Ânderson Lima: ‘Minha frustração é não ter ganhado uma bola de prata'

Após 18 anos de carreira como jogador, Anderson Lima foi convidado por Jorginho, atual técnico do Bahia, para uma parceria que já dura três anos. Hoje auxiliar do treinador no Esquadrão, Anderson conversou com o Bahia Notícias e falou sobre a transição da carreira de jogador para auxiliar, das experiências pelos clubes em que atuou e da pretensão de se tornar técnico. Além disso, o ex-lateral comentou o atual momento do tricolor e opinou sobre aonde o time pode chegar no Campeonato Brasileiro.
Bahia Notícias: Ânderson, como começou a parceria com Jorginho?
Ânderson Lima: Tem mais ou menos três anos. Foi em 2010, logo depois dele sair do Palmeiras e ir para o Goiás. Ele me ligou fazendo este convite para trabalhar como auxiliar dele. Foi um momento e eu fiquei muito feliz. Graças a Deus já faz três anos que a gente está com uma parceria muito boa.
BN: Esta parceira já existia dentro de campo?
AL: Sim, a gente jogou junto no Santos em 98. Acho que o bom do futebol é isso, né? São os ciclos de amizade que você constrói e graças a Deus eu acho que fui abençoado a partir do momento em que ele reconheceu lá atrás a nossa amizade, o profissionalismo e o respeito que eu tinha e tenho pelas pessoas e me deu a oportunidade de trabalhar junto com ele.
BN: Você fez um estágio com Muricy Ramalho. O que hoje você pode dizer “aprendi com o Muricy” e que vem trazendo para o trabalho com o Jorginho?
AL: Foram 18 anos como atleta profissional. Eu trabalhei com diversos treinadores e treinadores tops. Trabalhei com o Vanderlei Luxemburgo, com o Tite, que eu fui campeão no Grêmio. Fui campeão com o Muricy no São Caetano e outros técnicos que realmente conhecem da profissão. E com cada um você aprende alguma coisa de bom. O Muricy é um cara muito sério, que sempre disse que você tem que ter convicção naquilo que você faz. A obediência tática e técnica do Tite também foi muito importante. A postura do Vanderlei de cobrança dos atletas. Eu mesclei isso tudo e procurei assimilar e é o que eu procuro passar para os atletas hoje. Claro que a gente não é o dono da verdade, mas aquelas coisas boas que a gente aprendeu ao longo de 18 anos de carreira a gente tenta passar para os jogadores para eles saberem um pouquinho da nossa história e do que é bom para eles também.

BN: Você foi um dos injustiçados no futebol em questão de Seleção. Você sentiu falta de disputar uma competição com a Seleção ou sua carreira foi completa como jogador?
AL: Eu fui convocado, mas não tive oportunidade de atuar e essa foi minha maior frustração, porque você ser chamado, mas não ter a chance de jogar e não poder mostrar o que você realmente tinha a dar para a Seleção é uma decepção. E foi meu melhor momento na carreira, que foi quando eu estava no Grêmio. Mas infelizmente não aconteceu, mas foi uma carreira brilhante, de muita alegria e títulos e isso que é o mais importante.
BN: Você já citou o Grêmio duas vezes na entrevista. Este foi o melhor clube que você trabalhou como jogador?
AL: Foram quatro anos maravilhosos e acho que foi minha melhor fase como atleta profissional. No Grêmio eu aprendi muito. Por todos os clubes que eu passei aprendi, mas com Grêmio eu tenho um carinho muito grande porque foi onde eu pude ter um desempenho muito melhor do que nas outras equipes. Foram quatro anos de desempenhos muito bons, acima da média, então é um clube que eu tenho no coração.
BN: O Jorginho fala muito do Palmeiras, do carinho que ele tem pelo clube. E o que é que o Grêmio significa para você?
AL: O Grêmio significa muito, muito para mim. Porque, como eu falei, foi o clube que eu acredito que tive o ápice como atleta profissional. Mas eu também tenho que agradecer ao Juventus da Mooca, foram 12 anos, onde eu aprendi tudo. E eu não posso esquecer do Santos, São Paulo, Coritiba, enfim, até o clube do Japão [Albirex Niigata] que eu também aprendi com a cultura deles. Então todos os times eu tenho um carinho.
BN: Falando em acima da média, você era muito bom cobrador de falta, como o Marcos Assunção é hoje em dia. Ele diz que o diferencial dele o treinamento. E o seu? Também era muito trabalho?
AL: Muito trabalho, com certeza. E eu falo de trabalho desde a época do Juventus, nas divisões de base. Em 84, 86 mais ou menos, eu tinha um treinador, o Tara, que falava “você tem potencial, você bate bem na bola”. Então a gente pegava os goleiros depois do treino e ia batendo, batendo. Então eu acho que o trajeto da base até o final da minha carreira foi de bastante trabalho. E, com isso, fui a cada dia me aperfeiçoando, porque a gente tem o dom realmente. São alguns jogadores que têm esse dom de bater bem na bola, como o Assunção, Marcelinho Carioca, Rogério Ceni. E eu não era diferente. Realmente foi uma grande característica minha a cobrança de falta, tive sucesso com isso, fiz muitos gols por onde passei e acho que isso tudo graças ao trabalho.

BN: O diferencial seu e de Jorginho para as outras comissões técnicas que passaram pelo Bahia é o trabalho. Como você vê o Bahia hoje? Você pode dizer com convicção que o Bahia não cai?
AL: Claro que tem mais jogos pela frente, tem equipes batalhando para sair dessa zona. Eu acredito que o Palmeiras não vai cair, porque tem um elenco qualificado e os jogadores querem. Você ver no semblante deles, né? E é isso que está acontecendo com a gente. Os jogadores são os grandes merecedores. A partir do momento em que eles começam a trabalhar, eles passam a acreditar neles, que eles podem, começa a ter uma resposta de resultados no final da partida. É claro que o trabalho do dia-a-dia, aquilo que o Jorge pede para eles é importante, mas se eles não quiserem infelizmente não vai acontecer nada. Mas o que é bom é que eles tão assimilando e estão se dedicando ao que o Jorge está pedindo. O mais importante disso tudo é que os grandes responsáveis por essa grande campanha do segundo turno são os jogadores, porque eles quem jogam, eles que estão batalhando. O que a gente passa é a orientação e o caminho. E a gente tá conseguindo tirar o melhor dos atletas. E eu acredito que se mantermos esta força de vontade a gente não vai cair e o intuito é olhar cada vez mais distante dos times lá de baixo e começar a pensar em coisas melhores aí.
BN: Seu caminho depois do Bahia é virar treinador de futebol?
AL: Não. Meu caminho hoje é trabalhar para o Jorge. Como eu falei no começo, tenho a satisfação, o prazer de trabalhar com ele. Pensar em ser treinador é mais lá para frente porque agora eu penso em aprender. Acho que o mais importante é a humildade da pessoa. A gente não é dono da verdade e aprender é sempre importante. Cada clube que a gente passou e agora no Bahia, a gente aprende com as pessoas. Então eu quero assimilar e guardar comigo todas essas experiências porque se eu tiver oportunidade lá na frente de conduzir um grupo eu já vou está preprado.

BN: O que é o futebol para você?
AL: O futebol é minha vida. Depois das minhas filhas e da minha família, é minha vida. São 21 anos nesta caminha e sem o futebol eu não sei fazer mais nada. Foi como eu falei, primeiramente eu queria agradecer a Deus por todas as oportunidades e depois ao Jorge por está me dando a chance de trabalhar com ele, de conhecer o Bahia, que é um novo clube na minha vida.
BN: Sobre a Seleção Brasileira, o que você espera na Copa do Mundo de 2014? E de Neymar?
AL: Para mim o Neymar é o melhor jogador do país, sem dúvida nenhuma. Um menino que está preparado realmente, que é blindado pelo pai dele de coisas ruins que devem acontecer ao seu redor, mas é um cara que merece tudo que tá vivendo. E a Seleção eu, falando como torcedor, acho que temos que ter os pés no chão. Não botar na cabeça que o Brasil vai ser campeão do mundo só porque a Copa será disputada aqui. Acho que o Brasil está passando por uma reformulação e ainda não tem uma seleção pronta e vai jogar contra seleções que estão há muito tempo juntas. Então as dificuldades vão existir, mas a gente é brasileiro e tem que acreditar, né?
BN: Sua grande frustração foi não atuar pela Seleção? E você ainda tem um sonho na carreira?
AL: Frustração acho não foi nem a Seleção, mas sim foi não ganhar um prêmio como Bola de Prata, porque eu acho que tinha condições de ganhar e infelizmente não ganhei. E um grande sonho é continuar sendo feliz. Continuar tendo saúde e as portas abertas para o trabalho.
