ROLETA RUSSA
A demissão de Artuzinho e a contratação de Roberto Cavalo são mais uma tentativa do Bahia, que volta a dar o exemplo de quem, desesperado, joga constantemente na loteria para ver se a sorte grande lhe tira do sufoco.
Que a situação de Artur era insustentável todo mundo sabia, não por causa dos resultados obtidos, porque nos 16 jogos que comandou a equipe neste Brasileiro da Série B; venceu seis, empatou sete e só perdeu três vezes. Diante das dificuldades de um grupo muito carente, foi sempre um profissional exageradamente estressado, mostrando-se não raras vezes descontente com a estrutura do clube e, portanto, com os seus dirigentes.
O que qualquer crítico questiona é o fato de Arturzinho haver voltado, depois de outro grande desencontro com a diretoria, após sua passagem anterior, quando levou o time a subir da Série C para a B. Sua saída foi traumática, porque até dizem que os dirigentes, porque já estavam com a paciência esgotada, armaram uma cilada e o técnico caiu. Pediram-lhe uma proposta, que simplesmente foi considerada exorbitante e inviável. Na verdade, o treinador realmente era bem mais nervoso naqueles tempos, arengando com jogadores, dirigentes, torcedores e os mais afoitos da imprensa, todos os dias.
A volta foi surpreendente, nenhuma pessoa de juízo no lugar poderia esperar por essa. Afinal, uma semana antes o diretor Ruy Accioly dizia, em Feira, que estava muito satisfeito com Paulo Comelli, um mestre do comando técnico. E quando as coisas começaram a ficar nubladas, Comelli foi mandado embora e Arturzinho anunciado.
Quem disse como eu que seria uma questão de pouco tempo, que o campeonato não acabaria sem que Artur voltasse a ser mandado embora, só errou na questão do tempo, porque ele até que se demorou: 16 jogos! Mas, com um grupo fraco, suas críticas eram expostas ao público, voltou a ter vários problemas com jogadores e não teve jeito mesmo.
Se tudo isso é uma verdade inquestionável, o que não se pode concordar é com o fato de Arturzinho, que agora já está indo embora (e toda ausência é atrevida), esteja sendo acusado dos lamentáveis lances de violência, ocorridos na quarta-feira passada, no CT tricolor, quando um magote de torcedores inconseqüentes e irresponsáveis tomou de assalto o ambiente de trabalho e só não houve uma tragédia de irremediáveis proporções por obra e graça de um bendito milagre.
Ouvi um torcedor, que pode até não ter sido culpado, informando de forma sorrateira e vilipendiosa, que os cabras valentes foram ao Fazendão com a intenção pacífica de exigir mais empenho e respeito ao glorioso clube de jogadores que estavam exigindo “prêmios milionários” para ganhar do fraco Gama, que acabou empatando. Mas quando lá chegaram, os ordeiros tricolores tiveram que enfrentar os insultos do técnico e aí “ninguém é de ferro e o pau quebrou”.
Falácias, prosopopéias, paladoxias mentirosas... Todos vimos, porque a TV mostrou, rapazes sarados, de bermudas, porretes e rojões nas mãos, invadindo o CT, por uma estradinha que até dava a forma de fila indiana, batendo no peito e gritando que queriam respeito e “eles agora vão ver o que é bom pra tosse”. E aí já entraram no campo quebrando o pau da bandeira tricolor.
Querer agora imputar toda responsabilidade ao treinador é o mesmo que exercitar aquela máxima de que “um cão danado, todos a ele”. E isso me causa repulsa, inclusive a parcimônia de alguns companheiros da imprensa que, ao ouvirem coisas assim, simplesmente pulam para outro assunto, sem qualquer tipo de contestação. Portanto, as coisas devem ser colocadas nos seus devidos lugares.
Porque esta mudança pode dar em morte ou em vida maravilhosa, já tudo que se tem feito no Bahia ultimamente é um insistente jogo de loteria. Aliás, uma permanente roleta russa.
