AS LIÇÕES DO CLÁSSICO
Quando cheguei ao Roberto Santos tive a impressão de estar escalado para comentar um jogo do velho e imbatível Bahia contra o fraco e bombardeado Redenção.
Companheiros de todos os lados, tricolores ou rubro-negros, faziam diagnósticos muito sombrios para o Vitória, a maioria até achando que o título seria definido naquela mesma tarde. No saguão do setor de imprensa, enquanto eu tentava colocar a minha modesta opinião diante do conselheiro tricolor Geraldo Brasil, uma pessoa que prezo muito, argumentando que era preciso ter prudência diante desta nova decisão, ouvi um dos diletos colegas dizer, protegendo a boca com a mão como quem fala em off, que o time de Alexandre Galo "ia dar um vareio".
Justifiquei que não era o que eu pensava, pois, apesar de merecidas críticas nos dois jogos da semifinal, contra o Atlético, o Vitória ganhou com os mesmos escores do Bahia contra o Fluminense (2 x 1 e 3 x 1), sem precisar de muito esforço - e que a sua melhor campanha (mais pontos, mais vitórias, defesa menos vazada, artilheiro isolado da competição, um saldo de gols extraordinário), já recomendava cautela e respeito.
Aí apareceu outro e disse que "nem sei porque esse tal de Neto marcou 17 gols, porque é um peladeiro que se atropela nas próprias pernas". Veio um terceiro e falou que "ademais, com o Bahia campeão, o futebol baiano vai ganhar um novo colorido e mais sentido para a imprensa trabalhar".
Atônito e até um tanto escabreado, coloquei a viola no saco e fui até a cabine da Itapoan FM, onde o operador ansioso já me esperava para os primeiros testes da transmissão. Sinceramente fiquei a pensar que, talvez, eu estivesse desatualizado, insistindo neste negócio de que em clássico, principalmente dentro do histórico que os dois clubes construiram no campeonato, a melhor receita para um cronista equilibrado é sempre dizer que tudo pode ser resolvido nos mínimos detalhes e que, portanto, não havia favoritismo.
Eu acho que exagerei quando disse que Paulo César Carpegiani cometia a imprevidência de escalar dois jovens valores (Wallace e Victor Ramos) em uma zaga de jogo de decisão, por causa da ausência forçada do excelente Anderson Martins, portador de uma lesão na perna. E que a outra alteração (Luciano Almeida no lugar de Bosco) era um lamentável equívoco. Seguramente porque fui para a cabine influenciado pelo bombardeio de opiniões sempre muito pessimistas sobre as chances do rubro-negro, pois também não sou de aço. Aliás, nem o lamentável empate com o Coritiba, que valeu a desclassificação da Copa do Brasil, nem umas outras três sofríveis apresentações em jogos do estadual, tiravam, antes do clássico deste domingo, a euforia de uma invencibilidade do Bahia em seu mando de campo, cantada e enaltecida sob o som das clarinetas do "já ganhou!". Os mais afoitos diziam "dá logo a taça pro Tricolor, porque vai ser de goleada!".
Nada disso aconteceu. O Vitória começou pressionando, jogando com personalidade, criou duas boas chances, uma delas anulada milagrosamente pelo goleiro Fernando - e logo, aos 13 minutos, já estava inaugurando o placar, em certeiro cruzamento de Apodi e firme cabeçada de Ramon Menezes, com os dois acabando por ser os maiores astros do espetáculo.
O Bahia não foi acomodado, teve seus momentos de lucidez e assédio, chegou ao empate, mas foi um jogo em que o seu rival levou para campo algumas decisões muito importantes, que só um cara experiente como o Paulo César Carpegiani pode determinar: que seria melhor entrar com dois jovens na zaga, porque eles já se conhecem há muito tempo, desde os times juvenil e júnior; que a manutenção das vantagens teóricas só poderiam se configurar na prática de um futebol agressivo - e que o contragolpe seria a arma fundamental para ganhar o jogo.
O Bahia caiu na armadilha do nó tático. Alexandre Gallo levou a filosofia de que o seu time poderia ganhar tocando, chegando com a bola dominada, entrando na área rubro-negra para desferir golpes fatais. E o Vitória, que parecia fazer ligação direta, é justamente porque tinha a experiência de Ramon, a elasticidade de Bida e Jackson, a velocidade infernal de Apodi e a luta incansável deste tal de Neto Baiano, que não é apenas um goleador, mas que se transforma, também, em um incansável marcador. E como os meninos da zaga deram conta do recado e ainda tinham Vanderson e Viáfara como grandes mestres, o triunfo foi merecido, o gol de pênalti aconteceu em momento importante - início do segundo tempo -, desarticulando completamente o dono da casa.
Agora, cabe uma pergunta que todos esperam: o Vitória já é o tri-campeão? Nada disso, o Bahia não morreu, está mais vivo do que nunca, só precisa que o seu técnico o oriente para não cometer os desvarios que já ouvi sair da boca de alguns ilustres torcedores. De que é só atacar em massa que a situação será revertida. Isso pode dar chances aos perigosos contra-ataques de Apodi, Neto e Jackson.
O título continua em aberto, vai ganhá-lo o time que for mais prudente em suas ações. E prudência neste caso não significa cautela exagerada, nem jogar na defesa. Vai ser necessário dosar o jogo, saber a hora certa de se aproveitar do detalhe.
Porque o primeiro clássico foi cheio de lições para os dois times e para nós (afoitos e moderados) que formamos a opinião diante da grande e fanática platéia do Ba-Vi.
