Davidson Pelo Mundo: O turista com deficiência não quer um favor, quer um produto
Durante muito tempo, falar em turismo acessível parecia significar falar de rampas, elevadores e banheiros adaptados, como se colocar uma pessoa em uma cadeira de rodas dentro de um hotel fosse suficiente para dizer que aquele destino está preparado para recebê-la. Não está.
Viajar é muito mais do que conseguir entrar em um hotel. É chegar ao destino, circular, conhecer seus atrativos, entrar em um restaurante, utilizar o transporte, aproveitar uma praia, visitar um museu, fazer um passeio, dormir confortavelmente e voltar para casa com a sensação de ter vivido uma experiência turística completa.
E estamos falando de um público enorme. A Organização Mundial da Saúde estima que 1,3 bilhão de pessoas no mundo, cerca de 16% da população, vivem com alguma deficiência significativa. A própria OMS destaca que o transporte inacessível ou pouco acessível pode representar uma barreira até 15 vezes maior para essas pessoas.
No Brasil, a PNAD Contínua do IBGE estimou, em 2022, que havia 18,6 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais, o equivalente a 8,9% dessa população. No Nordeste, o percentual chegava a 10,3%. (Agência de Notícias IBGE) Isso não é apenas uma questão social, é também uma questão de mercado.
Um levantamento realizado pela União Europeia, em publicação realizada em parceria com a UN Tourism, aponta que 70% das pessoas com deficiência na União Europeia possuem condições econômicas e físicas para viajar. E há outro detalhe importante: muitas vezes, o viajante com deficiência não viaja sozinho. A publicação aponta que familiares e acompanhantes podem ampliar significativamente o impacto econômico desse viajante sobre o destino, chegando, em média, a mais duas pessoas por viajante.
Ou seja, quando um destino é acessível, não está recebendo apenas um turista: pode estar recebendo uma família, um grupo de amigos ou um acompanhante que também consome hospedagem, alimentação, transporte, passeios e entretenimento.
O mercado já percebeu isso. Existem agências especializadas em viagens para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, roteiros específicos para pessoas cegas, experiências sensoriais, transporte adaptado, aluguel de equipamentos e até viagens desenhadas individualmente de acordo com o tipo de deficiência.
O problema é que ainda existe uma enorme distância entre acessibilidade declarada e acessibilidade real. Um hotel pode anunciar um quarto adaptado, mas será que a cadeira de rodas consegue entrar no banheiro? O box permite a transferência? A cama tem altura adequada? O restaurante é acessível? O transfer comporta a cadeira? A praia pode ser utilizada? E quem não enxerga? Há audiodescrição? Informação tátil? E quem é surdo? Há comunicação adequada?
A acessibilidade, portanto, não pode ser uma característica isolada de um hotel ou de uma atração. Ela precisa existir em toda a cadeia da viagem. No Brasil, o Ministério do Turismo mantém o Programa Turismo Acessível e uma plataforma colaborativa na qual os usuários podem consultar e avaliar a acessibilidade de hotéis, restaurantes, atrações e pontos turísticos.
É um avanço, mas o turismo brasileiro ainda precisa dar um passo além: deixar de enxergar a pessoa com deficiência apenas como alguém que precisa ser incluído e começar a enxergá-la também como consumidora de turismo.
Porque ela quer viajar, quer conhecer cidades, experimentar restaurantes, tomar banho de mar, conhecer vinícolas, fazer cruzeiros, visitar museus, assistir a shows, descobrir culturas e descansar. Não quer uma concessão; quer escolher para onde ir, quanto pagar e o que fazer, como qualquer outro turista.
Talvez esteja na hora de entendermos que turismo acessível não é simplesmente adaptar o turismo para quem tem deficiência. É criar produtos turísticos suficientemente bons para que todos possam viajar. E talvez a frase mais importante dessa discussão seja justamente a mais simples:
O turista com deficiência não quer um favor, quer um produto!
