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Coluna

A CULPA É DA IMPRENSA?

Um angustiado torcedor telefonou para a Itapoan FM, depois do lamentável empate contra o Bragantino e falou, com a voz de um cara entre decepcionado e desiludido: “Sabe o porquê de o Bahia está assim, nessa crise técnica que parece não ter mais fim? È porque a imprensa só sabe criticar, só faz empurrar o Bahia pra baixo”. E como não poderia ter sido de outra forma, caiu em contradição: “É verdade que tudo anda muito errado, mas é preciso que vocês elogiem o meu Tricolor para ver se ele ganha jeito e se recupera”. Mas insistiu que a culpa é da imprensa.


Vocês já imaginaram se eu dissesse aqui que o Bahia faz campanha maravilhosa e que merece aplausos pelo excelente 14º lugar, quando o campeonato só consagra classificação para a elite de 2010 aos quatro primeiros colocados? Que estar a 14 pontos do líder Guarani e a sete pontos do quarto colocado e a dois pontos da faixa do rebaixamento? Certamente apareceria um torcedor sensato e diria, com toda razão, que eu estava fazendo ironia, que eu estava gozando com a cara da torcida consciente.


E tem muito mais: o problema do Bahia não se encerra na presente campanha, que é extravagantemente pífia, mas em um triste histórico de quase uma década. Nenhum título nos últimos oito anos, uma dolorosa peregrinação entre a terceira e a segunda divisões.


O lugar do Bahia é entre os clubes de ponta do futebol brasileiro. Pela história de vida, com dois títulos nacionais, pela fantástica massa que tanto o ama, pela própria origem estampada em seu estandarte de guerra que é nasceu para vencer.


A imprensa pode até ser culpada, sim, à medida que ainda comete a benesse de criar boa expectativa entre um fracasso e outro, quando o justo seria, de forma unida e sem dissidentes, apresentar uma nota oficial, exigindo uma medida de choque, porque o Bahia atual parece que já não se importa mais com as suas tradições, pois perdeu a ousadia de investir em valores de categoria e o respeito de adversários. Porque nos anos 70, 80 e boa parte dos 90, era um time que tinha identidade de vencedor, quando entrava em campo, a sua torcida confiava cegamente e os rivais temiam sob todos os aspectos.


Bahia em campo contra os times locais, depois de cada jogo a pergunta era de quanto o tricolor ganhou, e contra os dos maiores centros nem sempre ganhava, mas era um hábito se ver jogos disputadíssimos, cheios de boas alternativas e de histórico muito favorável.


Talvez o grande pecado do Bahia tenha sido valer-se desta fase, não como indicativo de uma sobrevivência cada vez mais vitoriosa, mas dormindo em berço esplêndido, sem se esforçar para criar boas alternativas no mercado do futebol. Deixou desmantelar-se uma apreciável Divisão de Base, perdeu o pendor de grande investidor em jogadores do Nordeste e nem aqueles bons jogadores de outros grandes clubes têm encontrado o endereço do Fazendão. Agora são contratações duvidosas, atletas em fase de recuperação, garotos colocados ao meio de crises técnicas e que, por isso mesmo, não rendem todo o seu potencial.


Acho que é preciso fazer uma pausa para meditação, corrigir desníveis e encontrar os verdadeiros trilhos de uma locomotiva moderna que os tempos globalizados acenam também para o futebol. Porque sofismar em cima de velhos conceitos e velhas glórias é a pior derrota que uma instituição pode enfrentar.


As velhas conquistas são muito importantes e de inestimável alicerce para acumular novos triunfos, mas quando são exploradas pela audácia de se inovar, pela competência de se buscar novos horizontes e pelo empenho de um planejamento cada vez mais eficiente. Este 1 x 1 diante do Bragantino foi apenas mais um pequeno exemplo da fragilidade do time. Treinador novo, muito aquém do que foi demitido, um bando em campo. Até os de bom nível, que andaram mostrando alguma coisa no Estadual, agora se atropelam e rendem muito pouco, pressionados e cabisbaixos, sem vibração. Foi muito fácil, desde que a bola rolou, admitir-se a possibilidade de mais uma frustração, pois faltou senso de marcação, expediente de meio-campo e o ataque vez por outra é que criou alguma situação perigosa, pois só recebeu bola quebrada.


Mas isso não quer dizer que todo grupo seja tão desqualificado, o que há, em vários casos é uma falta de confiança muito grande, ditada pela desordem de atitudes. O Bahia atual erra em suas iniciativas, estrangula-se em sentimentos internos da diretoria, acomoda-se entre os torcedores, como este rapaz que falou na rádio, que em lugar de enxergar os motivos verdadeiros da insistente má fase, preferem culpar uma imprensa que apenas está sendo coerente com o quadro que se desenha.


Ou se tem a humildade de parar e acertar as coisas ou voltar à primeira divisão vai continuar sendo apenas um sonho e insistindo que a imprensa seja a maior culpada.

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