Faltou visão
Gosto muito de René Simões. Fino trato, simpático, bom papo e que leva o futebol muito sério. Acreditem: isso é uma virtude no meio hoje em dia. Tem bons treinos e conceitos interessantes, mas, infelizmente, e falo isso apenas pelo trabalho no Bahia, não soube se renovar. A convicção, quando não dá certo, vira teimosia. Percebi que tenho pensamentos táticos diferentes do dele. Enquanto para ele marcar atrás e contra-atacar é a chave, para mim é apenas uma opção circunstancial. Infelizmente, ele provou estar errado.
Não quero aqui dizer que eu é que estava certo, até por que estando lá dentro é absurdamente mais difícil. Minha função é fácil demais, só analisando os fatos, mas sem ter de lidar com eles. Não é o meu bigode que fica a prêmio, tendo que segurar a pressão dos impacientes tricolores, da imprensa nervosa e muitas vezes sensacionalista, de dirigentes torcedores e de quase 40 jogadores mimados. No entanto, a minha obrigação é observar o que está sendo feito errado. Não via mais solução com René. O jogo contra o América-MG foi à gota d’água e mostrou o quanto ele estava perdido na escalação, posicionamento e opções do elenco. Hoje é titular, mas no jogo seguinte nem entra na relação. Não é o único culpado, mas tem muita culpa na posição vexatória na classificação.
Para não dizerem que estou julgando por um único jogo, basta lembrar todos meus artigos da “Era René” para saber que não existiu perseguição. Talvez algumas injustiças por visões distintas, mas sempre me atenho aos fatos. Simões foi engolido pelos próprios critérios. Claro que ele também foi prejudicado pelos erros da diretoria antes mesmo da sua chegada. A situação atual se deve as contratações de Rogério Lourenço e companhia ilimitada - jogadores ruins, descompromissados e imaturos. Isso onerou o orçamento e, para manter os salários em dia e uma mínima unidade, não teve como mandar todo mundo que merecia embora. O elenco ficou inchado e desqualificado, mas ainda dava para montar um bom time.
Ai que René pecou. Se ateve a nomenclaturas – três volantes ou dois meias -, mas não teve visão para ver o principal equivoco tático: o posicionamento dos zagueiros. Como Paulo Miranda e Titi, tecnicamente, têm se saído muito bem, isso às vezes passava encoberto. Contra o América, Paulo, Danny Morais e Fahel (jogou o tempo todo como um terceiro zagueiro pela esquerda) formaram um trio em linha e muito recuado. Marcone ficou perdido para cobrir toda a intermediária e ainda dar suporte a Marcos. Ricardinho voltava para organizar muito atrás e deixava Carlos Alberto, sofrendo marcação individual, sozinho na intermediária adversário. Em uma noite ruim do “predador”, não tinha como dar certo. No segundo tempo trocou de posição com Jones, mas não adiantou nada.
Pode parecer uma resposta simples, mas é realidade. O esquema tático de um time é uma engrenagem. Um erro afeta tudo. Nas muitas vezes que o time jogou bem, foi quando o contra-ataque encaixou (por isso afirmo ter de ser circunstancial) e/ou a marcação avançou. Eu não entendia como René não percebia isso. A maneira melancólica como o time se apresentou contra o América também mostrou um lado até então oculto: a falta de vontade! Claro que com exceções, o time foi omisso e sem tesão. A situação piorou de vez com as alterações. René perdeu o cargo ali! Se Marcelo Guimarães Filho achou que pregou uma grande peça no rival Vitória quando tirou, com a ajuda do Atlético Mineiro, Nikão do Barradão, deve estar agora achando ele ter sido a vítima.
Vamos agora esperar que chegue um treinador ousado na maneira de conduzir o time/elenco. O cara precisará se desapegar a nomes e abraçar o momento de cada jogador. Para mim isso será impossível com o grupo disponível. Espero apenas que o discurso bonito seja trocado por atitude e superação. É jogar todas as partidas como se fosse à última. É preciso parar de confundir medo com respeito e ir à luta. Não tem alternativa!
