Levantamento aponta que o Bahia deixou escapar 35 pontos em jogos de domínio ofensivo desde 2024; confira
"Capricho", "frieza", "malícia", "efetividade" e capacidade para "matar" os jogos. As palavras utilizadas por Rogério Ceni mudaram ao longo das últimas três temporadas, mas a cobrança permaneceu direcionada ao mesmo ponto: a dificuldade do Bahia de transformar as chances criadas em gols.
Desde 2024, o Esquadrão deixou 35 pontos potenciais pelo caminho em 14 partidas do Campeonato Brasileiro nas quais terminou com mais posse de bola, mais finalizações e mais chutes no alvo que o adversário, segundo levantamento realizado pelo Bahia Notícias com base nos números disponibilizados pelo SofaScore.
Foram sete empates e sete derrotas. Em 2024, cinco partidas representaram 13 pontos potenciais. Em 2025, foram seis jogos e outros 15. Já em 2026, até a 22ª rodada, três confrontos somam sete pontos.
Na produção do presente levantamento, adotou-se um critério restritivo. Não bastava o Bahia ter finalizado mais. Para entrar na relação, o Tricolor precisava ter sido superior simultaneamente em posse de bola, finalizações e chutes na direção do gol e, mesmo assim, ter empatado ou perdido. Partidas com igualdade em pelo menos um desses três indicadores ficaram fora da conta.
Foi evitado, também, atribuir qualquer tropeço exclusivamente à falta de eficiência do Bahia, já que os adversários também tiveram mérito ao defender, aproveitar melhor suas oportunidades ou sustentar o resultado.
PONTOS QUE FARIAM A DIFERENÇA
O impacto fica mais evidente quando os pontos são projetados nas respectivas tabelas.
Em 2024, o Bahia terminou o Brasileirão na 8ª colocação, com 53 pontos. Caso tivesse transformado em vitórias apenas os cinco jogos enquadrados no levantamento, acrescentaria 13 pontos e chegaria aos 66, pontuação suficiente para terminar em 5º lugar.
Em 2025, a diferença seria ainda maior. O Esquadrão encerrou a Série A em 7º, com 60 pontos. Os 15 pontos potenciais elevariam a campanha para 75 pontos e um hipotético 3º lugar, atrás apenas de Flamengo e Palmeiras.
Na atual temporada, o Bahia tem 33 pontos após 22 rodadas. Somados os sete pontos do levantamento, chegaria aos 40 e ocuparia hipoteticamente a 4ª colocação, dentro do G-4.
Na prática:
- 2024: 53 → 66 pontos | 8º → 5º
- 2025: 60 → 75 pontos | 7º → 3º
- 2026: 33 → 40 pontos | 6º → 4º
O exercício é hipotético e não significa que os 35 pontos obrigatoriamente pertenciam ao Bahia. Serve, entretanto, para dimensionar o impacto das partidas em que o time reuniu superioridade nos três indicadores ofensivos adotados no levantamento e não conseguiu transformá-la em triunfo.

Rogério Ceni à beira do campo em Bahia x Botafogo, pelo Brasileirão 2024. | Foto: Maurícia da Matta/Bahia Notícias.
2024: "FALTA MALÍCIA"
O primeiro ano completo de Ceni à frente do Bahia já apresentou sinais do problema. Cinco partidas do Brasileirão de 2024 se enquadram no levantamento: os empates contra Criciúma e Athletico-PR e as derrotas diante de Corinthians, São Paulo e Palmeiras.
Alguns números foram expressivos. Contra o Corinthians, na Fonte Nova, o Bahia teve 65% de posse, 17 finalizações contra sete e sete chutes no alvo contra dois, mas perdeu por 1 a 0. Diante do São Paulo, foram 24 finalizações contra nove e seis conclusões certas contra quatro. Ainda assim, derrota por 3 a 0.
Foi depois do revés por 2 a 1 para o Palmeiras, quando o Bahia teve 58% de posse, 17 a 11 nas finalizações e 6 a 2 nos chutes no alvo, que Ceni externou uma das cobranças mais fortes. "Não tivemos a calma e a perfeição na execução para fazer os gols", analisou, antes de acrescentar: "Falta malícia para definir o resultado do jogo".
A temporada terminaria com outro exemplo emblemático. Contra o Athletico-PR, o Bahia teve 74% de posse, 25 finalizações contra seis e oito chutes no alvo contra três, mas ficou no empate por 1 a 1. Foram 13 pontos potenciais nos cinco jogos.

Ceni no banco de reservas da Fonte Nova em Bahia x Corinthians, pelo Brasileirão 2025. | Foto: Maurícia da Matta/Bahia Notícias.
2025: "FINALIZAMOS, SEM EFETIVIDADE"
A temporada seguinte trouxe novos jogadores e mais investimento, mas a dificuldade voltou a aparecer. Seis partidas entraram no recorte: Fortaleza, Sport, Fluminense, Cruzeiro, Vitória e novamente Fortaleza. Foram três empates e três derrotas, equivalentes a 15 pontos potenciais.
O discurso de Ceni também ganhou uma palavra mais direta: efetividade. Em julho, ao analisar outra partida de grande volume ofensivo e poucos gols, dessa vez pela Sul-Americana, o treinador resumiu: "Finalizamos bastante, mas sem efetividade". Também cobrou maior precisão na hora de concluir as jogadas.
A questão apareceu novamente diante do Fluminense. O Bahia teve 60% de posse, 17 finalizações contra oito e seis chutes no alvo contra cinco, mas empatou por 3 a 3 depois de ter estado em vantagem. Ceni reclamou da falta de objetividade e afirmou que o time deixou de "matar a partida".
O caso mais expressivo daquela Série A veio na derrota por 3 a 2 para o Fortaleza, na Fonte Nova. O Bahia terminou com 71% de posse, 24 finalizações contra 11 e oito chutes no alvo contra cinco, mas saiu sem pontuar.
Assim, depois de "calma" e "malícia" em 2024, as cobranças passaram a envolver também "efetividade" e capacidade para "matar" os jogos.

Ceni dá instruções ao time do Bahia no confronto contra o Grêmio, pelo Brasileirão 2026. | Foto: Maurícia da Matta/Bahia Notícias.
2026: "GOL AINDA É UMA DIFICULDADE"
Em 2026, Ceni foi ainda mais direto. Após o empate por 1 a 1 no Ba-Vi, o Bahia havia terminado com 63% de posse, 13 finalizações contra seis e sete chutes no alvo contra dois. O Tricolor também desperdiçou um pênalti.
"Temos dificuldades para matar. O gol ainda é uma dificuldade para a gente", afirmou o treinador. Poucos dias depois, mesmo após uma vitória, Ceni voltou ao tema: "Criamos mais do que convertemos".
No Brasileirão, além do clássico, entram no levantamento a derrota por 2 a 1 para o Palmeiras e o empate por 1 a 1 com o Grêmio. Contra os gaúchos, o Bahia teve 60% da posse, 17 finalizações contra apenas três e seis chutes no alvo contra um, mas conquistou somente um ponto.
São sete pontos potenciais em três partidas até a 22ª rodada. O empate sem gols contra o Vasco, no último domingo (9), por exemplo, fica fora. Apesar de não ter vencido na Fonte Nova, o Bahia não foi superior ao adversário simultaneamente nos três indicadores utilizados.
TRÊS ANOS E O MESMO 'ÚLTIMO LANCE'
As temporadas ajudam a construir uma linha do tempo. Em 2024, Ceni falou em calma, execução e "malícia para definir". Em 2025, cobrou "efetividade" e capacidade para "matar a partida". Em 2026, resumiu que "o gol ainda é uma dificuldade" e reconheceu que o Bahia continuava criando mais do que convertia.
Desde 2024, foram 14 partidas de Brasileirão em que o Bahia teve mais posse, finalizou mais e acertou mais vezes a meta adversária, mas não venceu. São 13 pontos potenciais em 2024, 15 em 2025 e sete em 2026, totalizando 35.
Os números não significam que o Bahia necessariamente merecia vencer todos os confrontos. Os adversários também construíram seus resultados. O recorte, porém, dá dimensão a uma cobrança que atravessa três temporadas do trabalho de Rogério Ceni: entre controlar o jogo e transformá-lo em vitória, o Bahia ainda encontra dificuldades no último lance.
JOGOS CONTABILIZADOS:
- 2024 — 13 pontos: Criciúma 2x2 Bahia; Bahia 0x1 Corinthians; Bahia 0x3 São Paulo; Bahia 1x2 Palmeiras; Bahia 1x1 Athletico-PR.
- 2025 — 15 pontos: Fortaleza 1x1 Bahia; Sport 0x0 Bahia; Bahia 3x3 Fluminense; Bahia 1x2 Cruzeiro; Vitória 2x1 Bahia; Bahia 2x3 Fortaleza.
- 2026 — 7 pontos: Bahia 1x1 Vitória; Bahia 1x2 Palmeiras; Bahia 1x1 Grêmio.
*O levantamento considera exclusivamente partidas do Bahia pelo Campeonato Brasileiro. Declarações de Rogério Ceni em outras competições são utilizadas apenas para contextualizar a recorrência das cobranças do treinador e não entram no cálculo dos 35 pontos potenciais.
