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Coluna

O RISCO DA FATALIDADE

Não faz tempo, em minhas meditações, pus-me a questionar esse negócio de fatalidade. Dois irmãos e um sobrinho queridos – Tereza, Zé Francisco e Delson -, sentiram uma dor no ombro, suspeitaram de bursite, aquela dor chata que a gente sente no topo do ombro, quando estende o braço literalmente ou quando o volta para a palma da mão. Os três, em um espaço de um ano – sorridentes, aparentemente sadios e com a vida rigorosamente em dia, sem dever nada a ninguém e sem remorsos de convivência afetiva ou amorosa -, foram a uma clínica, o médico disse que era coisa boba, receberam um analgésico, voltaram para casa pela última vez.
Aí a minha sensibilidade espiritual passou a questionar uma série de fundamentos sobre os riscos da vida atual: a poluição, os venenos despejados no ar que respiramos, as viroses, os agrotóxicos que são verdadeiros venenos na alimentação, a violência urbana e rural, a insegurança do transporte aéreo, as estradas mal sinalizadas e cheias de buracos, a imprudência de uns, a ignorância de outros, o constante risco da fatalidade.
A vida em si é um risco constante da fatalidade, que nada mais é para os espiritualistas do que o destino inevitável de cada um, pois a fatalidade se opõe à liberdade que não temos e pensamos ter, porque não temos certeza do que será o dia de amanhã, a próxima hora, o minuto e os segundos seguintes. E em se tratando de seres humanos ou seres vivos, a morte é uma conseqüência inarredável, tanto a natural quanto a desastrosa.  Uma tanto outra não são aceitas, porque a gente perde pessoas queridas, que muito representam para nós individualmente ou para a sociedade.
Esta tragédia que levou o ex-árbitro Lourival Dias Lima Filho está deixando essa sensação de vazio, de uma profunda angústia nos que, como eu, conheceram-no na atividade de sua profissão ou mesmo privaram de sua amizade. No meu caso, só em 2006, em uma viagem a Ilhéus, naquelas decisões de turnos estaduais entre Vitória e Colo-Colo, é que o Márcio Martins fez uma apresentação, até em tom de pilhéria, dizendo que eu o havia crucificado, com críticas pesadas, porque ele deixara de marcar uma meia dúzia de pênaltis. Ele, mostrando uma esportividade extraordinária, pediu-me que relembrasse os lances, como quem quisesse aprender alguma coisa a mais do que ele já sabia tanto e eu um simples leigo com um microfone na mão. “Brincadeira do Márcio, Lourival, sua arbitragem foi excelente!”  De lá até este trágico acidente, nunca me perdeu de vista, todas as vezes que estivemos trabalhando no mesmo jogo. Atencioso, simples, educado, um cara que sempre transpirou a certeza de ter consciência de seu valor, de ser famoso, competente e festejado, mas nunca arrogante ou prepotente.
O problema é que, aos 45 anos, com tanta coisa a fazer ainda, Lourival morreu. Já ultrapassei vários obstáculos e muitas curvas perigosas, uma reta aqui, outra ali, montanhas íngremes, terrenos baldios e solitários, ondas elevadas, ventos fortes, tempestades, areias movediças.  E sempre Deus me deu uma inexplicável força de superação. Mas o que ainda não sei entender é esse negócio de perder pessoas queridas e que realmente são muito úteis em sua sociedade.
Talvez seja mais certo continuar me aplicando para aceitar que isso aqui é apenas uma classe de aprendizado e que a gente tem que trabalhar muito, além de suas profissões convencionais, para aumentar, todos os dias e todas as horas, o seu cartel de respeito, solidariedade, auxílio ao próximo, generosidade. Como única forma de não temer tantos riscos desta vida. E de saber enfrentar a fatalidade da morte.
Siga em paz, Lourival. Você foi um soldado muito útil à grandeza do futebol.

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