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Coluna

Democracia e futebol

Por Éder Ferrari

Ainda não havia ido à reinaugurada Fonte Nova. Em menos de uma semana fui duas vezes. Na primeira, o deslumbramento pela grandiosidade do estádio, foi apagado pelo patético arremedo de pessoas que corriam atrás da bola representando, supostamente, o grandioso Esporte Clube Bahia. Ali, era algo miúdo, pífio! Bem diferente das feições que vi na segunda visita a praça esportiva. O movimento “Bahia da torcida” conseguiu colocar aproximadamente seis mil pessoas nesse primeiro encontro. Não me pareceu ser um grupo puramente oposicionista e sim uma verdadeira união tricolor. Foi realmente um ato bem legal e que ajudou a recuperar um pouco da perdida alma do Esquadrão, aos torcedores presentes. Me emocionei ao ver Paulo Rodrigues, o mito!
 
Como sou chato, faço ressalvas. Tenho pavor a qualquer envolvimento político em um clube de futebol. Paulo Maracajá, Marcelo Guimarães, Marcelo Guimarães Filho, Eurico Miranda, Zezé Perrela, Roberto Dinamite, Patrícia Amorim, entre outros, já provaram que não se pode misturar as duas coisas. Ou se é A ou B. Deveria existir até uma lei federal que proibisse isso. São cargos que exigem dedicação total! É óbvio que um movimento para mudar uma dinastia precisa de força política nos bastidores. Não sou ingênuo. Todavia, discursos acalorados com postura de palanque me assustam.
 
Abertamente, ninguém se candidatou ao cargo de Marcelo Guimarães Filho. Acho interessante essa cautela. Não se pode esgotar tudo de uma vez. Correria o risco de esvaziar o movimento e criar, antes da hora, um mero confronto político. A situação procuraria atacar essa pessoa de todas as maneiras e, com força de uma parte da mídia, tentaria diminuir e ridicularizar o adversário. Debate de ideias para o crescimento do clube passaria longe. Não seria a primeira vez. A época da intervenção que o diga. Pareceu um grupo organizado, mesmo surgido da insatisfação. Dessa maneira é sempre interessante e digo até fundamental, para um processo transitório e de recuperação. As propostas apresentadas são as únicas possíveis no momento: democracia clara e transparente e renúncia da atual diretoria.
 
O movimento é forte e deve existir sempre, independente de quem esteja comandando o clube, porém, não acredito que atingirá o objetivo inicial. Marcelo Guimarães Filho está entre a cruz e a espada. Mês que vem volta à suplência de Deputado Federal. Alguns dos parceiros políticos têm debandado. Difícil imaginar que consiga ser eleito Deputado ano que vem. Dentro do próprio clube, o grupo dos Guimarães parece isolado. E é justamente por essas questões que não vejo chance alguma de renúncia. Seria abraçar um ostracismo e uma perda de poder e barganha que não passa pela cabeça do presidente. E ele acredita ter condições de reverter o quadro desfavorável. Para ele deixar o cargo, só via intervenção. Deixar de ser o “presida” de vontade própria é praticamente impossível. E ele já deixou isso claro.
 
Dentro de campo
 
Sei que muita gente acha não ser algo importante nesse momento. Desculpem-me se os ofendo, mas é uma tremenda demagogia. Não consigo entender esse pensamento apocalíptico de que o mundo tem de acabar para ser reconstruído. O futebol não pode ficar de lado. Afinal de contas é lá que estão os finalmentes de todo processo administrativo do clube. Torcer por um campeonato 7x3, 5x1, para justificar e contribuir à queda da diretoria é um ideal tão pequeno quanto o que está sendo questionado. Sei, por exemplo, que o movimento “Bahia da torcida” concorda com meu pensamento. A marca do clube seria devastada. Torcedores sofreriam de maneira absurda. A chacota atingiria limites de pena. A paixão seria questionada. O bom senso e o bem comum têm de ser sempre levados em conta. Com ou sem MGF.
 
Apesar de ter achado uma atitude patética e até burra do presidente, em ter convocado uma entrevista coletiva justamente no horário da manifestação, gostei dos nomes apresentados, principalmente do técnico. Cristóvão Borges é um cara sério, educado, respeitador, que conhece muito do riscado e ganhou muita experiência, para o bem e o mal, na única passagem no cargo de treinador, no Vasco. Formado nas divisões de base do Bahia, foi ídolo da torcida no final da década de 1970. Tem identificação e amor pelo clube. Alguns questionam se tratar de um novato, que não saberia lidar com jogadores problemáticos. Não concordo.
 
No Vasco, fez um time com nomes do calibre de Felipe, Juninho Pernambucano, Diego Souza, Alecsandro, Éder Luís e Dedé, jogar com uma dedicação absurda. E era muito organizado taticamente. Bateu o recorde de permanência no G4 da Série A na era dos pontos corridos. E tudo isso sendo campeão da Copa do Brasil (era auxiliar de Ricardo Gomes na época), já com vaga garantida na Libertadores e com dois ou mais meses de salários atrasados. Para mim, pelo menos em projeção, tem o perfil ideal para assumir o Bahia. Agora, se dará certo ou não, dependerá e muito da reformulação que farão no elenco. E ela tem de ser total no alto escalão do grupo. Só deveriam ficar os meninos e mais uns três ou quatro e olhe lá.
 
E quem ficará encarregado disso é o novo gestor, Anderson Barros. Com ele, deverá chegar o ex-zagueiro William, que trabalhou pouco tempo no Corinthians, mas é um cara preparado. A junção dos dois deverá fazer o departamento funcionar melhor do que com Paulo Angioni, apesar de Barros ter perfil parecido. Só parece mais atualizado. Pesquisei um pouco sobre Anderson e chegaram informações boas e ruins. Boa parte dos que conhecem o trabalho dele, deram a ele fundamental importância na formação do atual time do Botafogo. 
 
Gosta de trabalhar com grupos pequenos, o que abre espaço para divisão de base. William seria o cara mais próximo aos jogadores. Além da experiência da época de atleta, estudou muito para trabalhar nessa função. Ambos têm algo para se elogiar e questionar. Cautela é importante, mas são profissionais. O Bahia não poderia ficar a mercê de amigos do presidente, como ocorreu no período pós Paulo Carneiro e pré Angioni. 
 
Teoricamente, o desenho da organização do futebol parece interessante. Dando valor aos jogadores da base Omar, Madson, Lucas, Erick, Feijão, Anderson Melo, Lenine, Talisca e Ítalo Melo, nesse primeiro momento, e trazendo atletas compromissados, em forma e com o crescimento da carreira como objetivo, dará tempo de recuperação depois da parada para Copa das Confederações. Se a democracia de fato e direito precisa ser instalada para ontem no clube, as humilhações e o rebaixamento no horizonte do Brasileiro precisam ser evitados. Com ou sem MGF.

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