PÉS TROCADOS
Foi o velho e saudoso Elba de Pádua Lima, mais conhecido como Tim, quem se justificou, certo dia de derrota inesperada e atuação ridícula, que o Vitória jogara tão mal que parecia haver entrado em campo com as chuteiras nos pés errados. Torto, cambaleante, trôpego, desequilibrado e sem rumo.
O Vitória do Ressacada, na goleada sofrida diante do Avaí foi assim: parece ter entrado em campo com o mesmo drama. Aliás, o nome do estádio foi bem sugestivo. Deu a impressão de estar de ressaca no Ressacada. Foi um desastre, errou mais do que podia em todo o campeonato. Tropeçou não apenas no bem armado Avaí, mas, sobretudo, nas próprias pernas.
Não me acho no direito de desancar nenhum jogador nem navalhar o técnico, porque seria uma grande insensatez ficar, agora, diante da desastrada atuação rubro-negra, mostrando que tudo está errado e que foi obra e graça de um acúmulo de erros. Não, não é por aí, porque se ainda tenho credibilidade é porque tenho procurado ser coerente. O Vitória desta quinta-feira fria de Florianópolis foi um vergonhoso capítulo em sua própria história dentro do atual campeonato. Afinal, nas suas três mais recentes derrotas, contra Flamengo, Palmeiras e Corinthians, jogou com personalidade, sem a pequenez e o acanhamento deste extravagante e merecido 4 x 0, que igual mesmo neste ano só aquela tragédia contra o Vasco, em São Januário, pela Copa do Brasil.
Eu até concordo que o técnico poderia ter encontrado uma formação mais simples para enfrentar os catarinenses, iniciando com Bida, para fortalecer a armação com Leandro Domingues e dar mais sustentação a Roger. Não foi Bida quem entrou contra o Coritiba, no segundo tempo, e teu mais força e lucidez ao Vitória, fazendo inclusive um brilhante passe para o golaço de Domingues? Mas ele gosta de Adriano e já conseguiu assim alguns bons resultados. O problema é que o Vitória foi tão irreconhecível que, desde o primeiro instante, deu para se sentir um time travado, sem iniciativa de jogo, com os três zagueiros falhando, o meio campo conduzindo muito a bola, de forma muito estéril, Roger, que há três jogos não marca, muito mais complicado em suas tentativas.
Pior de tudo é que, se não bastassem os equívocos no jogo, ainda se complicou para enfrentar o São Paulo, neste domingo, no MB, porque teve dois jogadores expulsos, Uélinton e Victor Ramos – e novamente vai ter que improvisar na zaga contra um adversário de muita qualidade e que tem se recuperado no campeonato.
Mas é prudente lembrar que um certame como o Brasileiro da Série A tem, também, esses percalços. Uns sacodem a poeira, dão a volta por cima e se recuperam; outros se afogam em crises e não conseguem se aprumar. Estimo que o Vitória tenha tirado lições e possa fazer um rescaldo eficiente, remontando tijolo por tijolo dos seus escombros, reiniciando a brilhante trajetória que escrevia.
Lembram-se do Flamengo? Levou duas goleadas humilhantes, uma atrás da outra, já respira mais aliviado e parte em busca até do G-4. E o próprio Avaí, carrasco rubro-negro? Lá na lanterna, tido e havido como degolado por antecipação, acaba de completar cinco vitórias seguidas, já fala até em ficar entre os primeiros.
Então, o Vitória não pode ser execrado, embora mereça uma severa advertência que os próprios jogadores, os que têm brio, revelaram após o desastre. Disseram que estavam envergonhados. Porque sabiam que causaram um imenso desapontamento à sua torcida. O time tem que entrar mais ligado, o técnico não inventar muito, porque o futebol é sempre muito prático quando tudo é feito dentro dos princípios da lógica e da simplicidade.
Vamos ver se realmente foi uma lição. O jogo contra o São Paulo pode responder esses questionamentos. Mesmo diante dos problemas, dos prováveis desfalques, das possíveis mudanças.
Porque será demais o time voltar a entrar em campo com as chuteiras em pés trocados.
