Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Saúde

Entrevista

Maioria de recém-nascidos ainda não têm acesso pleno ao aleitamento materno na Bahia, alerta especialista

Por Victor Hernandes

Maioria de recém-nascidos ainda não têm acesso pleno ao aleitamento materno na Bahia, alerta especialista
Foto: Imagem Ilustrativa. José Cruz/Agência Brasil

O aleitamento materno/humano, uma das principais práticas, essencial para o começo da vida, estão com taxas em um nível inferior ao recomendado no Brasil. Segundo a fonoaudióloga Carla Steinberg a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que 50% das crianças com até 6 meses de idade sejam amamentadas exclusivamente até este ano. 

 

No entanto, conforme a especialista, no país, a taxa ficou em 45,8%, sendo menor ainda no Nordeste. Em entrevista a reportagem,  a profissional revelou que na Bahia os números relacionados à amamentação estão menores ainda, fazendo com que grande parte dos bebês não tenham acesso ao aleitamento. 

 

“As taxas de aleitamento humano no Brasil ainda estão aquém do desejado. A OMS recomenda que 50% das crianças até 6 meses de idade sejam amamentadas exclusivamente até 2025, e a meta que sobe para 70% até 2030. Em um estudo de 2019 (ENANI 2019), últimos dados oficiais, a amamentação exclusiva até os 6 meses foi de 45,8%. No Nordeste essas taxas diminuem. Se pensarmos na realidade da Bahia, uma parcela significativa de recém-nascidos acaba não tendo acesso pleno ao aleitamento materno devido a um conjunto de barreiras que vão além da decisão individual da mãe”, explicou ao BN. 

 

Coordenadora do projeto de extensão Universitária vinculados à saúde materno infantil da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Carla observou também a respeito da importância do ato na primeira hora de vida do bebê.

 

“A amamentação na primeira hora de vida, conhecida como Hora de Ouro, é um momento fundamental para o estabelecimento do vínculo entre mãe e bebê e para o sucesso da amamentação no futuro. Esse momento fortalece a confiança materna, o vínculo afetivo e está associado a maiores taxas e maior duração do aleitamento exclusivo. Reconhecendo sua relevância, a Hora de Ouro é garantida como um direito da mãe e da criança por políticas públicas e recomendações nacionais e internacionais de humanização do parto, devendo ser assegurada pelos serviços de saúde sempre que não houver risco imediato para a vida de ambos”, contou. 

 

A especialista apontou ainda acerca dos benefícios que podem ser gerados no processo de amamentação de um bebê. 

 

“Para o bebê, os benefícios incluem: fortalecimento do sistema imunológico, proteção contra infecções respiratórias e gastrointestinais, melhor desenvolvimento cognitivo e menor risco de desenvolver obesidade e doenças crônicas no futuro. Para a mãe, a amamentação auxilia na redução do sangramento pós-parto, contribui para o retorno do útero ao tamanho normal, ajuda no controle do peso e reduz o risco de câncer de mama e de ovário. Além disso, fortalece o vínculo afetivo com o bebê”, considerou Steinberg. 

 

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA SOBRE AMAMENTAÇÃO MATERNA E HUMANA

 

Qual a relevância acerca de políticas públicas para a conscientização do aleitamento materno? 

O aleitamento materno/humano constitui uma prática essencial para a promoção da saúde, sendo amplamente reconhecido como uma das estratégias mais eficazes no combate à morbimortalidade infantil. Nesse contexto, as políticas públicas de conscientização sobre a temática assumem papel fundamental, possibilitando a disseminação de informações seguras, combatendo mitos culturais, e reduzindo desigualdades sociais. Além disso, tais políticas dialogam diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), sobretudo com:

ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, ao assegurar nutrição adequada desde os primeiros meses de vida;

ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, ao reduzir a morbimortalidade infantil e melhorar a saúde materna;

ODS 5 – Igualdade de Gênero, ao valorizar o direito das mulheres de amamentar com dignidade, inclusive em espaços públicos e ambientes de trabalho;

ODS 10 – Redução das Desigualdades, ao oferecer condições equânimes de acesso à informação e apoio;

ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, já que o aleitamento materno é uma prática sustentável, sem impacto ambiental negativo em comparação com fórmulas artificiais.

Portanto, investir em políticas públicas de conscientização e apoio ao aleitamento materno não é apenas uma questão de saúde individual, mas um compromisso social e global. Trata-se de uma estratégia eficaz para reduzir a morbimortalidade infantil, fortalecer famílias, promover a equidade e contribuir para a concretização da Agenda 2030 da ONU, garantindo um futuro mais justo, saudável e sustentável para todos.

 

Quando deve ser iniciada a amamentação após o parto? 

Na primeira hora de vida do bebê. A amamentação na primeira hora de vida, conhecida como Hora de Ouro, é um momento fundamental para o estabelecimento do vínculo entre mãe e bebê e para o sucesso da amamentação no futuro. Esse momento fortalece a confiança materna, o vínculo afetivo e está associado a maiores taxas e maior duração do aleitamento exclusivo. Reconhecendo sua relevância, a Hora de Ouro é garantida como um direito da mãe e da criança por políticas públicas e recomendações nacionais e internacionais de humanização do parto, devendo ser assegurada pelos serviços de saúde sempre que não houver risco imediato para a vida de ambos.

 

Há uma parcela grande de recém-nascidos que não tem acesso ao aleitamento materno na Bahia? Como está a realidade dos bancos de leite humano no estado? 

A taxas de aleitamento humano no Brasil ainda estão aquém do desejado. A OMS recomenda que 50% das crianças até 6 meses de idade sejam amamentadas exclusivamente até 2025, e a meta que sobe para 70% até 2030. Em um estudo de 2019 (ENANI 2019), últimos dados oficiais, a amamentação exclusiva até os 6 meses foi de 45,8%. No Nordeste essas taxas diminuem. Se pensarmos na realidade da Bahia, uma parcela significativa de recém-nascidos acaba não tendo acesso pleno ao aleitamento materno devido a um conjunto de barreiras que vão além da decisão individual da mãe. Muitas mulheres enfrentam dificuldades técnicas no início da amamentação, como pega incorreta e dor, mas não recebem apoio oportuno dos serviços de saúde, seja por falta de acompanhamento adequado no pré-natal e no parto, seja por desigualdades no acesso à informação.

 

Soma-se a isso o impacto do retorno precoce ao trabalho, em um estado marcado por altos índices de informalidade e vínculos precários, onde grande parte das mães não dispõe de licença-maternidade remunerada nem de ambientes favoráveis, como salas de apoio à amamentação, o que favorece o desmame precoce. Além disso, os determinantes sociais de saúde, como renda, escolaridade e moradia, e o racismo institucional, que se reflete no menor acesso das mulheres negras a aconselhamento sobre amamentação e direitos no parto, reforçam as desigualdades. Nesse contexto, o “não acesso” ao aleitamento materno deve ser compreendido como a soma de fatores estruturais — trabalhistas, sociais e raciais — que limitam o direito da díade mãe-bebê de viver a amamentação de forma plena e contínua. 

 

Na Bahia, os bancos de leite humano têm um papel fundamental no apoio à amamentação e na saúde de recém-nascidos, especialmente prematuros ou de baixo peso. O leite coletado é destinado principalmente a bebês internados em UTIs neonatais ou com necessidades especiais de alimentação. Além de fornecer leite, os bancos oferecem orientação às mães, apoio psicológico e coleta domiciliar, fortalecendo o aleitamento materno. A doação é voluntária e gratuita, sendo um ato de solidariedade que salva vidas e promove o desenvolvimento saudável dos bebês.

 

Foto: Acervo Pessoal 

 

Quais são os principais benefícios do aleitamento materno para o bebê? E para a mãe, quais são os benefícios da amamentação? 

Para o bebê, os benefícios incluem: fortalecimento do sistema imunológico, proteção contra infecções respiratórias e gastrointestinais, melhor desenvolvimento cognitivo e menor risco de desenvolver obesidade e doenças crônicas no futuro. Para a mãe, a amamentação auxilia na redução do sangramento pós-parto, contribui para o retorno do útero ao tamanho normal, ajuda no controle do peso e reduz o risco de câncer de mama e de ovário. Além disso, fortalece o vínculo afetivo com o bebê. 

 

O que pode causar baixa produção de leite e como aumentá-la? 

A baixa produção de leite pode estar relacionada a fatores como pega incorreta do bebê, intervalos longos entre as mamadas, estresse, cansaço, hidratação insuficiente ou falta de apoio no processo de amamentação. Algumas condições clínicas do bebê, como disfunções orais, dificuldades motoras de sucção e a chamada “língua presa” (anquiloglossia), podem dificultar a amamentação eficaz, impactando indiretamente na produção de leite. Para aumentar a produção, recomenda-se manter a amamentação em livre demanda, garantir a pega correta, buscar ambientes tranquilos, manter boa alimentação e hidratação, além de procurar apoio profissional quando necessário. Quando há suspeita de alterações orais no bebê, a avaliação de um fonoaudiólogo pode ser fundamental. 

 

Quais são os direitos das mães que amamentam no ambiente de trabalho? Ou que continuam em processo de amamentação após licença maternidade? 

A legislação brasileira assegura licença-maternidade de 120 dias, podendo ser prorrogada para 180 dias em empresas cidadãs. Após o retorno ao trabalho, a mãe tem direito a dois intervalos diários de 30 minutos para amamentar ou retirar o leite até que o bebê complete seis meses, podendo ser estendido em casos especiais mediante recomendação médica. Além disso, o aleitamento em espaços públicos é garantido por lei, sem restrições. É importante destacar o material de apoio elaborado pelo Ministério da Saúde, o “Manual de Orientações às Mães Trabalhadoras que Amamentam”, que traz informações sobre direitos, formas de conciliar a rotina de trabalho com a manutenção do aleitamento e orientações práticas para a coleta e o armazenamento do leite materno. Esse manual é uma ferramenta essencial para que as mães conheçam e exerçam seus direitos. 

 

Como hospitais, profissionais e projetos de saúde podem auxiliar e contribuir neste processo de amamentação? 

Podem adotar práticas da Iniciativa Hospital Amigo da Criança, como incentivar o contato pele a pele e orientar a amamentação na primeira hora de vida. Profissionais de saúde devem oferecer acompanhamento contínuo, escuta e acolhimento às famílias. Projetos de saúde e campanhas educativas também são fundamentais para combater mitos e oferecer suporte emocional e técnico às famílias. A contratação de fonoaudiólogos para compor as equipes multiprofissionais, pelas instituições é uma necessidade para obterem estratégias mais eficazes.

 

Foto: Acervo Pessoal 

 

Quais são as principais dicas para gestantes de primeira viagem que estão iniciando o processo de amamentação? 

Buscar informações ainda durante a gestação; confiar no seu corpo e na sua capacidade de amamentar; manter contato pele a pele logo após o parto; não oferecer chupetas ou mamadeiras; amamentar em livre demanda; e procurar apoio de profissionais especializados sempre que surgirem dúvidas ou dificuldades. O mais importante é lembrar que cada experiência é única e que pedir ajuda faz parte do processo. 

 

Hoje na Universidade Federal da Bahia, como os estudantes de fonoaudiologia dentro de projetos atuam a respeito de debates sobre o tema? Como realizam esse trabalho acerca da amamentação? 

O curso de Fonoaudiologia tem uma sua grade curricular componentes obrigatórios que abordam essa temática, e há um incentivo de metodologias ativas que os aproximem das práticas. Participam ainda de projetos de extensão e pesquisa voltados para a saúde materno-infantil, incluindo a amamentação. Coordeno o projeto de extensão AMAMAIS/@_amamais (Fonoaudiologia UFBA no Apoio, Incentivo e Promoção ao Aleitamento Materno e Alimentação Complementar Saudável e Respeitosa), do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que tem como objetivo promover a saúde materno-infantil por meio da divulgação de informações baseadas em evidências científicas, visando instrumentalizar a comunidade acadêmica e a sociedade civil para o apoio e incentivo ao aleitamento materno e à alimentação complementar saudável e respeitosa.

 

De forma geral, os estudantes de fonoaudiologia realizam ações educativas em comunidades, hospitais e unidades de saúde, sempre com supervisão docente e quando possível dos profissionais fonoaudiólogos e de outras especialidades que atuam nas instituições. A formação acadêmica se conecta diretamente com a realidade social e contribui para a melhoria da saúde pública. 

 

A amamentação não é apenas um ato biológico, mas também um gesto de amor, cuidado e proteção que impacta toda a sociedade. Investir no aleitamento materno é investir em saúde pública, em qualidade de vida e no futuro das nossas crianças. Por isso, é fundamental que mães recebam apoio de suas famílias, dos profissionais de saúde, das instituições de ensino e também do Estado, por meio de políticas públicas. Cada gota de leite materno oferecida a um bebê representa um passo a mais para um mundo mais saudável e mais justo.