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Travelling

Davidson Pelo Mundo: A educação pode ser um ativo turístico tão importante quanto uma atração

Por Davidson Botelho

Foto: Magnific / Freepik

Há coisas que nenhum catálogo de turismo consegue vender. Não cabem numa fotografia de praia, não aparecem na tarifa de um hotel, não estão no cardápio de um restaurante, não são patrimônio histórico, nem atração turística, nem equipamento urbano, mas o turista percebe e, muitas vezes, leva para casa.
 

Não estou falando de educação no sentido de escolaridade. Estou falando de educação cidadã, civilidade, respeito ao espaço público, cordialidade, gentileza, paciência, organização e compreensão de que o visitante também faz parte da economia e da experiência daquele lugar. Há pesquisas que sustentam exatamente essa relação. Um estudo realizado no Algarve, em Portugal, constatou que turistas hospedados em municípios onde os moradores tinham atitudes mais positivas em relação ao turismo percebiam maior receptividade e apresentavam maior satisfação com a experiência turística.

 

Outro estudo, publicado no Journal of Sustainable Tourism, analisou 750 visitantes na Grécia e encontrou uma relação significativa entre a qualidade da interação com os moradores, a imagem que o visitante forma do destino, sua satisfação e sua intenção de retornar ou recomendar o lugar. Ou seja: o morador também é produto turístico, e o Japão é um exemplo perfeito.

 

Um estudo publicado em julho de 2026 analisou justamente o papel do omotenashi, conceito japonês associado à hospitalidade e ao cuidado com o visitante. A pesquisa concluiu que hospitalidade e serviço amigável têm papel significativo na satisfação dos visitantes estrangeiros e na recuperação do turismo japonês. O Japão não exporta apenas templos, tecnologia, sushi e paisagens; exporta também uma maneira de tratar o outro.

 

Imagine o turista chegando a uma cidade e percebendo que:

- O motorista respeita a faixa de pedestres;

- O carro para para o pedestre;

- As pessoas respeitam filas;

- Há silêncio onde se pede silêncio;

- O cidadão não joga lixo na rua;

- Ninguém tenta levar vantagem o tempo inteiro;

- O motorista não transforma o trânsito numa guerra;

- O morador orienta o turista em vez de tratá-lo como um incômodo.

 

Isso tudo não aparece no folder turístico, mas aparece na memória do visitante.

 

A pesquisa de 2025 da Singapore Management University, divulgada agora, em setembro de 2026, mostra que 98,6% dos entrevistados consideram que manter a cidade limpa é responsabilidade de cada indivíduo. E 95,5% disseram devolver sempre bandejas e utensílios após comer. Mais interessante ainda, o estudo mostra que esses comportamentos são cada vez mais percebidos como normas sociais, e não simplesmente como resultado de fiscalização.

 

E existe uma pesquisa anterior ainda mais diretamente relacionada ao turismo: 94% dos moradores entrevistados disseram acreditar que os visitantes admiram a limpeza de Singapura.

 

Quando uma sociedade é educada para respeitar o espaço coletivo, o turista percebe. Não é necessário colocar uma placa dizendo “somos educados”; o visitante percebe sozinho.

 

Essa é uma questão que o turismo brasileiro precisa discutir com mais profundidade. Falamos muito sobre infraestrutura turística. Precisamos de bons hotéis, aeroportos, restaurantes, estradas, sinalização, atrações, segurança e serviços qualificados. Tudo isso é fundamental, mas existe uma infraestrutura invisível: é a infraestrutura humana. Uma cidade pode investir milhões em um equipamento turístico e, ao mesmo tempo, perder valor por causa de pequenos comportamentos cotidianos.

 

Talvez esteja na hora de compreendermos que política de turismo não deveria terminar na porta do hotel; ela começa muito antes. Começa na escola, ensinando respeito ao espaço público; começa em casa, ensinando cordialidade; começa no trânsito, ensinando que o outro também tem direitos; começa na rua, ensinando que lixo não desaparece porque alguém foi pago para recolhê-lo; começa na compreensão de que o turista não é um invasor, é um convidado. E existe uma diferença enorme entre receber alguém e simplesmente tolerar a presença de alguém.

 

Destinos turísticos extraordinários existem aos milhares. Já destinos onde o visitante se sente bem-vindo são mais raros; talvez esse seja um dos grandes diferenciais do turismo contemporâneo. Não basta perguntar: “Quantos turistas queremos trazer?” Precisamos perguntar também: “Que cidade queremos oferecer a eles?” Porque o turista pode esquecer o nome da rua, pode esquecer o número do quarto, pode até esquecer o nome daquele restaurante, mas dificilmente esquecerá como foi tratado e, no turismo, a memória também é uma forma de propaganda.

 

A melhor campanha publicitária de um destino pode estar justamente no comportamento de seu povo, e essa não custa milhões. Uma cidade pode não ter o melhor patrimônio turístico do mundo. Mas, se souber receber, pode deixar no visitante uma lembrança melhor do que aquela que encontrou.

 

Boa viagem!

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