Turbilhão Feminino: 'Sou repórter de esportes, sou mulher e mereço ser respeitada'
Hoje o Turbilhão Feminino vem através deste espaço falar um pouco sobre o assédio sofrido pelas jornalistas, em especial aquelas que fazem coberturas esportivas. Na última quarta-feira, feriado de 7 de setembro, a repórter Jéssica Dias se apresentava em mais um link ao vivo pela ESPN Brasil. A chamada era para mostrar a animação dos torcedores do flamengo antes do jogo contra o Vélez Sarsfield, da Argentina, valendo uma vaga na final da Copa Libertadores da América.
Antes de terminar sua fala, ela foi surpreendida por um dos torcedores do flamengo que a beijou no rosto, sem seu consentimento. Visivelmente incomodada com a situação, Jessica mudou o semblante de contente para séria.
O homem, identificado como Marcelo Benevides Silva, foi denunciado pela equipe que acompanhava Jessica e foi levado para a delegacia do Estádio Maracanã. Renato Rodrigues e Marcela Rafael, apresentadores do "Sports Center", indignados com a cena, prestaram solidariedade à colega, chamando o flamenguista de “palhaço” e “idiota”.
Em depoimento pelo Instagram, Jéssica informou que o assédio começou antes de entrar no ar, com xingamentos e gritos porque o ao vivo estava demorando pra entrar no ar. "Antes tiveram muitos xingamento e importunação porque o "ao vivo" demorava. Pedi calma e para que não ficasse xingando, não precisava. Vieram os “pedidos de desculpa” com alisamentos nos ombros e um beijo no local", disse.
Após mais uma tentativa de beijo no ombro, negada por Jéssica, o assediador foi chamado atenção pelo câmera que estava junto com a jornalista. Ao entrar ao vivo, ele retornou e beijou a repórter no rosto. "Eu sofri importunação sexual enquanto trabalhava e isso é crime." disse Jéssica.
“É, eu sei o que é porque já passei muito por isso”, lamentou Marcela Rafael. A fala da Marcela Rafael é mais comum do que pensam, pois esse caso de Jéssica não é isolado. Não é apenas "Mi, mi, mi".
Pesquisa de 2019, feita pelo Coletivo de Mulheres Jornalistas do Distrito Federal, revelou que 70% das jornalistas já sofreram assédio sexual durante o trabalho. Essa pesquisa baseou-se em entrevistas profundas com 32 jornalistas de mídia impressa e televisiva nos Estados Unidos.
Aqui no Brasil, algumas já passaram por tal situação. Como a repórter Júlia Guimarães, da TV Globo, que foi assediada enquanto cobria a Copa do Mundo da Rússia, em 2018. Na época, ela tentou desviar de um torcedor que tentou beija-la ao vivo, antes do jogo entre Japão e Senegal. Na época, Julia reagiu a situação, reclamando com o rapaz que ele não tinha o direito de fazer aquilo. Mas, a grande maioria das jornalistas acaba mantendo a postura e da continuidade ao trabalho mesmo após passarem pelo constrangimento. Como a jornalista Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, que em março de 2018, foi beijada à força em meio à torcida do Vasco.
"Senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, metrôs, ou até mesmo andando pelas ruas. Um beijo na boca, sem a minha permissão, enquanto eu exercia a minha profissão", escreveu na época. "Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada", concluiu.
É corriqueiro o tom arredio e de deboche quando fazemos ou reclamamos de algo, é o tal: “Mulher quando reclama assim, é falta de sexo”, “Reclama demais porque está na TPM”. Ou a tal “Nossa! Ela fala fino demais”.
Esse é o tom da voz dela. Será que o incomodo é sobre ela falar “fino demais” ou o fato dela ser mulher? Qual a dificuldade de assimilar que mulher também assiste futebol e pode falar sobre futebol.
Geralmente, os homens gostam de se sobressair mais do que as mulheres, em qualquer situação. Fernanda Barros, editora chefe do Turbilhão, já ouviu muitos questionamentos como esse: "Isso aí que você vai fazer vai ficar estranho, o povo vai questionar”.
O nosso trabalho é sempre colocado a prova. Sempre! Não importa o quanto a gente estude, se dedique e se esforce. O sexismo vai assombrar nosso dia a dia eternamente.
Sabe qual é o problema do fato ocorrido no dia 7? Para as mulheres, o incomodo de, mais uma vez, serem incomodadas sem nem ao menos terem consentido o ato. E para os homens, o fato de terem sua atitude questionada, afinal aos homens foi dado (historicamente) o “direito” de fazer o que querem e bem entendem.
Quantas mais precisam passar por isso? O que precisamos fazer para sermos respeitadas em nosso ambiente de trabalho?
Lamentável, que ainda hoje, um ato não consensual contra uma mulher seja questionado, seja ele qual for. Enfim... bola pra frente!!
