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Davidson Pelo Mundo: O turismo cresce, mas quem fica com o dinheiro?

Por Davidson Botelho

Foto: Freepik

De tempos em tempos, somos apresentados a números que parecem comprovar o sucesso de uma cidade, de um estado ou de um país no mercado turístico. Recordes de visitantes, aeroportos movimentados, hotéis lotados, cruzeiros chegando e eventos com milhares de participantes. Tudo isso é motivo de comemoração. Mas será que esses indicadores, isoladamente, são suficientes para afirmar que o turismo está cumprindo o seu verdadeiro papel?

 

É preciso ir além da contagem de visitantes e fazer uma pergunta que nem sempre aparece nos discursos oficiais: quanto da riqueza gerada pelo turismo permanece no destino visitado?

 

Afinal, receber turistas não é a mesma coisa que desenvolver o turismo.

 

Um visitante pode chegar a uma cidade, hospedar-se em uma rede internacional, consumir serviços de uma plataforma estrangeira, contratar passeios de empresas de fora e deixar para trás pouco mais do que resíduos, trânsito e pressão sobre os serviços públicos. O destino aparece nas fotografias, ganha visibilidade nas redes sociais e entra nas estatísticas. Mas a riqueza produzida pode não chegar, na mesma proporção, ao pequeno comerciante, ao artesão, ao taxista, ao guia local ou ao trabalhador que mantém a engrenagem funcionando.

 

Isso não significa que grandes redes, plataformas digitais ou investimentos externos sejam inimigos do turismo. Ao contrário, podem ser fundamentais para ampliar a oferta, gerar empregos e atrair mercados. A questão é outra: como fazer com que o crescimento da atividade beneficie também a economia local?

 

É aí que começa o verdadeiro desafio da gestão turística: o turismo não pode ser apenas uma política de atração; precisa ser também uma política de distribuição de oportunidades.

 

Quando um destino recebe mais visitantes, deveria existir um esforço coordenado para fortalecer fornecedores locais, qualificar trabalhadores, estimular o empreendedorismo, valorizar a produção regional e ampliar a permanência média dos turistas. Quanto mais tempo o visitante fica e mais experiências consome, maiores podem ser os benefícios econômicos, desde que existam produtos, serviços e negócios locais preparados para aproveitar essa oportunidade.

 

Na Bahia, essa discussão é particularmente importante. Temos patrimônio histórico, cultura, gastronomia, música, natureza, litoral e uma diversidade de experiências capazes de atrair visitantes durante todo o ano. Entretanto, o potencial turístico não se transforma automaticamente em desenvolvimento. É necessário planejamento, profissionalização, promoção inteligente e, sobretudo, integração entre os diferentes setores da economia.

 

Não basta divulgar uma praia se os acessos são precários. Não basta atrair visitantes para um centro histórico se o comércio local perde vitalidade. Não basta realizar grandes eventos se os negócios do entorno não estão preparados para participar dos resultados. E não basta comemorar a ocupação hoteleira durante a alta temporada se, nos meses seguintes, trabalhadores e empresas enfrentam uma queda acentuada na demanda.

 

O turismo precisa ser pensado como uma cadeia econômica, e não como um conjunto isolado de hotéis, restaurantes, atrações e eventos.

 

Isso exige também uma mudança na forma de avaliar os resultados das políticas públicas. Além do número de visitantes, deveríamos acompanhar indicadores como o gasto médio por turista, a permanência no destino, a geração de empregos formais, a participação de fornecedores locais, a arrecadação de impostos, a sazonalidade e a evolução da renda nas comunidades que recebem visitantes.

 

Outro ponto merece atenção: a qualidade de vida de quem mora no destino. O turismo bem administrado pode estimular a recuperação de áreas urbanas, ampliar oportunidades profissionais, fortalecer a identidade cultural e melhorar os serviços. Mal planejado, pode contribuir para aumentar a pressão sobre a moradia, a mobilidade, o saneamento e os espaços públicos.

 

O morador não pode ser tratado como figurante de um cenário criado para o visitante. Ele precisa ser beneficiário e participante do desenvolvimento turístico.

 

E há uma responsabilidade compartilhada nessa equação. O poder público deve oferecer infraestrutura, segurança, planejamento e regras claras. O setor privado precisa investir em qualidade, profissionalização e relações sustentáveis com a comunidade. As entidades empresariais devem estimular a cooperação e a competitividade. E a população precisa encontrar caminhos para participar das oportunidades que a atividade oferece.

 

O desafio, portanto, não é simplesmente fazer o turismo crescer. É fazer com que esse crescimento produza resultados mais amplos, duradouros e perceptíveis.

 

Talvez esteja na hora de substituir a pergunta “Quantos turistas recebemos?” por outras, muito mais reveladoras: quanto eles gastaram? Quantos empregos foram criados? Quantas empresas locais prosperaram? Quanto da riqueza permaneceu na cidade? E o que efetivamente melhorou na vida de seus moradores?

 

Essas respostas talvez não produzam manchetes tão vistosas quanto um recorde de desembarques. Mas são elas que ajudam a distinguir um destino movimentado de um destino verdadeiramente desenvolvido.

 

Porque, no fim das contas, o turismo não deveria ser avaliado apenas pela quantidade de pessoas que chegam, mas também pelas oportunidades que deixa.

 

Um destino pode estar cheio de turistas e continuar pobre em desenvolvimento. O verdadeiro sucesso começa quando a riqueza gerada pela visita não vai embora junto com o visitante.

 

 

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