ABAIXO A HIPOCRISIA
O Bahia, que na terça (29) voltou a ser motivo de vergonha, colhe apenas os frutos de uma hipocrisia que não apenas os seus torcedores mais incautos e fanáticos, como dirigentes e até mesmo companheiros que se locupletaram da grande massa tricolor exercitaram nestes últimos 20 anos. A cada insucesso, sempre se enrolaram na bandeira de glórias que nunca foram solidificadas nem tiveram o zelo de uma preservação com trabalho, realizações e idéias.
Ninguém pode esquecer nem desmerecer o título de campeão brasileiro de 88, mas é preciso lembrar que, conquistado em fevereiro de 89, naquele mesmo ano o grande Tricolor já teve que disputar um famigerado Torneio da Morte e, até hoje, nunca mostrou as garras de um clube organizado, progressista e realizador. Uma meia dúzia de campeonatos regionais e centenas de mazelas.
Acho que uma extraordinária conquista como aquela do Brasileirão merecia ser cultivada com iniciativas de porte, gestões administrativas eficazes e resultados práticos a todos os níveis, tanto nas contratações de jogadores como na formação de talentos e na consecução de um planejamento cada ano inovador. Mas, não. O que houve foi um desmoronamento contínuo e, como diz o meu bom amigo e excelente cronista Chico Queiroz, houve um exagerado culto à personalidade do clube sem, contudo, dar-lhe conteúdo e meios de fortalecimento.
Na filosofia mais prática da vida há uma sentença que é infalível, a de que a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória. E ninguém pode negar esse miserável caminho que o Bahia adotou, o da arrogância, do desleixo, da imprevidência. Porque uma glória conquistada nada mais é do que uma grande responsabilidade aumentada para se continuar lutando, agora, na difícil e espinhosa situação do topo, porque quem já é fraco pode até cair em novos fracassos, mas quem se tornou forte e opulento a decadência é sempre uma tragédia de maior realce e de maiores danos.
A derrota contra o inexpressivo Duque de Caxias, segundo já se soube, causou demissões, entrega de cargos, procura de outros profissionais. Mas, agora, depois de tanto alerta dos verdadeiros cronistas, muitas vezes incompreendidos e repudiados, tudo que se fizer é muito pouco para reparar os inquestionáveis prejuízos. Primeira divisão é inviável, manter-se entre os da segunda é a melhor solução para quem chegou a tal descrédito que cair para a terceira é uma hipótese a esta altura que não pode ser minimizada.
Acho que, em lugar de novas promessas e falácias, os dirigentes que sobrarem deste terremoto, deverão fazer um exame de consciência e estabelecer logo metas concretas para a próxima temporada. Com os pés no chão e calçando as sandálias da humildade – porque o Bahia parou no tempo e no espaço e, neste exato momento, tem que respirar fundo em um projeto de vida que possa lhe restabelecer a dignidade e o respeito.
Querem um exemplo? No sábado anterior, ao perder para o Vasco (1-0), no Maracanã, o goleiro Vinícius do Duque de Caxias disse esta preciosidade na tevê: “Jogamos melhor que o Vasco e merecíamos outro resultado, mas, afinal, jogamos contra um time grande. Mas garanto que, na terça-feira, em Salvador, vamos conquistar os três pontos, porque vamos jogar contra o Bahia”.
Será que nos bons tempos tricolores este cara teria coragem de dizer um negócio desses? E o pior de tudo: será que eles (os do Duque) chegariam aqui e faziam o que fizeram?
Só os hipócritas podem negar essas coisas.
