DESLIZES E INCOERÊNCIAS
Enquanto ainda é tempo de se corrigir os desníveis e desencontros, disparo o meu sinal de alerta. Não posso entender como o Vitória esteja tão bem administrado, a ponto de uma revista o colocar entre os cinco minguados clubes dos 40 das duas divisões principais que pagam salários em dia, que não andam tomando antecipações das cotas de televisão e que não fazem investimentos acima de suas possibilidades reais. E, de repente, leio e ouço notícias de que o rubro-negro só quita os salários dos jogadores que estão sendo utilizados por Paulo César Carpegiani.
Não posso entender, também, como é que o Bahia anda sonhando em voltar à primeira divisão, com tantas divergências entre o presidente Marcelo Guimarães Filho e o gestor de futebol profissional Paulo Carneiro, a ponto de agora mesmo haver notícia de que o diretor proibiu a entrada do empresário Orlando da Hora no Fazendão e o presidente disse que Da Hora pode entrar no clube e agilizar transações quando bem quiser e entender.
No primeiro caso, os dirigentes do Leão têm uma forte obrigação de dizer o que realmente acontece, porque não é justo esse negócio de uma empresa escolher os empregados que devem e os que não devem receber salários. O espírito de uma empresa deve ser único, sem discriminação de trabalhadores. Porque, desta forma, não pode haver unidade de pensamento, nem de propósito nem de objetivo. Empresa que paga a uns trabalhadores e deixa outros chupando o dedo é empresa que acaba falida e desmoralizada. Porque um mal está ficando sempre muito explícito: os que não recebem reclamam e os que recebem passam pelo constrangimento de saber que outros companheiros estão passando privações e necessidades. Nem botequim de esquina deve utilizar-se desta prática mesquinha e condenável, porque quando se contrata alguém para o trabalho o compromisso sagrado do patrão é quitar salários ao final de cada mês.
No segundo episódio, não me venham colocar panos quentes, que não aceito. Toda vez que surge uma notícia de desencontro no Fazendão entre Marcelinho e Carneiro, o presidente, ao ser consultado, simplesmente nega a força da atitude do seu gestor – e isso é o mesmo que pretender manda-lo embora, só que parece estar amarrado aos valores da indenização. Os exemplos têm se repetido: é jogador que um diz que não contrata e o outro manda vir; cobrança de ingressos para crianças que acaba sendo encontrada uma solução aparentemente saneadora; gente que não deve entrar no clube e que acaba tendo trânsito livre. Estes desencontrados capítulos já estavam escritos desde que PC foi contratado, ainda com a maioria dos torcedores festejando, porque, pelo que sei, ainda não foi encontrada uma fórmula eficiente para se misturar óleo com água, já que na rivalidade local um torcedor fanático de um não pode ter grande sucesso trabalhando no outro. Suas atitudes estarão sempre sob suspeita e passíveis de recriminações.
Aliás, ainda sobre o Bahia, acho que um clube que está tentando encontrar os caminhos mais práticos para voltar ao futebol de elite, já fazendo seis anos de grande agonia, não pode, ao mesmo tempo, estar questionando sobre métodos de eleições, sobre quem é democrata quem não é, essas coisas de campanhas eleitorais. Tem sim que pedir um tempo, cuidar do futebol com zelo e competência, sem tantas desavenças, para, depois, definir metas e métodos de eleições, que ainda vão acontecer daqui a dois anos.
Tanto na Toca quanto no Fazendão, já parece coisa feita com bode preto em encruzilhada: como se não bastassem as dificuldades contra adversários fortes e competitivos, ainda tem que enfrentar competições internas e deslizes administrativos.
