PLURALIDADE DE IDÉIAS
Por Edson Almeida
Engraçado o e-mail que recebi de um torcedor, que se assina como justiceiro@uol.com, em que ele me elogia, colocando-me em um pedestal tão alto, mas que, depois me aplicando uma rasteira, a queda acaba sendo realmente de arrebentar todos os ossos da coluna, pretendendo deixar-me completamente paraplégico. Diz o mancebo, de forma traiçoeira: “você é tão eficiente e válido que, já sexagenário, ainda fala e escreve dentro de uma linguagem moderna e atual. É pena que, ao morrer, tenha que enfrentar muitas dificuldades para encontrar o caminho do Céu, porque destino de rubro-negro é o mármore fumegante do Inferno”.
Que sentença mais totalitarista, desumana e fatal! Esse cara, que pode até estar brincando, mostra ser, em sua pilhéria ou em sua maldita verdade, terminantemente contra o pluralismo ideológico, a sociedade diversificada, a liberdade de pensamento e o sagrado direito do livre-arbítrio das pessoas. E vou mais adiante: é mais do que provável que ele seja contra, literalmente contra, o princípio cristão de “amar ao próximo quanto a si mesmo”. Graças a Deus, desde a minha infância, sempre soube respeitar e defender a existência e os direitos dos que pensam diferentemente, portanto, mesmo sem um conhecimento mais profundo, já trouxe no íntimo, seguramente por herança familiar, os valores de uma sociedade pluralista, que admite e estimula as divergências. De natureza política, social, jurídica, ideológica ou econômica, e neste caso, amigo “justiceiro”, os confrontos esportivos, até porque sem eles o esporte, cuja essência é competir, não teria sentido.
Aliás, a democracia me parece a maior arma de todos os homens inteligentes e de bem, pois ela é instrumento imprescindível para que pessoas de mentes sadias respeitem os direitos e as tendências das outras pessoas. E mais: a sociedade pluralista é a mais apropriada para o desenvolvimento integral dos homens.
Você, que se esconde em uma assinatura eletrônica, é, acima de tudo, um prepotente, um obtuso, um déspota, e, por conseqüência dessas coisas, um covarde. Seus elogios me pareceram o molhar de veneno mortal de víboras peçonhentas e repugnantes.
Qualquer um pode ter preferência por um clube até que não seja o mais idolatrado, o campeoníssimo e o que represente a maioria absoluta da preferência popular, mas sempre deve trazer em seu temperamento a certeza de que, no esporte, é esta diversidade que o torna competitivo e atraente. Portanto, sempre agindo assim, como torcedor ou cronista, com o máximo de respeito ao tratar sobre todos os clubes, com reconhecida isenção que, conforme você mesmo reconhece, ainda me proporciona desfrutar de grande conceito na minha sexagenaridade.
Ao longo de minha profissão jornalística, “justiceiro”, eu sempre soube fazer amigos tricolores, rubro-negros, azulinos, alvinegros, todos grandes e leais amigos, porque nunca os vi nem os qualifiquei pelas cores, mas pelos seres humanos que são, todos meus semelhantes e fraternos irmãos.
Certamente você não pode desfrutar desta felicidade. E sabe por quê? Porque só experimentam destas amizades sinceras pessoas que adotam a democracia como um sistema de vida. Atente para este aspecto, que é imprescindível: a democracia não se caracteriza exclusivamente por se viver em um regime democrático; ela se caracteriza essencialmente pelo fato de se vivenciar o seu verdadeiro sentido, através de participação efetiva.
E você mostra, como principal marca de sua personalidade, o amargor de quem é indiferente a esses princípios tão elementares, explicitando uma alma seca e um caráter muito infeliz.
Eu tenho muita pena de você.
