AS RAZÕES DO CORAÇÃO
Edson Almeida
Saí no início de tarde da segunda-feira, passei na farmácia, no supermercado e na casa lotérica de meu bairro e entre a alegria de rubro-negros exibindo suas camisas de números usados por Ramon, Apodi, Neto e Vanderson e a natural apatia dos tricolores, constatei várias razões dos torcedores, todas elas ditadas pelo coração, no que resulta em uma atitude literalmente emocional.
A razão verdadeira e universal é aquela filtrada pela faculdade de raciocinar, a que encerra juízo e bom senso sobre as coisas e os fatos; a emoção, não. Nada mais é do que uma reação da sensibilidade – e eu diria mais: é uma espécie da razão construída pelo coração, sem a frieza de um cérebro que pensa, mas o pulsar de um coração que ama.
Encontrei a tricolor Zuleide, bem na porta da farmácia e ela me disse: “estávamos com o título ganho quando terminou o primeiro tempo, pois fizemos os dois gols que precisávamos, mas, no segundo tempo, aconteceram coisas que ainda não consigo entender”. Aí o David, fiscal de supermercado, foi chegando e falou que “só parece coisa feita, porque jogamos o melhor futebol já visto em todo campeonato naquele primeiro tempo, deixamos os rubro-negros atônitos, mas, depois, tudo desandou como que num golpe de mágica”.
O Lázaro se contrapôs dizendo que “coisa feita ainda está a caminho, pois uma vidente já disse que o Bahia só conquista um título e volta à primeira divisão agora em 2024”.
Já dentro da loja, na seção de eletrodomésticos, todos chegávamos para perto de uma televisão dessas de tela de plasma bem grande e a simpática apresentadora comentava que “o Bahia estava campeão, mas acabou cedendo o título ao Vitória, facilitando para o adversário no segundo tempo”. Foi quando um jovem mancebo, de vermelho e preto da cabeça aos pés, gritou, revoltado: “Engraçadinha, parece até que o favorito era o Bahia e que estava podendo até perder de um gol de diferença!”. E continuou reclamando: “O certo seria dizer que o Vitória conquistou mais um título, o tri, e não que o Bahia perdeu a taça”.
Sempre que me vejo nestas situações e quando a torcida me reconhece e pergunta qual o meu ponto de vista, uso da velha estratégia chinesa de que “pode ser que sim, pode ser que não”. Aliás, é o melhor remédio para se responder a torcedores eufóricos, inconformados ou mesmo indiferentes. Porque eles perguntam, mas já escolheram as respostas.
- Foi ou não foi, Almeida? – indagou-me um repositor de enlatados e temperos. - Foi o que?
- Aquele terceiro gol do Reinaldo...
- E teve terceiro gol?
- Aquele que ele quase fez, mas chutou em cima do Viáfara. Se entra, seria 3x0 e não tinha tricampeonato certo para o Vitorinha.
- É, pode ser que sim...
- Não, não foi não. Se o Apodi tivesse convertido aquela chance que bateu na trave, já teríamos colocado uma boa vantagem no início do primeiro tempo! – gritou um senhor de meia-idade que já estava passando as compras no caixa.
De fininho, fui à casa lotérica e a confusão continuou, com a atendente, rubro-negra fanática, gritando que “dizem que eles viravam jogo, ganhavam decisões perdidas, mas de uns oito anos pra cá quem faz isso é o meu Vitória”.
- Seo Edson, o senhor não acha que o Vitória deixou o Bahia fazer aqueles golzinhos só para dar mais brilho à decisão?
- Bem, é que...- nem cheguei a completar quando uma senhora, na mesma fila de velhotes onde eu estava, completou: “É que o Bahia já ganhou tanto título estadual, que a gente até facilita a coisa para esses sem-estrelas no peito!”
- A gente pode ser sem-estrelas, mas vocês são sem-teto, porque até onde jogam não lhes pertence – contra-argumentou um jovem que passava vendendo picolés.
De tudo mesmo, ao voltar para casa, alinhavei um pensamento que me parece muito racional. Pode até ter emoção no meio, porque quando se trata de futebol tudo que a gente diz ou escreve pode e deve ser questionado, porque uns concordam e outros contestam.
Mas que esta decisão, com este tri do Vitória, com esta quase conquista do Bahia e com tanta polêmica nas ruas e na imprensa, marca história, isso marca. Porque o clássico nunca mexeu com a emoção e nunca exigiu tanto exercício para se encontrar a razão como terminou em 2x2, com o tricolor campeão no intervalo e o rubro-negro tri após os 90 minutos.
