Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Hall

Travelling

Davidson Pelo Mundo: Turismo de nicho - quando o turista viaja atrás do peixe

Por Davidson Botelho

Foto: Divulgação

Depois dos motociclistas e dos corredores de rua, continuo minha incursão por um universo que ainda é pouco explorado pelo turismo brasileiro: os chamados turismos de nicho. A pergunta desta vez é simples: quantas pessoas estariam dispostas a viajar centenas ou milhares de quilômetros para pescar?

 

A resposta pode surpreender. A pesca amadora e esportiva já movimenta cerca de R$ 3 bilhões por ano no Brasil e gera aproximadamente 200 mil empregos diretos e indiretos, segundo dados divulgados pelo Ministério do Turismo em 2026. O país reúne cerca de 8 milhões de praticantes da atividade. Ou seja, não estamos falando de um passatempo de poucos aficionados; estamos falando de um mercado turístico e existe uma característica especialmente interessante nesse segmento: o turista não escolhe primeiro a cidade. Ele escolhe o peixe, o rio, o mar ou o ambiente natural onde quer viver a experiência, e é aí que começa o negócio.

 

UM MERCADO MUNDIAL
No mundo, a pesca recreativa alcança uma dimensão ainda maior. A ONU estima que aproximadamente 300 milhões de pessoas pratiquem pesca recreativa todos os anos, gerando pelo menos US$ 47 bilhões em gastos. Cerca de 121 milhões praticam pesca recreativa em ambientes marinhos.

 

Nos Estados Unidos, o tamanho desse mercado ajuda a entender o potencial. Dados da NOAA apontam que apenas em 2023, a pesca recreativa de água salgada gerou US$ 145,4 bilhões em impacto sobre vendas, US$ 47,1 bilhões em renda e 694 mil empregos relacionados à atividade.

 


Foto: Ilustrativa / Magnific / Freepik

 

E não é simplesmente dinheiro gasto na compra de uma vara ou de uma isca. É hotel, pousada, barco, combustível, guia, restaurante, transporte, equipamentos, comércio local, fotografia, alimentação, taxas, eventos e, muitas vezes, a contratação de serviços especializados.

 

O peixe é o motivo da viagem, mas não é o único beneficiário dela. O Brasil tem um território praticamente desenhado para isso. Com uma das maiores diversidades de ambientes aquáticos do planeta, são milhares de quilômetros de rios, lagos, represas, manguezais e um litoral gigantesco. E já temos destinos consolidados.

 

O Pantanal é um dos grandes nomes nacionais da pesca esportiva. A Amazônia, especialmente a região de Barcelos e o Rio Negro, atrai pescadores brasileiros e estrangeiros em busca de espécies como o tucunaré.

 

Também estão no mapa destinos como os rios Araguaia e Tocantins, a Serra da Mesa, em Goiás, rios da região Norte, o São Francisco e diferentes áreas do litoral brasileiro. O próprio Ministério do Turismo identifica Amazônia, Pantanal, Tocantins-Araguaia, litoral nordestino e reservatórios do Sudeste e Sul como regiões com forte potencial para o segmento.

 

Há uma razão para isso: o Brasil não oferece apenas peixe; oferece paisagem, biodiversidade e experiência. O pescador pode passar horas dentro de uma embarcação, observar o nascer do sol, navegar por um rio, conhecer uma comunidade ribeirinha, experimentar a gastronomia local e, no final, ter como troféu uma fotografia porque uma das grandes tendências da pesca esportiva é justamente o pesque e solte.

 

E a Bahia? É aqui que começo a achar que nós, baianos, precisamos olhar com mais atenção para esse mercado. A Bahia possui uma combinação extraordinária: litoral, rios, manguezais, estuários, represas, clima favorável, biodiversidade e uma infraestrutura turística que já existe em boa parte do território, e temos pelo menos dois exemplos que deveriam ser tratados como verdadeiros produtos turísticos.

 

O primeiro é Canavieiras, na Costa do Cacau. O destino é apontado pela Secretaria de Turismo da Bahia como um dos três grandes picos mundiais do marlim-azul, uma das espécies mais cobiçadas da pesca oceânica. A região também oferece pesca estuarina nos manguezais, com espécies como robalo, tarpon e pescada-amarela. Canavieiras já recebe competições capazes de atrair pescadores brasileiros e estrangeiros.

 

É uma combinação rara: pesca oceânica de alto nível, manguezal, praia, patrimônio histórico, gastronomia e hotelaria.

 

O segundo grande exemplo está no extremo norte do estado, Paulo Afonso e o Vale do São Francisco. Ali, o Rio São Francisco, os cânions, os lagos e toda a estrutura turística existente podem ser associados à pesca esportiva e a experiências náuticas e de natureza. A própria Setur-BA já identifica Paulo Afonso como um polo pesqueiro relevante, e não deveríamos parar nesses dois pontos.

 

O potencial baiano pode ser pensado em diferentes ambientes, como Costa do Cacau, litoral sul, manguezais e estuários, Baixo Sul, Baía de Todos-os-Santos, Recôncavo, rios do interior e o São Francisco. O desafio não é descobrir se existe peixe; o desafio é transformar peixe em produto turístico.

 

O turista da pesca não viaja sozinho e talvez esteja aqui uma das maiores oportunidades, nem todo acompanhante é pescador.

 

Enquanto uma pessoa passa o dia em um barco atrás de um tucunaré, de um robalo ou de um marlim, o acompanhante pode estar em um hotel, fazendo uma experiência gastronômica, conhecendo um centro histórico, visitando uma fazenda de cacau, fazendo um passeio de barco ou simplesmente aproveitando uma praia.

 

É exatamente o que torna esse turismo tão interessante. O nicho traz o turista, o destino precisa descobrir como fazer esse turista gastar mais e permanecer mais tempo; essa é uma lógica que se aplica também aos motociclistas e aos corredores.

 

O evento ou a atividade é a porta de entrada, o turismo é toda a experiência que acontece depois. Pescar pode ser uma estratégia de desenvolvimento regional.

 

Existe ainda uma dimensão que considero especialmente importante para a Bahia. A pesca esportiva pode levar dinheiro para lugares que normalmente ficam fora dos grandes circuitos turísticos. Um pescador precisa de alguém que conheça o rio, precisa de uma embarcação, precisa de combustível, precisa de alimentação, precisa de hospedagem, precisa de equipamentos, precisa de alguém que saiba onde estão os peixes.

 


Foto: Divulgação

 

Isso cria oportunidades para guias, barqueiros, pequenos hotéis, pousadas, restaurantes, comerciantes e comunidades ribeirinhas. O Ministério do Turismo e o Ministério da Pesca e Aquicultura vêm justamente tratando a atividade como instrumento de desenvolvimento regional, turismo de natureza e turismo de base comunitária. O governo federal já possui inclusive um Plano Nacional para o Desenvolvimento Sustentável da Pesca Amadora e Esportiva para o período 2024–2034.

 

Em 2024, foram emitidas cerca de 323 mil licenças de pesca amadora e esportiva no país, segundo o plano nacional. Isso mostra que existe mercado, mas também revela uma oportunidade ainda maior: profissionalizar e internacionalizar o produto.

 

 

A BAHIA JÁ ESTÁ ENXERGANDO O POTENCIAL

Em 2024, a Bahia participou pela primeira vez da Pesca & Companhia Trade Show, uma das principais feiras do segmento na América Latina. A edição daquele ano tinha expectativa de 25 mil visitantes e R$ 400 milhões em negócios. Mais recentemente, em 2025, a Setur-BA voltou a promover o estado no Fishing Show Brazil e destacou justamente Canavieiras e Paulo Afonso como destinos com vocação para a pesca esportiva, ou seja, o movimento já começou.

 

Mas ainda falta transformar iniciativas isoladas em uma estratégia estadual de turismo de pesca. O que estamos deixando escapar?

 

Talvez o maior erro seja imaginar que turismo de nicho significa turismo pequeno; não significa. Significa turismo especializado.

 

O corredor escolhe a cidade porque existe uma prova, o motociclista escolhe a cidade porque existe um encontro, o pescador escolhe a cidade porque existe um peixe, e todos eles precisam dormir, comer, abastecer, contratar serviços, comprar produtos e, muitas vezes, voltar.

 

É exatamente por isso que venho insistindo nessa série sobre turismo de nicho. Precisamos parar de pensar apenas em grandes eventos tradicionais e começar a perguntar: quais comunidades, grupos e paixões podem ser transformados em produtos turísticos?

 

A Bahia já possui o mar, os rios, os manguezais, os peixes, as paisagens e a cultura. Talvez esteja faltando apenas transformar tudo isso em roteiro, calendário, infraestrutura, promoção e venda. Porque, no fim das contas, o pescador não viaja atrás de uma cidade, viaja atrás de uma experiência, e cabe ao destino descobrir como transformar essa experiência em desenvolvimento, emprego e renda, até porque, às vezes, o melhor turista não é aquele que está procurando um destino, é aquele que está procurando um peixe.

 

Boa viagem e boa pescaria!

Compartilhar