Baianos criam marca de design autoral que une arquitetura, tecnologia e fabricação digital
Os arquitetos baianos Kyane Bomfim e Pedro Maciel transformaram a experiência na arquitetura e o interesse por tecnologia e fabricação digital na criação da Meshen, marca de design autoral fundada em São Paulo, em 2025. O catálogo reúne luminárias, mobiliário e objetos desenvolvidos a partir de ferramentas digitais e processos de fabricação.
As criações ganham forma em peças marcadas pela experimentação com geometrias, materiais, luz e escala. Natureza, arte e arquitetura estão entre as principais referências da dupla, que encontra em elementos como árvores, rios, espuma do mar e nuvens inspiração para desenvolver uma linguagem própria.
..jpg)
Foto: Divulgação
“A Meshen surgiu de uma vontade que eu e Pedro já compartilhávamos há bastante tempo: criar algo nosso e reunir em um mesmo lugar interesses que sempre foram muito complementares”, contou Kyane em conversa com o BN Hall.
Mais do que desenvolver objetos, os arquitetos acompanham as diferentes etapas de criação, do desenho à produção. “A Meshen se consolidou mais como um laboratório criativo e técnico do que simplesmente como uma marca de objetos. Desde o início, nos interessava participar de todo o percurso: imaginar, desenhar, visualizar, prototipar e fabricar.”
Nesse processo, o ambiente digital funciona como espaço de estudo antes de cada peça chegar à fabricação. É nele que os sócios testam escala, proporção, luz e a relação do objeto com o ambiente. “Uma peça existe digitalmente em determinado espaço antes de poder existir fisicamente naquele ambiente”, explicou.
A tecnologia, no entanto, não elimina os limites impostos pela materialização do projeto. “O que não significa, necessariamente, que podemos fabricar qualquer coisa. E é justamente nesse encontro entre imaginação e viabilidade que o projeto começa a ficar interessante”, destacou.
A etapa de prototipagem ajuda a definir o resultado final. Segundo Kyane, características que não aparecem no modelo digital podem provocar alterações significativas quando o objeto ganha forma. “O objeto físico sempre revela alguma coisa que a tela não mostra. Peso, textura, tolerâncias, encaixes e até a maneira como a luz incide sobre uma superfície podem fazer o projeto mudar completamente.”
Entre as primeiras criações está a Cloudio, luminária que foi o primeiro produto oficial da Meshen. A geometria da peça também ganhou uma nova aplicação em um vaso, ampliando a pesquisa da marca para outros objetos.
..jpg)
Foto: Divulgação
A partir desse mesmo trabalho surgiu a Cloudia, luminária desenvolvida em diferentes escalas e configurações, de peças de mesa a pendentes.
A iluminação se tornou um dos principais campos de experimentação da marca. “O que nos fascina é que, quando acesa, passa a interferir em tudo ao redor: revela texturas, cria sombras, modifica a leitura dos materiais e pode transformar completamente a atmosfera de um ambiente”, contou Kyane. Segundo a arquiteta, o desenho também busca fazer com que as luminárias tenham presença escultórica quando apagadas. “Se tornam objetos de destaque também quando desligadas.”
A possibilidade de adaptar os produtos a diferentes ambientes também passou a integrar o trabalho da dupla. Em um dos projetos customizados, a Cloudia, originalmente com 19 centímetros, foi redesenhada para atingir cerca de 70 centímetros de largura por 40 de altura e ocupar o espaço sobre a mesa de jantar de uma residência.
“O cliente não recebeu simplesmente uma Cloudia maior. A peça foi repensada para aquele espaço e, ao longo do desenvolvimento, as próprias exigências de produção passaram a fazer parte do desenho”, explicou Kyane.
TRAJETÓRIA
A criação da Meshen é resultado de uma trajetória que começou anos antes. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Unifacs, em 2015, Kyane se aproximou da pesquisa ainda em Salvador. Como aluna especial do mestrado da UFBA, conheceu o LCAD, Laboratório de Estudos Avançados em Cidade, Arquitetura e Tecnologias Digitais, onde teve contato com modelagem paramétrica, fabricação digital, realidade virtual e aumentada e outros processos.
Os concursos de arquitetura também contribuíram para essa experimentação. “Os concursos foram especialmente importantes porque funcionavam como um laboratório: me davam liberdade para testar ideias, linguagens e soluções que nem sempre cabiam no cotidiano profissional”, lembrou.
Em 2021, a arquiteta concluiu o mestrado, com uma pesquisa sobre as relações entre desempenho, tecnologia e estética. No mesmo período, o trabalho remoto abriu novas possibilidades de atuação. “Comecei a perceber que todo aquele repertório também poderia abrir outros caminhos profissionais”, afirmou.
No fim daquele ano, passou a integrar uma equipe internacional de arquitetura e interiores, participando de projetos em diferentes países. Em 2024, mudou-se para São Paulo. “Não existia exatamente um plano de ‘sair da Bahia’, mas uma sequência de oportunidades e escolhas”, explicou.
Pedro, que já era amigo de Kyane, construía paralelamente uma trajetória ligada ao desenho, design paramétrico, inteligência artificial, fabricação digital, mobiliário e interiores. A convergência desses interesses ajudou a definir a linguagem da Meshen. “Gostamos dessas tensões: o natural e o sintético, o tradicional e o tecnológico, a precisão e a experimentação, o racional e o intuitivo”, disse Kyane.
Mesmo vivendo e trabalhando em São Paulo, a arquiteta considera a Bahia parte importante do repertório que resultou na marca. “A Bahia é a base onde muito do nosso olhar foi formado; São Paulo ampliou esse repertório e criou possibilidades para colocá-lo em prática.”
Agora, a Meshen amplia sua atuação para além da iluminação, com mobiliário, objetos e projetos especiais. “Queremos construir um universo reconhecível, no qual diferentes objetos compartilhem o mesmo DNA”, afirmou.
Siga o @bnhall_ no Instagram e fique de olho nas principais notícias.
