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Coluna

AMIGO JEAN CLAUDE

Não dá para me conter quando vejo pela televisão as dolorosas imagens do pobre Haiti, que teve a sua capital, Porto Príncipe, completamente devastada. Lembrei-me de um destes companheiros de viagem internacional que diante desses acontecimentos acabam marcando a vida da gente. Em 1990, na Itália, quem representou o Caribe foi a Costa Rica, mas lá estiveram os valorosos cronistas da Societé AM 720 (Rádio Sociedade de Porto Príncipe) e numa dessas viagens do Centro de Imprensa até o centro da cidade, em Roma, no ônibus colocado à disposição dos cronistas, conheci o Jean-Claude Laurence. Negão usando óculos lentes-garrafa, meio assustador, porque os haitianos falam um francês entrecortado dando a impressão estarem querendo briga. 
 
Foi Jean-Claude quem puxou conversa, porque leu em meu crachá que eu era da Bahia e da Rádio Sociedade. Rapaz muito culto, mostrou a quase coincidência total, porque não bateu apenas na freqüência, pois a emissora que eu trabalhava era 740 e a dele 720. E como o papo rendeu, ele me deu uma aula sobre o seu país. Aliás, foi quando realmente comprovei que o esporte serve para fazer amigos, independentemente de raça, de língua e de crença. Falou da minúscula participação haitiana em uma Copa até então (1974), quando só marcou dois gols, um contra a Itália, outro diante da Argentina, os dois feitos pelo maior ídolo de seu futebol, Emmanuel Sanon, que por sinal morreu aos 56 anos, vítima de um câncer no pâncreas, há uns dois anos atrás, quando morava na cidade de Orlando, nos Estados Unidos. Manno Sanon, como era conhecido no futebol, abriu o placar contra a Itália, que depois virou para 2x1 e contra a Argentina levou de 4x1, não fazendo nenhum gol diante da Polônia, quando se despediu com uma solene goleada de 7x0. Mas este ídolo fez muito pelo futebol do Haiti: em quatro temperadas de seleção, jogou 47 vezes e marcou 106 gols. Naturalmente que contra times sem grande expressão internacional, mas que valeram muito para a sua história e para a Seleção haitiana.
 
Jean-Claude disse também que o seu país não era apenas o mais pobre do mundo, mas o mais sofredor. Por causa de terremotos, dos furações e das ondas gigantes.  Por causa também de péssimos governantes. Falou do ex-presidente Fraçois Duvalier, que era apelidado de Papa Doc, eleito em 1957, mas que instalou uma ditadura baseada no terror praticado pelos tontons macoutes, cuja tradução é bichos papões e que formavam a guarda pessoal do presidente. Antes de ser político, era um cara passivo e ajudava os pobres. Não sei se isso é um mal da classe, mas quando assumiu o poder ficou tirano – e só saiu em 1971 deixando o filho, o Baby Doc, como herdeiro do país e de tudo que era tipo de maldade.
 
Desde 90, portanto, passei a me interessar pelo Haiti e comecei a comprovar que o sofrimento daqueles irmãos é realmente incomparável. Dos quase 10 milhões de habitantes oito milhões são miseráveis, vivendo da caridade alheia, com menos de R$2 reais por dia. E nestes últimos dias, como o velho amigo de Copa não me saía da cabeça, naveguei muito na Internet, consegui contato com ele, cuja emissora montou uma base na República Dominicana e pude externar a minha solidariedade, porque se há um haitiano que ama o seu sofrido país tem que ser igual a Jean-Claude Laurence.

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