabalho de formação?

 

JV: Isso é o futebol. Não existe uma fórmula. Como o DNA do clube é lançar atletas, eles serão lançados no momento bom e no momento ruim da equipe. É uma característica do clube.

 

O Alisson mostrou que o trabalho não estava errado. Talvez o atleta não tenha se saído tão bem naquele momento, mas, pela capacidade de todo o trabalho que foi feito anteriormente, ele conseguiu chegar a patamares maiores e hoje está no Napoli. Isso aconteceu com o Alisson e vai acontecer com outros jogadores que estão vindo.

 

BN: Quais características você considera fundamentais para transformar um jogador Sub-20 em um atleta profissional?

 

JV: Tirando a parte técnica e tática, a principal é a psicológica. Precisamos preparar o atleta para que, quando subir para a equipe principal, ele consiga absorver toda a pressão que será colocada sobre ele.

 

O atleta entra em campo e acaba sendo julgado em 90 minutos. É naquele período que ele é avaliado pelo que rende dentro da partida. Mas ninguém sabe o que acontece no dia a dia. Por isso temos essa preocupação com a parte mental, para que, quando eles subirem para o profissional, não sintam tanto essa pressão. Temos muitas conversas e também o auxílio da psicóloga, que acompanha e entende cada atleta.

 

BN: Que tipo de equipe o torcedor pode esperar do Vitória de Jonilson Veloso?

 

JV: O torcedor pode esperar uma equipe que gosta de se impor em campo, trabalhando a bola, tendo posse e controle do jogo. É uma posse de bola intencional e muito agressiva no último terço.

 

Sem a bola, vamos priorizar a compactação, com as linhas muito próximas para não dar espaço ao adversário nas transições. Perdemos a bola e já mudamos a atitude. É a pós-perda. Isso vai nos dar uma identidade, uma cara para a equipe do Vitória. O torcedor pode nos cobrar organização. A organização nós podemos dar. O que acontece lá dentro depende dos jogadores, mas podem ter certeza de que tudo isso será visto quando a equipe estiver em campo.

 

BN: Hoje existe um debate sobre a formação de jogadores no Brasil, principalmente sobre a redução de meio-campistas e camisas 10. Como você avalia essa mudança?

 

JV: O futebol mudou. Mudou em termos físicos, porque a intensidade passou a ser muito priorizada, mas eu sempre digo que, para ser um atleta de futebol, primeiro ele tem que jogar.

 

A parte técnica é fundamental. Independentemente de tamanho ou peso, ele tem que saber jogar. Eu priorizo sempre a parte técnica. Gosto do controle do jogo, de uma equipe que fique com a bola e tenha protagonismo.

 

A parte física é importante, mas, para mim, a técnica é o que mais sobressai. Passe, domínio, condução e finalização são fundamentos que precisam ser muito bem trabalhados e refinados.

 

BN: O Vitória também tem buscado jogadores fora do estado e do país, como Alejandro Amaraz, camisa 10 da equipe sub-20. Você pretende manter esse olhar para o mercado?

 

JV: Esse olhar precisa existir. Até porque, para ele ser contratado, não foi pela parte física, mas pela técnica.

 

O clube precisa ter esse olhar, mas também não podemos esquecer a nossa própria identidade. Quantos jogadores o Vitória revelou com muita qualidade técnica? Isso é tradição do clube.

 

O Barradão também contribui para isso. O Vitória sempre foi uma equipe que se impõe aqui, e isso cria jogadores técnicos, jogadores que gostam da bola. Às vezes deixamos isso passar em algum momento, mas precisamos resgatar. Primeiro, o atleta precisa ser muito bem tecnicamente. Depois vêm as valências físicas, que vamos desenvolvendo.

 

BN: Você já conseguiu identificar algum jogador do atual elenco que tenha chamado sua atenção?

 

JV: Sim, mas não vamos falar nomes ainda. Posso garantir que tem gente boa. Temos jogadores de qualidade e vamos vir fortes.

 

As peças estão dentro de casa. Só precisamos ter uma paciência maior, trabalhar bem e preparar esses atletas. Acho que a solução está aqui dentro. Temos muitos jogadores com qualidade para estar jogando no profissional.

 

BN: Você foi eleito o melhor treinador do Campeonato Baiano de 2023. O que mudou daquele Jonilson Veloso para o treinador que chega hoje ao Vitória?

 

JV: Mudou muita coisa. Quando comparamos o início da carreira com hoje, vemos uma evolução muito grande. Aprendemos o que não devemos fazer e o que devemos transmitir e mostrar. Dentro disso, amadurecemos com as situações que vivemos no dia a dia e nos jogos.

 

Tudo isso faz com que a gente evolua e fique mais preparado do que quando começou. Hoje é uma nova versão do treinador Jonilson Veloso, e é uma versão da qual eu gosto mais.

 

BN: Você é tio do zagueiro Dante, que encerrou a carreira recentemente. O que essa relação representa para você?

 

JV: O Dante é meu sobrinho, filho do meu irmão mais velho. Temos uma ligação familiar muito grande porque fomos criados todos juntos. Fico muito feliz pela carreira dele. A gente sabe o quanto ele sofreu e o caminho que percorreu para chegar onde chegou. Pegamos isso como exemplo para passar aos mais jovens

 

A vida de um atleta não é fácil. É muito difícil e existem muitas barreiras que precisam ser quebradas para chegar ao ápice. Como vivemos tudo isso de perto, temos um certo respaldo para falar com mais convicção sobre essas coisas e ensinar os mais jovens a trilhar um caminho melhor.

 

BN: Qual a importância de ter Lucas Arcanjo, um jogador formado no clube e hoje referência no profissional, tão próximo dos jovens da base?

 

JV: Isso é fundamental. Ter ídolos e referências muito próximos é uma das principais coisas que uma equipe profissional pode oferecer aos jovens. Você olha para a equipe principal e tem ali um ídolo seu, uma referência. Isso motiva e faz o jogador acreditar ainda mais que é possível chegar onde aquele ídolo chegou.

 

Quando existe esse contato no dia a dia, essa proximidade, eles acreditam cada vez mais. Não é apenas aquele ídolo que você vê de longe. É alguém que está ali todos os dias. Essa aproximação e essa integração são as melhores coisas que poderiam acontecer em um clube. É assim que se cria uma cultura e um sentimento de fazer parte de um clube tão grande como o Vitória.

 

BN: Como você pretende trabalhar a integração entre o Sub-20 e as categorias mais jovens?

 

JV: O Sub-20 é a principal categoria da base e precisa ser referência para as outras equipes. Até o Sub-9, o menino que está começando olha para o Sub-20. Existe essa integração entre as comissões. Estamos sempre acompanhando o dia a dia, sentando juntos, almoçando, conversando e trocando ideias.

 

O Sub-20 precisa ser referência para as categorias menores. A responsabilidade aumenta porque sabemos que somos referência até para as comissões. A comissão do Sub-20 precisa ser exemplo para a do Sub-17, assim como o Sub-17 para o Sub-15.

 

BN: Quais são suas principais referências como treinador?

 

JV: Eu estudo muito futebol. Gosto muito da metodologia do Diego Simeone pela fase defensiva que ele exerce no Atlético de Madrid. Na organização ofensiva, gosto muito do Pep Guardiola. Nas transições, gosto muito do Klopp.

 

Também temos muitos treinadores bons no futebol brasileiro. São escolas diferentes, mas nós, como treinadores, precisamos entender todas elas. Estudamos essas escolas e acabamos criando nossa própria metodologia. É a nossa identidade que precisamos levar para a equipe.

 

Quando falo em identidade, é o time do Sub-20 jogar de uma maneira que, mesmo sem ver a camisa, você consiga olhar e dizer: "Esse é o time do Jonilson". Isso é a identidade do treinador.

 

BN: Qual é a principal meta de Jonilson Veloso neste novo desafio no Vitória?

 

JV: Acredito que o objetivo maior do clube seja preparar bem os atletas e revelar o máximo possível para o profissional. Nosso objetivo é sempre ser melhor do que fomos antes. A cada ano, precisamos procurar ser melhores do que no ano anterior. É claro que precisamos buscar resultados, mas o objetivo maior é formar o máximo de atletas que possam ser inseridos na equipe principal.

 

BN: O Campeonato Baiano também será uma prioridade, considerando o longo jejum do Vitória na categoria?

 

JV: É um dos objetivos principais. Voltar a ser campeão é realmente importante. Temos essas competições oficiais e vamos trabalhar para chegar fortes em todas elas. O Campeonato Baiano, o Brasileiro, a Copa São Paulo e a Copa Atlântico fazem parte desse calendário.

 

BN: Para finalizar, que mensagem você deixa para a torcida do Vitória, que espera o retorno da base ao protagonismo?

 

JV: A mensagem que tenho para deixar para a torcida rubro-negra é que tenha paciência e confie nos processos que estão sendo implantados. É uma categoria de base que sabemos que sempre deu muitas alegrias ao torcedor e que está sendo resgatada neste momento. Pedimos apenas um pouco mais de paciência.

 

Sabemos que é um processo de transição e que essa transição é lenta, mas o torcedor pode confiar que, em 2027, vamos estar dando muitas alegrias para essa torcida maravilhosa do Rubro-Negro.

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