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Coluna

CÃO DANADO

Foi o saudoso Elba de Pádua Lima, o velho e sábio Tim, quem me explicou certo dia esse negócio de time de futebol também se assemelhar a cão danado, em que cada lance é um obstáculo, cada dia é uma eternidade de problemas.
O Bahia há alguns anos tem transitado neste hálito de cão danado.  Parece que tudo é realmente contra ele, até mesmo quando faz uma gracinha ou se assanha em um jogo, vem o juiz ou o bandeirinha e coloca tudo a perder.
Todos sabemos que o Bahia tem errado muito em vários fundamentos: falta de planejamento, contratações em excesso e de pouca qualidade, expectativa exagerada, intriga e conflitos entre torcedores e dirigentes, exagero em expectativas que não se confirmam – uma série de mazelas que só podem ser justificadas pelo resgate da imprudência e da crença de que sempre só se acreditou na força da torcida. Porque foi sempre assim, desde os tempos de Osório Vilas Boas, e ainda agora, passando por Paulo Maracajá e Petrônio Barradas, o Bahia não criou alternativas para ter os recursos necessários para enfrentar os rigores inerentes de um futebol cada vez mais globalizado e competitivo.
Mas voltando ao exemplo dado pelo velho Tim, um time entra na fase do cão danado quando tudo lhe parece impossível, quando as coisas fáceis se lhe dificultam a vida de tão maneira que chega a ser impossível uma justificativa mais prática.
 Já falei de vários problemas que levam o nosso bicampeão brasileiro a tantos desencontros e desacertos, mas há jogos em que tudo começa bem, parecendo haver sido reacendida a velha mística de que “nasceu para vencer” e, de repente, um balde de água fria sobre a fervura de uma luta que se torna insana e inconseqüente. Lembram-se do jogo contra o Corinthians? E deste agora contra o São Caetano?
Em ambos os jogos, o Bahia até que começou ciscando bonitinho, partindo pra cima, buscando o gol, dando a impressão de que poderia alcançar alguma coisa de positivo. Em Feira, foi assim: em cima, em cima, em cima, e quando o Corinthians chegou à frente, nem precisou se aplicar muito e fez o primeiro gol. Depois, o segundo, mais tarde, o terceiro – e tudo terminou parecendo um treino de luxo, com estádio cheio, aliás, a única vez que o Jóia esteve lotado, embora o borderô de 11.000 torcedores tenha sido uma decepção.
Contra o São Caetano foi praticamente a mesma coisa – só que, depois de haver dado a falsa impressão de que poderia ter chegado a um bom resultado e levado dois gols, o Marcelo fez um gol que o bandeira achou de anular e o árbitro fez vistas grossas. Havia uns dois tricolores atrás da zaga, mas Marcelo veio de trás, em condições inteiramente lícitas para golear. Dois dias antes, um lance bem parecido no jogo do Vitória contra o São Paulo, árbitro e bandeirinha não tiveram um mínimo de dúvida e deram o gol.
Não se trata de desculpa, até porque já externei a opinião, há várias rodadas, que o Bahia não tinha mais condições de se classificar entre os quatro. Mas que aquele gol mal anulado fez falta e poderia ter alterado o resultado do jogo, não tenho a menor dúvida.
A solução agora, para o Bahia deixar de ser novamente um cão danado na próxima temporada, depois de lutar com brios nestas rodadas que restam para não cair de divisão, é planejar tudo certinho, não prometer muito aos seus torcedores e trabalhar com critérios verdadeiramente profissionais.
Porque o pior de tudo, conforme me explicou o velho Tim, é quando um time se torna cão danado e insiste em cometer os mesmos erros, colocando-se como vítima da fatalidade.
Aí não há mesmo jeito de se reerguer.

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