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Travelling

Davidson Pelo Mundo: Turismo político - viajar também é aprender como o poder transforma um país

Por Davidson Botelho

Foto: Magnific / Freepik

Há coisas que nenhum algoritmo consegue explicar tão bem quanto estar diante delas. Passamos boa parte do nosso tempo tentando compreender o mundo por meio das redes sociais, dos jornais, da televisão, dos documentários e, cada vez mais, dos algoritmos que selecionam aquilo que supostamente devemos ver e acabam nos direcionando para somente um lado. Mas existe uma outra forma de conhecimento, muito mais antiga e talvez mais poderosa: viajar.

 

Viajar não precisa ser apenas conhecer monumentos, experimentar uma gastronomia ou fotografar belas paisagens. Também pode ser uma forma de compreender como uma sociedade chegou até onde chegou e, principalmente, como as decisões políticas e os regimes de governo podem transformar a vida de milhões de pessoas.

 

É daí que surge uma ideia que considero interessante para o turismo contemporâneo: o turismo de conhecimento político.

 

 

Não estou falando de turismo partidário, muito menos de viagens para defender a esquerda ou a direita. A proposta é justamente o contrário: viajar para conhecer a história, ouvir diferentes versões, visitar museus, memoriais, antigas prisões, bunkers, edifícios públicos e lugares onde decisões políticas mudaram o destino de uma sociedade e do mundo.

 

Imagine, por exemplo, uma viagem à Polônia que não termine apenas nas belas praças de Varsóvia ou em Cracóvia. Uma viagem que inclua os lugares que ajudam a compreender a ocupação nazista, a Segunda Guerra Mundial, a resistência polonesa e, posteriormente, as décadas de domínio comunista.

 

Ou então a Albânia, em Tirana, onde o visitante pode entrar no BUNK’ART, instalado em um enorme bunker construído durante o regime de Enver Hoxha. O espaço reúne documentos, fotografias, objetos e ambientes que ajudam a explicar a vida sob o regime comunista, a estrutura de segurança do Estado, a educação, a militarização e o isolamento do país.

 

Nesse caso, o turismo deixa de ser apenas contemplativo, passa a ser uma aula. Em Berlim, o visitante pode compreender a Guerra Fria caminhando por lugares onde a divisão entre dois sistemas políticos deixou marcas concretas na cidade. Em Budapeste, museus e memoriais permitem estudar períodos de domínio nazista e comunista e as diferentes formas de repressão política vividas pela sociedade húngara.

 

E Cuba também poderia fazer parte desse roteiro de conhecimento político. Havana permite ao visitante conhecer de perto a história da Revolução Cubana, seus personagens, seus símbolos e a construção do sistema político que se consolidou depois de 1959. Museus, monumentos, espaços públicos e documentos permitem observar como uma revolução transformou a estrutura política, econômica e social do país e como essa experiência continua sendo interpretada de maneiras diferentes dentro e fora de Cuba.

 

O interessante, nesse caso, não seria viajar a Cuba para receber uma versão pronta da história, mas justamente para estudar a história em seu próprio território. Conhecer os espaços de memória, observar a presença da Revolução no cotidiano e confrontar diferentes relatos, documentos e interpretações, tirar suas conclusões sobre os regimes “in loco”.

 

É possível fazer o mesmo exercício em diferentes partes do mundo: estudar o fascismo na Itália, o franquismo na Espanha, o salazarismo em Portugal, o nazismo na Alemanha, o stalinismo na antiga União Soviética, o peronismo na Argentina, as experiências comunistas do Leste Europeu ou as ditaduras militares que marcaram diversos países latino-americanos.

 

E há uma questão importante nessa proposta: não é necessário viajar para concordar ou discordar, é preciso viajar para compreender e tirar suas próprias conclusões.

 

Um estudante de política poderia fazer uma viagem temática pela Europa Oriental. Um professor poderia transformar uma viagem em campo de estudo. Uma família poderia levar os filhos adolescentes para conhecer lugares que normalmente aparecem apenas nos livros de História. Uma agência especializada poderia criar roteiros acompanhados por historiadores, cientistas políticos e pesquisadores.

 

Poderíamos ter, por exemplo, um roteiro chamado “A Europa que viveu a Guerra Fria”. Ou “Albânia: 45 anos sob o regime de Enver Hoxha”. Ou ainda “Berlim: uma cidade dividida pela política”. E por que não “Cuba: a revolução que melhorou ou piorou uma ilha”?

 

Antes da viagem, o viajante receberia livros, filmes e documentos para entender o contexto. Durante a viagem, visitaria os locais históricos e depois poderia participar de debates ou encontros com especialistas. Seria turismo, mas também seria formação, e talvez essa seja uma das grandes oportunidades do turismo no século XXI: “Deixar de vender somente destinos e começar a vender experiências de conhecimento.”

 

Vivemos em uma época em que cada pessoa pode receber na internet uma versão diferente do mesmo acontecimento. Algoritmos podem criar bolhas de informação nas quais enxergamos apenas aquilo que confirma aquilo em que já acreditamos.

 

Viajar pode fazer o caminho contrário, pode nos colocar diante de uma realidade que não cabe em um vídeo de 30 segundos, pode nos fazer entrar em um bunker, caminhar diante de um muro, visitar uma prisão política, observar documentos originais, ouvir testemunhos e perceber que decisões tomadas décadas atrás ainda podem influenciar uma sociedade inteira.

 

Talvez uma das melhores maneiras de compreender a democracia seja conhecer presencialmente os lugares onde ela foi interrompida e estudar por que isso aconteceu.

 

O turismo de conhecimento político não pretende dizer ao viajante o que pensar. Pretende oferecer algo mais valioso:

 

“A oportunidade de pensar melhor com os seus próprios olhos.”

 

Boa viagem!

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